Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aube – Variable Ambit (2011; Housepig, EUA [Japão])

Aube é o pseudônimo de Akifumi Nakajima (n. Japão, 1959), um designer e músico que se notabilizou no campo do noise por processar sons vindos de uma única fonte sonora por projeto. Sua carreira data do começo dos anos 90, e desde então ele produziu uma infinidade de lançamentos em CD, CD-R, fita cassete e outros formatos, uma boa parte por seu próprio selo, G.R.O.S.S. Entre as fontes sonoras utilizadas por Nakajima para seus discos, estão a água (parada ou jorrando), ondas cerebrais, páginas da Bíblia sendo rasgadas, batidas de coração, entre outros, reprocessando-os severamente com filtros e eletrônicos em geral. Variable Ambit quebra um silêncio discográfico de quatro anos, mas é um trabalho de 2003 que havia ficado na prateleira do selo que o encomendou. A única fonte sonora do disco é o feedback. (RG)

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Akifumi Najakita não se considera um músico, preferindo chamar de design o que faz em termos sonoros, já que ele é um designer. A controvérsia no fundo é tola, mas ela permite iluminar um traço significativo do trabalho de seu projeto Aube: o cuidado com delineamentos, contornos e processamentos progressivamente transformando e deformando maleavelmente um material de base, mas com a ênfase não nesse material de base, e sim nas operações criativas de reshape que são feitas a partir da matéria prima, não por causa dela. Ora, isso exprime, sim, características do processo de trabalho em design, mas também pode muito bem dar conta do modus operandi do escultor diante de sua pedra bruta, a não ser que sejamos aristotélicos e creiamos que a escultura já está contida em potência na pedra (no caso o artista agiria “por causa dela”). O que vale como gás para o pensamento, aqui, é a aposta numa expressividade que vem não de um querer dizer da inspiração tradicional, mas na exploração das possibilidades “plásticas” operadas em cima de um material e na beleza bruta (= não metafórica, simbólica) do resultado. Operando sistematicamente com uma única fonte sonora por disco, o Aube ainda aponta para a maior utopia do artista, a plasticidade infinita, a maleabilidade absoluta de toda matéria. O Aube pode extrair sons individuais fascinantes de suas fontes sonoras, mas o grande espanto sempre vem ao fim do projeto, quando é possível se dar conta de toda a gama sonora variada alcançada pelo artista ao longo de suas “andanças”, torcendo e retorcendo material sonoro como se fosse chiclete.

Apesar de estar arrolado como noise japonês e de fato pertencer à cena por afinidade e por trabalhos colaborativos com outros artistas noise (já teve inúmeros projetos com membros de C.C.C.C., Incapacitants, Masonna e outros), o Aube não é exatamente um projeto de noise. Ainda que alguns de seus sons conseguidos sejam avassaladores e desafiem a capacidade de exposição sonora do ouvinte, não existe nenhum compromisso constante de agressão sônica, de volume massivo ou atmosferas lúgubres. Ao contrário, muitos de seus discos não têm nada de abrasivo, ficando mais confortáveis perto de discos de ambient ou de field recordings do que de outros discos de noise. Em resumo, o noise aparece no Aube como elemento ocasional, não como dado essencial. Seu dado essencial permanece o mesmo, inalterado depois de dezenas e dezenas de lançamentos: o alcance de texturas diferentes criadas a partir de uma única fonte sonora.

Sabendo que a fonte sonora de Variable Ambit é o feedback, é difícil imaginar esse disco situando-se na esfera ambient da produção do Aube. E imagina-se certo. Como sempre no Aube, o material é retorcido metodicamente, permitindo ao ouvinte fruir cada etapa das mudanças de sonoridade e das intensidades de frequência atingidas, sem nada da selvageria “tudo ao mesmo tempo agora e sem tempo de digerir mentalmente a coisa toda” de um Merzbow. Ainda assim, é feedback, e invariavelmente o som há de ser cortante, ríspido, desafiador, por vezes no limite do intolerável, como a frequência pura de feedback (≈12k) que domina a faixa de abertura, “Ambit”. As faixas seguintes, “Strayed Base” e “Strayed Base Oblique”, sairão do registro agudo cortante e trabalharão mais os graves e sons mais cheios, apenas com refluxos de agudos mais ríspidos. “Crocked Fringe” utiliza o feedback como oportunidade para explorar minuciosas tilintações elétricas, ao passo que “Vector Inside” apoia-se numa dinâmica de drones graves sendo destruídos por um padrão fixo de ruído, quase um riff noise. As faixas seguintes obedecem a lógicas menos rigorosas, incorporando as sonoridades das faixas anteriores num contexto mais maximalista e voluntarioso.

Ainda que não seja efetivamente um a volta à ativa, Variable Ambit vem matar a saudade de quatro anos sem a prolífica produção de Nakajima. Mexendo com uma das fontes mais utilizadas por músicos para fazer barulho, de Jimi Hendrix ao Velvet Underground passando por Sonic Youth, e ainda assim conseguindo extrair sonoridades incomuns, indo do pontilhismo às rajadas de intensidade, sempre bem dosadas na duração, o Aube mostra por que é um dos artistas sonoros incontornáveis de nosso tempo. (Ruy Gardnier)

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Ainda que os inúmeros títulos que dão corpo à obra monumental de Akifumi Nakajima devam ser classificados na seara do noise, algo de muito espontâneo e natural fala em seus trabalhos. Não me refiro à decantada distinção entre arte e vida – que, em última instância, corresponde à diferença fictícia entre natureza e cultura – ou mesmo à denúncia de sua existência. Mas à percepção segundo a qual um trabalho frio, regido por uma lógica interna extremamente objetiva e criteriosa, pode alcançar momentos de pungente expressividade, como ocorre em Variable Ambit.

Não me refiro ao labor específico da música erudita, mas a um tipo de procedimento que guarda um certo grau de semelhança com os processos de experimentação científica. Trata-se de um processo marcadamente técnico, pautado em dinâmicas de tentativa e erro por vezes exaustivas. O que leva a seguinte questão: qual o critério empregado pelo autor para determinar o que participará do resultado final, o que será refugado? Está claro que não se trata de improviso retirado da massa de tentativas, sem um corte, um tratamento. Há um pensamento forte e austero que se afirma no soar irascível do Aube, e que Variable Ambit vem confirmar.

Talvez “Ambit” seja a faixa mais difícil do disco, graças a forma extremamente incômoda com que se apresenta o som agudo no início. Mas seu diálogo com “Crocked Fringe” e “Ambush”, ambas também calcadas na burilação de sons agudos, produz, no decorrer do álbum, a sensação de continuidade temática, através da qual Nakajima desenvolve nexos e articulações deste campo sonoro cruel e virginal. Da mesma forma, “Strayed Base” e “Strayed Base Oblique” compartilham de uma estrutura construída por justaposições que resultam em farfalhares e explosões, ao passo que “Vector Inside” e as duas últimas, “V/A” e “V/A R”, operam nos registros mais graves, ainda que brutalmente entrecortados por incisivos rompantes de sonoridades agudas e médias. Variable Ambit, em tradução livre, âmbito variável: trata-se de um universo próprio, preenchido por signos sonoros alienígenas. E Nakajima, seu artífice…

Utilizando-se apenas de feedbacks como matéria prima, o autor obtém uma gama sonora sutilmente matizada, que incorpora chiados, espirros, cliques, explosões, insetos, sons indecifráveis e demais sons considerados não-musicais. E no entanto, além de riqueza e desafio, Variable Ambit manifesta coesão, uma faixa reiterando a outra, criando ecos e articulações umas com as outras. Circunscrevendo este campo sonoro negligenciado por uma percepção restrita aos sons considerados ou musicais, ou “naturais”, este disco situa o ouvinte como que em um universo inexplorado. Assim, o que determina a força espontânea de Variable Ambit é, contraditoriamente, a articulação entre diversas formas sonoras distintas, organizadas em um todo coerente, que emula um universo sonoro específico. É justamente este alto controle da produção que confere organicidade ao trabalho de Nakajima. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 24 de março de 2011 por em eletrônica, musique concrète, noise e marcado , , .
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