Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Boubacar Traoré – Mali Denhou (2011; Lusafrica/Proper, França [Mali])

A história do cantor, compositor e guitarrista malinense Boubacar Traoré começa no início da década de 60, quando ele despontou no cenário musical de seu país com uma mistura de ritmos tradicionais da etnia Kassonké, música árabe e blues. Amargou o ostracismo nas décadas seguintes, mas em 1987 apareceu em um programa de TV no Mali, causando comoção. Pouco tempo depois, com o falecimento de sua esposa, Traoré se mudou para Paris, onde trabalhou na construção civil. Até ser redescoberto pelo selo britânico Stern’s, que lançou Mariama, seu primeiro álbum, em 1990. Desde então, Traoré se manteve como um dos nomes mais importante da música malinesa. Mali Denhou é seu sétimo disco, o primeiro desde Kongo Magni, de 2005. (B.O.)

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Como evitar as analogias, como preservar a diferença desta música em relação a outras inflexões griots, como por exemplo o songhaï de Sidi Touré, camarilhado na semana passada? Apesar das dificuldades técnicas – por exemplo, a polissemia de palavras como griots, kassonké e songhaï, que representam etnias e ritmos ao mesmo tempo –, paira soberana a riqueza da mistura de Boubacar Traoré, conhecedor do blues, e habitué dos grandes centros urbanos do Ocidente e o do Oriente.

Mali Denhou é o nome de batismo do novo trabalho deste incansável cantor, compositor e instrumentista malinês. Seu aspecto, como no álbum abaixo, de Aaron Neville, é o de uma música que mantém seu encanto porque permanece enraizada em práticas relativamente ancestrais – a mais notável consistindo em inserir sutis variações sobre um tema que se repete, pontuando as palavras sobre o eixo melódico. Mas a música de Traoré não é meramente “tradicional”, ela se altera no tempo, se mistura na selva de referências. Essas variações são perceptíveis, sobretudo em comparação com seu último disco, Kongo Magni.

Cada vez mais sua música é permeada por alusões e inclusões. Guarda semelhanças interessantíssimas com a música árabe, e também com a música arabo-andalusa – daí o aspecto “latino” de faixas como “Dundobesse M’Bedouniato” e “Mondeou”. Se aparenta demais com o blues, mas também com a levada sincopada do cajun de Nova Orleans, em pérolas como “M’Badeou” e “Djougouya Niagnin”; e traz também uma percussão sofisticada, quase melódica, que valoriza o diálogo entre as cordas balouçantes e a voz arenosa de Traoré. Uma beleza que se traduz em parcimônia, mas também em esmero.

De nada adianta recontar a história de Traoré, sublinhando seus feitos extraordinários, a notoriedade reconquistada décadas depois de suas lendárias aparições nas rádios de Bamako, a mistura prodigiosa de blues americano, música árabe e malinesa, como emana descontração, calor… De nada adianta repetir todo o cortejo de argumentos, exclamações e elogios que surgiram na época de seus dois primeiros álbuns, Mariama e Kar Kar, que, em todo caso, podem permanecer perfeitamente válidos. Mas… de que adianta? Ao leitor curioso recomendo que pesquise a vida de Traoré, pois temos aqui, diante de nós, o seu presente e o seu futuro. (Bernardo Oliveira)

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Podem dar quantas explicações quiser, mas sempre provocará espanto a tamanha expressividade provocada por um homem com seu violão. Com esse simples acoplamento, vozes limitadíssimas tornam-se belas (Nelson Cavaquinho), habilidades parcas de instrumentação ganham propriedade ímpar (Kurt Cobain quando desacompanhado). Ela fornece um manancial de corporalidade, de presença e potencialmente de sentimento muito difícil de ser repetido em outras formas de instrumentação, das câmaras às orquestras. Mali Denhou não é um disco de voz-e-violão, mas são eles que estão no holofote do disco, ambos guiados pelo mesmo personagem, Boubacar Traoré. Sua voz é maviosa, forte, doce e doída ao mesmo tempo, e tem a serenidade de jamais ir além ou aquém do volume, da duração ou das inflexões pedidas a cada momento. O violão é o guia rítmico de praticamente todas as faixas, com levadas sinuosas que são ao mesmo tempo as melodias principais, repetidas no vocal, e ainda que o violão não tenha um papel tão proeminente quando no disco recém-camarilhado de Sidi Touré, ele fornece toda emotividade e presença que se pede a ele. Ao lado da voz e do violão de Boubacar Traoré, Mali Denhou, como se fosse pouco, ainda apresenta mais um destaque, a gaita do francês Vincent Boucher, pungente pela forma discreta porém  muito sentida de tocar, casando perfeitamente bem com as levadas de violão e a voz de Traoré. A percussão é sumária, por vezes inexistente, e quando aparece é mais para fornecer uma cor rítmica, eventualmente soando um pouco como música caribenha, graças ao som do balafon e de instrumentos rústicos.

As composições de Mali Denhou são todas descontraídas, serenas e penetrantes. Mas, dentro de um padrão básico, Traoré é capaz de encontrar uma boa gama de sensações diferentes, da graciosidade veloz de “Minuit” à introspecção de “Fama”, uma fantástica faixa instrumental guiada pela gaita de Bucher e pelo violão de Traoré. Mas não adianta gastar muita tinta para destrinchar o que há de especial na música de “KarKar” (como o cantor-compositor também é conhecido): é seu grão de voz, a soberba presença da sua voz, um combo timbre-expressão que, como com Clementina de Jesus ou o já citado Kurt Cobain, carrega consigo toda sua dor e sua carnalidade para a voz. É claro que para que ela funcione é preciso que todo o resto esteja certo, mas em Mali Denhou tudo está. As composições são ótimas, os arranjos cirurgicamente sóbrios, e Traoré em total momento de inspiração. O resultado, como não poderia deixar de ser, é um álbum obrigatório e delicioso de se ouvir repetidas vezes. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Boubacar Traoré – Mali Denhou (2011; Lusafrica/Proper, França [Mali])

  1. Christine Houde and Joe Houde
    23 de abril de 2011

    We have been great fans of Boubacar Traore since we first heard “Mariama.” This music with Vincent Boucher on harmonica just plain blew our minds!!! Or should I say “blue our minds…”

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Publicado às 1 de abril de 2011 por em Blues, música do Mali e marcado .
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