Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cyclo. – id (2011; Raster Noton, Alemanha)

Cyclo. é uma dupla criada pelo alemão Carsten Nicolai e pelo japonês Ryoji Ikeda, dois artistas com extensa carreira solo na música eletrônica experimental. Ikeda é renomado por sua série de discos pelo selo Touch (+/-, 1996; oºC, 1998; Matrix, 2001; Op., 2002) e Nicolai por seu projeto Alva.Noto, com lançamentos solo (Transform, 2001; Xerrox Vol. 1, 2007) e colaborações com Ryuichi Sakamoto (Vrioon, 2002; utp_, 2008). Como Cyclo., Nicolai e Ikeda trabalham sobre a representação visual das frequências sonoras que criam, interagindo sobre elas às vezes até com sons que ficam aquém da capacidade auditiva humana. id é o segundo álbum da dupla, e explora figuras matemáticas como cicloides e curvas de Lissajous. O disco não foi masterizado,  a fim de evitar distorções nas formas geométricas dos sons utilizados. (RG)

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Ryoji Ikeda é o príncipe das minúcias ultrassônicas, rei do glitch miniaturizado, com timbres fugidios de uma pureza de tirar o fôlego. Carsten Nicolai é o mago das utilizações de sinais de frequência como marcações rítmicas ou intensas camadas de ruído branco, secando a estética do Kraftwerk de todas suas coordenadas melódicas até que a música soe como uma sinfonia executável por impressoras, máquinas e outros apetrechos tecnológicos. Já vivemos num mundo pós-cageano e pós-concreto (a música, não a poesia) o suficiente para não precisarmos ficar postulando a cada texto que música é organização sonora, pouco importa o quão “musical” isso soe, mas vale a pena chamar atenção para o repertório sonoro escolhido por Ikeda e Nicolai e sua radical negação de sonoridades tidas tradicionalmente como musicais e – principalmente – orgânicas. Juntos ou separados (e aí incluindo os companheiros de Nicolai na Raster Noton, como Frank Bretschneider e Mark Fell), eles fazem uma música que parece brotar de rincões obscuros da sociedade pós-tecnológica, constituídas inteiramente de elementos que soam robóticos, frios, “sem alma”. Se não há melodia, há o ritmo, um ritmo intenso, frenético e geralmente complexo, mas o ritmo aqui não é nenhuma concessão à “musicalidade” e tampouco à música de pista de dança contemporânea. Dentro dessa estética, ritmo é antes de tudo repetição de padrões, rotinas, loops de programação traduzidos sonoramente. Frequências, sinais, camadas de barulho são na verdade linhas de informação. Nascida das experimentações glitch feitas em torno do selo Mille Plateaux nos anos 90, nas mãos de Ikeda, Nicolai e Bretschneider ela se transformou na expressão máxima de um minimalismo robótico que encanta pela complexidade de padrões e pela pureza dos timbres, tudo configurado dentro de uma coerência proibitiva de tão perfeitamente lógica. Ao levar esse conceitualismo ao ponto de a sonoridade valer menos do que a representação visual do som, o Cyclo. não estaria testando os limites dessa estética e, no fim das contas, declarando a insuficiência relativa dessa filosofia sonora tão serrada? Essa música, “composta” em termos não-musicais, não resumiria uma premissa já em si viciada, secundarizando a música em nome de uma subfilosofia disfarçada? A pergunta é legítima mas a resposta é não.

Primeiro, porque independente de ser primeiramente “visual” e apenas secundariamente “sonora”, estamos falando de representação visual do som, e portanto de som, apenas não configurado e composto de acordo com inspiração sonora, mas visual. Em segundo lugar, porque a música sozinha vibra, vibra bastante, faz vibrar e provoca intenso estranhamento, ainda mais se não estamos acostumados com outros discos de Ikeda ou do selo Raster Noton. Terceiro, porque é ilusório achar que existe um campo dissociado do mundo chamado “música” em que os artistas incidem apenas por sua conexão com uma divindade que lhes fornece uma vocação. A inspiração desses artistas é desabusadamente pós-industrial, pós-tecnológica, um pós-Computer World que virou Computer-Us, e a música pode ser “lida” (termo que virou um câncer no vocabulário ensaístico e crítico, mas que aqui assume uma real propriedade) tanto como fluxo de informações quanto como fluxo visual. É o tudo-digital, e ninguém tira desses artistas a evidência de que suas obras são as orquestrações mais exatas de uma faceta muito importante da vivência contemporânea. Agressiva em sua “inorganicidade”, mas que é a organicidade de nossa era, essa música nos representa, nos exprime e ilumina parte de nossa forma atual de estar no mundo.

Dentro da estética já modalizada pela Raster Noton, a audição de id não traz maiores reformulações, apenas apresenta explorações distintas de um mesmo tipo de procedimento. Em comparação com Cyclo, o primeiro álbum, esse segundo é bem mais rítmico e pesado, menos calcado em glitches e em manutenção de frequências de opressão auditiva, e bem mais baseado em repetição de padrões. Assim como Cyclo, os sons de id ocupam quase sempre as extremidades do registro sonoro, com agudos muito agudos e graves muito graves. Se o começo do disco sugere um “mais do mesmo” bretschneideriano (= ritmos mais complexos), logo depois vão surgindo soberbas interferências ao ritmo e algumas marcas características de Nicolai (paredes de chiado) e Ikeda (microtons e agudos preciosos) que permanecem impressionando mesmo quando já são esperadas. Mas os melhores momentos ficam mesmo para o final, quando a partir de “Id#08” a marcialidade da percussão evoca música industrial (ecos da colaboração de Nicolai com Blixa Bargeld?) e com “Id#09” brota um fantástico turbilhão de ritmos ferrenhos repetidamente brecados/reconfigurados por ruídos ao ponto de criar um firme sentimento de fragmentação, uma “Windowlicker” minimalista/glitch.

No contexto dos lançamentos da Raster Noton e da carreira solo de ambos os artistas, id é mais um passo, não um salto. Mas no contexto bem mais largo do mundo e das sonoridades contemporâneas, id dá provas revigoradas da coerência, da minúcia e da pertinência do veio estético de Ikeda e Nicolai, artistas que nos encantam há anos musicando nosso próprio cotidiano íntimo, através das formas das máquinas mudas com as quais convivemos sem sequer nos dar conta. (Ruy Gardnier)

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Mesmo assimilando todo o arsenal técnico e conceitual que fundamenta sua construção, me parece necessário reconhecer que o refinamento das texturas e formas ritmicas em Id é obra de artista. De que valeria tamanha pesquisa se Ryoji Ikeda e Carstein Nicolai não fossem grandes arquitetos sonoros, dispondo os sons particulares com os quais notabilizaram seus respectivos trabalhos, com grande arte e engenho?

Ademais, tenho para mim que o que de fato interessa nas transposições propostas pela dupla – bem como pelos autores ligados ao Raster-Noton – não se resume à exploração da interface entre diferentes suportes e modos de expressão, mas remete ao desejo mais imediato de fruir o substrato efetivo destes processos.

Em suma, o que interessa neste caso é a composição, mesmo que tenhamos que promover o alargamento da expressão “composição”, de modo a incluir o procedimento de produção como elemento a ser iluminado pela própria obra.

Em relação ao primeiro trabalho do Cyclo., lançado há mais de 10 anos, se compararmos a timbragem com as composições, o segundo fator se tornou bem mais atraente, enquanto o primeiro, de certa forma, estagnou. Não que tenha se tornado menos interessante e vigoroso, mas simplesmente não se alterou de forma a chamar a atenção. O mais notável em Id é a inventividade com que a dupla manipula o ritmo de cada uma de suas 11 faixas.

Se tomarmos como exemplo “ld#6” ou “ld#10”, podemos atribuir alguns rótulos a essas faixas – noise-industrial ou drone, respectivamente –, mas parte desta percepção é resultado da ênfase absoluta com que a dupla trabalha os aspectos rítmicos, abrindo mão da via mais fácil, que seria a da repetição, banalizada por uma série de fenômenos recentes como o psy-trance por exemplo. Há repetição em Id, mas ela não se presta a fiar a complacência daqueles produtores que preferem criar texturas pseudo-viajandonas sobre uma base segura e regular.

Reparem na sequência final de “ld#7” ou na introdução atordoante de “ld#9”, como é exemplar a utilização parcial da repetição – pois não formam repetições de fato, incorporando gradativamente pequenos detalhes. Apenas sugerem um espectro rítmico, que a percepção do ouvinte se encarrega de completar no curso do conturbado processo de assimilação deste espinhoso universo sonoro.

O resultado é de tal forma convincente, a experiência de sua audição é tão intensa, que não cabe aqui afirmar o veredito do gosto próprio, mas sobretudo, o testemunho do sobrevivente, do ouvido apto a encontrar a beleza em meio aos resquícios de dados e informações que inundam este bendito “mundo real”. Id joga um balde de tinta preta por sobre as linhas que demarcam os limites entre música e som, sentido e forma, e assim põe o corpo em risco – os tímpanos, os dentes, os músculos. Mas para aquele que se deixa penetrar por sua beleza controversa, pode resultar em grande prazer. Não se trata de uma música democrática, mas restrita, imponderável, inegociável: pois este me parece o seu mais belo atributo. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 24 de março de 2011 por em eletrônica, experimental e marcado , , , , , .
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