Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aaron Neville – I Know I’ve Been Changed (2010; EMI Gospel, EUA)

Aaron Neville é um cantor e músico americano nascido em Nova Orleans. Seu primeiro sucesso, “Tell It Like It Is”, foi lançado em 1966. Em 69, lançou “Hercules”, talvez sua faixa mais conhecida, e na década seguinte trabalhou com Allen Toussaint. Com seus irmão Art, Charles e Cyril, formou o Neville Brothers, cujo álbum Yellow Moon obteve sucesso, aclamado pela crítica e pelo público. Na virada da década de 80 para a de 90, gravou com Linda Ronstadt três duetos consecutivos: “Don’t Know Much”, “All My Life” e “When Something Is Wrong with My Baby”, ganhando mais prêmios e reconhecimento. I Know I’ve Been Changed é seu décimo-quinto álbum, e foi produzido por Joe Henry, responsável por álbuns de Elvis Costello, Allen Touissaint e Rodney Crowell. (B.O.)

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O retorno à música tradicional de Nova Orleans tem se tornado uma espécie de refúgio para seus grandes músicos. A evidente necessidade de reforçar um eixo identitário pode explicar porque artistas que levaram suas carreiras às plagas do universo do pop, elaboraram álbuns em conformidade com as regras da música sublime que notabilizou aquele lugar. Junto aos últimos álbuns de Allen Toussaint e Kermit Ruffins, I Know I’ve Been Changed vem somar a este esforço, qual seja: executar a música de Nova Orleans, segundo as regras da arte, mas sem auto-indulgência, sem confundir o tradicional com o condescendente, sem recorrer a fórmulas fáceis. Como é possível que diante de uma massa de clichês, exaustivamente repetidos, emerja uma música livre, empolgante e, sobretudo, fresca?

Muito admiraria se por trás desta proeza não estivesse Aaron Neville, o mais belo falsete da música americana. Que a produção não fosse de Joe Henry, responsável por pérolas de Solomon Burke e pelo grande clássico que é The Bright Mississipi de Allen Toussaint – que participa do disco. E que o repertório não contivesse alguns dos mais belos hinos religiosos desta terra conhecida por seu carnaval, o Mardi Gras. Pois bem, estaria redondamente enganado se fosse de outra forma.

I Know I’ve Been Changed possui um aspecto de songbook, ao contrário de The Bright Mississipi. Trata-se portanto de um álbum criado para privilegiar a belíssima voz de Neville, através de uma cama musical ao mesmo tempo generosa para com o cantor, porém igualmente expressiva, igualmente repleta de detalhes elegantes e saborosos. Por exemplo, quando o blues é menos arrastado, aproximando-se da pegada do rock’n’roll de primeira hora, o toque pesado da caixa cortando o ar. Ou a diversidade dos grooves delineados pelo piano de Toussaint, o instrumento central, especialmente em faixas como “Don’t Let Him Ride” ou no R&B “I Done Made Up My Mind”. Ou ainda no mero fato de que aos 70 anos de idade, Neville continue cantando com aquela voz que o fez correr por fora no panorama do canto soul norte-americano. Talvez os melhores exemplos sejam os dois gospels que abrem e encerram o álbum, “Stand By Me” e “There’s a God Somewhere”, nos quais ele insere nuances graves sobre o falsete característico, com a mesma desenvoltura de 20 ou 30 anos atrás.

Com I Know I’ve Been Changed acessamos o que há de mais verdadeiro e profundo na música: o fervor – que pode ser também um fervor pela orgia, pela vida. Ele que ateia fogo à música, mesmo quando ela parece fria e calculada. Mas não me refiro aqui à “autenticidade”, um conceito vago. Como no samba, no jazz, e em outras músicas características da diáspora negra, em I Know I’ve Been Changed as regras servem como uma plataforma lisa e aderente, sobre a qual desfila o que de mais poderoso a música pode nos legar: uma “promessa de felicidade”. (Bernardo Oliveira)

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Explicando sua fascinação pelas músicas da África e da Ásia que pesquisa com obstinação e eventualmente regrava, Rick Bishop reclamava da ausência de “alma” (soul) na maior parte da música atual praticada no primeiro mundo, e que mesmo na soul music atual ele não reconhecia nenhuma alma. A questão é controversa, mesmo porque “alma” não é uma coisa absolutamente palpável e não é um atributo que todos reconhecerão igualmente nas mesmas obras, mas a discussão em que Bishop queria chegar é bastante pertinente: é extremamente raro ouvir nos gêneros estabelecidos alguém tocando ou cantando como se sua vida dependesse disso, exercendo sua expressão como forma de devoção ao que quer que seja. Não que isso seja um dado fundamental para qualquer tipo de música (ainda que para o gosto de Bishop o seja), mas quando aparece alguém com essa entrega total, arrematada naturalmente pelo talento e pelo foco no talhe, os resultados podem ser de uma beleza surpreendente. A princípio a música religiosa estaria mais apropriada a esse tipo de entrega, mas ninguém precisa ser gênio para notar que a quase totalidade da música feita com pretensa intenção religiosa é burocrática, sem inspiração e tem o objetivo básico de servir como veículo aos fiéis incautos (isso quando não faz parte da espúria “indústria de substituição”, que produz atrocidades como o metal cristão, o pagode cristão e assim por diante). É claro que não é prerrogativa deste texto esgotar a questão, mas esta pequena reflexão serve para salientar a extrema raridade de se ouvir música atual com carga espiritual intensa (seja qual for a espiritualidade), e encaminhar para o que há de mais notável em I Know I’ve Been Changed, essa joia recém-lançada por Aaron Neville.

I Know I’ve Been Changed é um disco de gospel/soul composto inteiramente de músicas de devoção, com hinos e spirituals bastante fincados na tradição (pesquisando, é possível ouvir versões de Big Bill Broonzy, Sam Cooke e outros pilares da música negra para canções aqui presentes), Mas o que ouvimos nada tem a ver com o tom solene frequentemente atribuído a expressões de revelação teísta. O Deus celebrado por Aaron Neville é um deus vibrante, límpido, que dança  em suíngue descontraído enquanto o piano de Allen Toussaint inventa nuances rítmicas e o falsete da interpretação provoca arrepios. O grande mérito de Aaron Neville e do produtor Joe Henry em I Know I’ve Been Changed é fazer com que as versões do disco soem íntimas, praticamente confessionais, mantendo parte do frisson ritualístico (essencialmente nos coros) mas dando a impressão geral de serem preces cantadas, acima de tudo vulneráveis.

O encanto da voz doce e aveludada de Aaron Neville não é segredo de ninguém, e em I Know I’ve Been Changed ele a utiliza magnificamente, acrescentando a seu habitual talento de cantor um furor frágil que casa perfeitamente com a energia das faixas e com as escolhas do arranjo. Neville está absolutamente à flor da pele, e isso empresta à voz uma veemência notável, uma veemência não de pastor, mas de um seguidor honrando a presença divina. Mesmo os floreios vocais assumem uma propriedade vigorosa, uma vez que ele parece estar em estado de semidelírio, e os balbucios melódicos (sonoramente belíssimos) acabam soando como os gageujos diante da grandeza da divindade. Com repertório impecável (destaque para “Stand By Me”, “I Done Made Up My Mind” e “You’ve Got To Move”), músicos excelentes e arranjos ultracoesos, I Know I’ve Been Changed não tem um só momento de fraqueza, redundância ou arroubos melosos. É o encontro da liturgia com a elegância, é o gospel filtrado pela saculejante e relaxada New Orleans, é um grande disco tradicional que vibra o tempo inteiro, cheio de vivacidade, parecendo que essas músicas foram compostas ontem. Obra de antologia. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 31 de março de 2011 por em R&B, soul e marcado , .
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