Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ao Vivo: Mulatu Astatké (19/03/2011; Sesc Vila Mariana, São Paulo)

Aquele que só conhece o nome, no nome não vê… Prefiro valorizar a espontaneidade e citar a frase de Pedro Sorongo de cabeça, abrindo mão de sua forma devida. Completo-a, entretanto, com um célebre bordão nas palavras de Mestre Marçal: aquele que procura o que não conhece, desconhece quando encontra. O tipo de advertência pode até diferir, mas ambas as frases nos aconselham a conhecer com olhos distantes, antes de julgar e desejar alguma coisa. Sábio conselho.

Desprovido desta inteligência, me pus a perguntar o que esperar de um concerto de Mulatu Astatké, se não a celebração de uma carreira que já deu certo, que já rendeu seus melhores frutos e que agora se resume a repetição de padrões que o fizeram famoso? O vídeo Timeless confirmou em parte a minha suposição equivocada, ao lançar luzes somente sobre sua obra consolidada. Mesmo assim me lancei à experiência, como se alguma força cega e absolutamente desconectada da minha consciência estivesse me advertindo para o inesperado. Não, minto: o álbum Mulatu Steps Ahead também teve fundamental importância no meu interesse pelo concerto.

Pouco mais de dez minutos após o horário marcado, Mulatu e sua banda entraram no palco do SESC Vila Mariana com sua banda, formada por James Arben no saxofone, Richard Baker na conga, Alexander Hawkins no piano, Daniel Keane no cello, Oliver Brice no baixo, Davide de Rose na bateria e Byron Wallen no trumpete. E, amigos, vos digo: que entrada! Se se trata de ethiojazz, jazz, soul, funk… O que importa é que a música de Mulatu tem cacife suficiente para se afirmar no cenário mundial.

Retirada do repertório de Duke Ellington, a misteriosa “Dèwèl” deu a partida. Seguiram-se sucessos e novas composições, todas apresentadas com irresistível simpatia pelo autor e saudadas efusivamente pelo público: “Yèkèrmo Sèw”, “Yègellé Tezeta” (com a participação inesperada de Talib Kweli), “Motherland”, “The Way To Nice”, entre outras, foram executadas com um equilíbrio eficiente – e, no meu caso, surpreendente – de técnica e expressão.

É notável a aptidão da banda para criar dinâmicas de volume com fluência, alternando camas instrumentais silenciosas com ataques dignos de big band americana. Mas à medida em que o show avança, percebemos também os nexos entre as dissonâncias próprias do ethiojazz, com ruídos e percussões rasgadas, resultando em uma sonoridade muito própria, extremamente colorida.

Para além do conservadorismo de Roy Hargrove e Joshua Redman, e a vanguarda de William Parker e Ken Vandermark, a música de Mulatu se insere com um sotaque próprio no cenário do jazz, mas o extrapola incorporando o funk, o soul e as escalas orientalizadas do ethiojazz. Os dois shows no Sesc Vila Mariana foram suficientes para prová-lo, além de mostrar aos infiéis de plantão a atualidade e a absoluta necessidade de sua música. Eu que o diga. (Bernardo Oliveira)

Foto: Maurício Valladares (manythnx!)

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Publicado às 21 de março de 2011 por em ao vivo e marcado .
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