Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

FaltyDL – You Stand Uncertain (2011; Planet Mu, Reino Unido [EUA])

FaltyDL é o pseudônimo do produtor novaiorquino Drew Lustman, que desde 2007 vem lançando EPs e singles em selos como Napalm Enema, Ramp Recordings e Planet Mu. Seu primeiro álbum, Love Is a Liability, é de 2009. No ano seguinte, vieram alguns singles e diversos remixes para artistas como Scuba, Vladislav Delay e Mount Kimbie. You Stand Uncertain é seu segundo álbum. (RG)

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Uma das questões que envolvem arte e interpretação de arte, e portanto dizem respeito à crítica, é a questão da personalidade, da marca de identidade que pretensamente caracteriza os grandes autores e as grandes obras. Em música não haveria de ser diferente, e volta e meia nos vemos articulando o argumento de que tal artista não é como os outrros, ele tem uma marca pessoal, etc. Isso não é necessariamente ruim, mas como toda verdade talhada em mármore, pode provocar distorções e miopias a respeito da obra de alguns artistas. Alguns têm marcas certeiras, e no entanto abusam dela a ponto de virarem pastiches de si mesmos, macaqueando reiteradamente o mesmo traço como se fosse um mérito quando na realidade é uma muleta. Outros preferem dar continuidade a um processo de trabalho sem exercerem uma sensibilidade mais característica, mas seus trabalhos ainda assim revelam méritos evidentes. Drew Lustman pertence, pelo menos até agora, a esse último grupo. Ele mostra uma avidez polivalente para trabalhar com diversas matrizes e gêneros, em geral comunicáveis, mas sem estabelecer qualquer traço mais distintivo de autoralidade. Em suas produções há garage, house, techno, 2-step, trip hop, breakbeat, hip hop instrumental, às vezes isolados e mais frequentemente misturados, mas até o momento sem um olhar marcante que caracterize suas produções e, tal qual um Burial, nos façam dizer imediatamente “isso é Falty DL”. No entanto, ouvindo o portentoso You Stand Uncertain, uma indelével coleção de faixas marcantes, certeiras e minuciosamente trabalhadas, a pergunta que vem à mente é: “isso é mesmo tão importante, uma marca?”

Em seu primeiro disco, Love Is a Liability, a questão não se colocava dessa forma porque altos e baixos se revezavam. Mas desde o começo do ano, com o soberbo single “Hip Love”, e agora com You Stand Uncertain, trata-se de uma pergunta inevitável, e a resposta é naturalmente “não”. Sendo um estrangeiro, um americano trabalhando com gêneros do underground britânico, Lustman é livre para fundir gêneros sem o senso costumeiro de segmentação. Mas isso é apenas uma parte pequena da história. O fundamental é o que ele faz com isso.~

You Stand Uncertain se constrói de forma curiosa, misturando gêneros, sim, mas – e isso é mais importante – misturando complexos padrões de percussão sincopada com elementos melódicos fartamente acessíveis, meio safados até. Seu talento de escultor sonoro vai numa guinada completamente diferente da de Four Tet ou The Field, que talham suas matérias-primas até tudo se conformar num conjunto elegante. Com Falty DL, o talento está em conjugar o fácil e o difícil dentro de uma mesma faixa, trabalhando com as facilidades o suficiente para que elas não sejam apenas achados baratos, mas mantendo todo seu poder de acessibilidade e do gancho necessário para fazer cada composição funcionar.

Nesse contexto, tudo cai harmoniosamente na progressão das faixas. No (belo) disco Foundation, do Breakage, as canções provocavam estranhamento quando apareciam em meio às instrumentais. Em You Stand Uncertain, as cantadas e as instrumentais fluem num todo homogêneo, das fusões de 2-step com progressive house que são “Gospel of Opal” (numa sublime interpretação de Anneka) e “Brazil” (vocais de Lily McKenzie) à anarquia percussiva de “Open Space” e aos samples exóticos e aos acordes de teclado de “Lucky Luciano”.

Dentro do panorama eclético criado por Drew Lustman, é curiosamente indicativa a relativa ausência das linhas de subgrave características do dusbtep. É que sempre, ao peso, Falty DL irá preferir a fluidez. O que se perde em pressão se ganha em sensualidade, e Lustman sabe articular seus materiais, com timbres jamais inauditos mas sempre precisos, no sentido de manter o charme e jamais cair na frivolidade. You Stand Uncertain pode ser um disco sem foco, no sentido do olhar, mas no sentido do artesanato, é um disco de foco constante, e um dos destaques que esse ano até agora nos permitiu saborear. (Ruy Gardnier)

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Por mais que se identifique o dub com a música eletrônica européia, ele apareceu a partir de um viés criativo que só pôde nascer e se desenvolver sob a pressão de condições sociais e materiais muito precárias. Ora, se o dubstep não demanda justamente o movimento oposto, ou seja, uma proliferação de equipamentos e aparelhagens as mais diversificadas e tecnicamente aptas a favorecer a sonoridade cristalina e uma ampla gama de camadas e texturas. Se o dubstep permanece incerto, como bem indica o título do segundo álbum do americano Drew Cyrus Lustman, boa parte desta incerteza advém da forma como ele se espraiou e se adequou através dos continentes, particularmente nos EUA.

Do dub, ficaram a levada reggae, as técnicas e o gosto pelo grave. Mas as condições para o dubstep – seja lá o que isso for – me parecem muito específicas. Condições estas plenamente encontradas pelo gênero na cidade de Nova Iorque, com Lustman, ou FaltyDL, como é mais conhecido. O que faz a graça e força do seu trabalho, em comparação com seus companheiros ingleses, é justamente esta capacidade de deslocar os elementos primordiais do gênero e fazê-lo parecer seu. Não se percebe em You Stand Uncertain um grave proeminente, nem a predominância de ritmos como o reggae e o 2Step, muito menos o caráter sombrio, tenso, com que os grandes artífices do dubstep celebrizaram o gênero. Pelo contrário, antes temos uma profusão de experimentos com os ritmos e timbres, de alguma forma destoantes da produção britânica.

Ouçam a diatribe batuqueira na já clássica “Lucky Luciano”, ou a sucessão de ritmos que perpassa a incrível “Open Space” (inclusive o inexplicável afrojazz que irrompe no meio da faixa) e entenderão, por sua própria escuta, o conteúdo especial, particular, que manifesta a criatividade de Lustman. De fato não é o grave proeminente, nem o balanço para a pista o mais interessante do álbum – ainda que valha notar a presença da faixa “Voyager”, aparentemente simplória, mas igualmente atravessada por detalhes sutis e composições entre pratos agudíssimos e um levada de baixo sintetizado. O mais interessante em You Stand Uncertain é a forma plural com que Lustman se apropria dos clichês do gênero para produzir um álbum completamente diferenciado no cenário do dubstep. Digamos que ele utiliza os clichês para, de forma crítica, reiventá-los.

Se não, o que dizer da alternância de andamentos e compassos em “Play with my Heart”, ou das inserções e sobreposições em “It’s All Good”, igualmente impressionante na forma de construir o batuque digital? Ou ainda da elegante manipulação dos volumes em “You Stand Uncertain” e “The Pacifist”? Ou na pegada R&B radicalmente percussiva presente em “Brazil”, com a participação de Lily MacKenzie” e na faixa de abertura, “Gospel of Opal”, com Anneka. A escassez de tons sombrios, substituídos por esta vibe arejada oriunda do R&B, pode se configurar como o aspecto mais frágil do disco. Mas nada que comprometa a excelência e o vigor do trabalho, alguns passos à frente do primeiro álbum de Lustman. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de abril de 2011 por em eletrônica e marcado , , , , .
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