Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Radiohead – The King of Limbs (2011; Ticker Tape/XL)

Radiohead é uma banda de rock alternativo de Oxfordshire, Inglaterra. Formada em 1985 por Thom Yorke (vocais, piano, guitarra), Ed O’Brien (guitarra, vocais), Jonny Greenwood (guitarra, teclados),  Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria), o Radiohead é hoje uma das mais celebradas e bem-sucedidas bandas de rock do mundo. Os primeiros discos, Pablo Honey (1993) e The Bends (1995), tinham similaridades respectivamente com o grunge e com o brit pop da época. OK Computer (1997), o terceiro álbum, catapultou o Radiohead para a fama internacional e para uma ardorosa recepção crítica, sendo eleito disco do ano por diversos veículos e, posteriormente, disco da década, por outros tantos. A seguir veio a dobradinha Kid A (2000) e Amnesiac (2001), dois álbuns mergulhados na experimentação com música eletrônica e jazz. Hail To the Thief veio em 2003, dosando a experimentação eletrônica com o som de guitarra característico do grupo, e com In Rainbows (2007) o Radiohead voltou a ter um som mais básico de rock .The King of Limbs foi lançado digitalmente em fevereiro e é o oitavo álbum do grupo. (RG)

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Bandas grandes frequentemente provocam dissensões firmes em seus seguidores mais ferrenhos. No Radiohead a celeuma é facilmente identificável entre os fãs que preferem quando o grupo é “apenas” uma banda de rock e aqueles que preferem os momentos mais ousados de experimentação com música eletrônica. Independente de que lado se está, cabe reconhecer que desde OK Computer o grupo é senhor absoluto de tudo que faz, exibindo mestria em baladas, faixas longas, rocks catárticos, composições cheias de fragmentação e assim por diante. Cabe reconhecer, igualmente, que o Radiohead estabeleceu padrões particularmente altos de expectativa para seus novos trabalhos, atingindo a perfeição em diversos desses modelos. Como esperar uma nova “Pyramid Song”, uma nova “Idioteque”, uma nova “Paranoid Android”, se elas já mostram níveis definitivos de conceito, de estrutura, de instrumentação e de execução? A banda de Thom Yorke, em todo caso, sempre esteve ciente disso, e cada lançamento do grupo, mais ao rock ou mais ao eletrônico, tem a imensa sabedoria de não repisar os próprios passos, criando a cada momento uma nova faceta a ser explorada, e explorando-a com inegável talento disco após disco. Isso não só é a marca de uma grande banda, como também uma maneira de deslocar a tola controvérsia entre os dois partidos de seguidores, porque para o Radiohead definitivamente não existe uma linha a separar o “soar rock” e o “soar eletrônico”.

Dito isso, The King of Limbs é um disco que será mais facilmente aceito pelos admiradores mais modernistas do grupo. Das oito faixas, duas são baladas e seis são composições cheias de batidas quebradas e com incursões moderadas de instrumentos “orgânicos”, ainda que as guitarras características permaneçam bastante presentes. Como as cinco primeiras faixas fazem parte deste último grupo e as duas baladas estão coladas no final do disco, é clara a sensação de um Radiohead breakbeat, já que os elementos mais notórios das músicas com marcação percussiva são baseados na dinâmica estabelecida entre os vocais de Thom Yorke e a frenética bateria programada e eventualmente tocada. As guitarras e o baixo não fazem questão nenhuma de “encher” o som, preferindo pontuações discretas e levadas atmosféricas também não muito incisivas.

Independente da pouca variação climática, todas as composições de The King of Limbs dizem ao que vieram, traduzindo com refinamento e propriedade para o som do Radiohead a fascinação pela música eletrônica fortemente sincopada da atualidade (dusbtep, garage, UKF). No disco, o elemento chacoalhante dessa síncope se converte em item de desorientação e idiossincrasia, de suíngue idiossincrático ou, paradoxalmente, intimista. O clipe de “Lotus Flower”, frequentemente comentado como fait-divers derrisório, aponta isso com clareza retumbante. A matéria-prima pode mudar, mas o modo particular de intronização que o Radiohead faz da música eletrônica “de pista” permanece constante desde Idioteque. De “Bloom” a “Lotus Flower”, passando pela formidável “Little By Little”, essas composições são criações meticulosas, cheias de detalhes e carregadas da energia concentrada característica da banda. E as quebradeiras da programação de bateria são um deleite só quando confrontadas ao vocal lírico-desesperado de Thom Yorke.

Das duas críticas possíveis a The King of Limbs, uma faz sentido e a outra mora apenas na expectativa dos admiradores, sem conexão real com o timing real da banda. Esta última diz respeito à ausência de um hit single marcante. É fato que nenhuma das oito faixas do álbum tem a pegada imediata de uma “Idioteque” ou de uma “2+2=5”, mas nenhuma banda – e o Radiohead muito menos – precisa disso para fazer um belo disco. O único senão possível, talvez uma cobrança excessiva – mas quando se trata de Radiohead faz sentido -, diz respeito à ausência de uma faixa definitiva. “Codex” é uma balada linda, mas não se compara “Pyramid Song”. “Morning Mr. Magpie”, “Lotus Flower”, “Little By Little” são ótimas, mas aquela definitiva não existe: a preferência cabe ao gosto do ouvinte.

Isso não impede, contudo, que esse seja mais um belo disco de carreira do Radiohead. Possivelmente mais do que os outros, The King of Limbs é um disco de conjunto, e soa melhor quando ouvido dessa forma. Pode-se dizer que Thom Yorke e seus asseclas não nos acostumaram a isso, mas é uma coisa feia demais para jogar na cara de uma grande banda que permanece no auge. Basta ouvirmos a música e não o que esperamos da música. (Ruy Gardnier)

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A despeito das referências a uma árvore milenar que se encontra no caminho para o estúdio onde a banda gravou In Rainbows, e também a uma passagem do Alcorão, o título do oitavo álbum do Radiohead me soa como uma piada desbragada. O processo de autoisolamento da banda, pelo menos em relação ao mercado industrial, casa perfeitamente com a ideia de uma realeza heróica, e mesmo da possibilidade de que haja heroísmo nos dias de hoje. Tá bem, sem exageros: eles já eram uma banda consagrada, quando compraram briga com a gravadora e dispuseram In Rainbows ao preço do ouvinte. Mas o argumento demolidor é: quem mais se habilita? Jay-Z? Rihanna? Silêncio sepulcral…

É inegável que em pouco mais de 37 minutos, o Radiohead mais uma vez conseguiu confundir seus fãs e admiradores. O caminho escolhido pela banda para promover esta confusão, é perceptível desde a primeira audição e remete apenas alusivamente às experiências pregressas. Pode-se notar que eles retomam um argumento destilado em Hail to The Thief e In Rainbows: a mistura de bases acústicas e eletrônicas para a composição não só dos ritmos, mas também para conferir um apecto rítmico às canções. Neste sentido percebe-se em The King of Limbs uma preocupação em centrar o processo de composição sobre a percussão, e conduzir as canções nesse sentido.

The King of Limbs pode até ser considerado um trabalho de transição, no sentido de que a banda se prepara para posicionar sua dinâmica criativa em uma esfera inacessível para as exigências do grande mercado. Mas isso não significa que a pesquisa por novas sonoridades indique a ausência de um percurso e uma meta clara e distinta. Lapidando as texturas rítmicas, e criando também formas melódicas em diálogo contante com as formas percussivas, mas também reforçando o aspecto rítmico até mesmo das faixas mais lentas: é assim que vejo The King of Limbs, um disco que tem força suficiente para apontar não somente os possíveis caminhos de uma das bandas mais importantes dos últimos 30 anos, mas também seu presente admirável.

Tal inclinação para a burilação dos ritmos e das percussões opera em dois sentidos no álbum. Ora em favor de uma sonoridade mais suingada e acessível, como em “Little By Little”, um “baiãozinho” com direito a triângulo, e “Lotus Flower”, a música de trabalho – alvo de um cortejo de baboseiras por parte dos que não entenderam que aquela pantomina no clipe tem justamente a função de sublinhar o aspecto difuso do ritmo. Ora para confundir o ouvinte com justaposições inusitadas, como na incrível “Bloom”, composta em 3/4, que conta com o sampler de “Territory” do Sepultura e remete às polirritmias de Captain Beefheart; ou em “Feral”, uma das mais estranhas do disco, na qual até mesmo a voz é utilizada como pontuação para o andamento frenético.

O aspecto comercial, no entanto, não sobressai sem que se note também o aspecto anticomercial. O Radiohead permanece na estrada, procurando, pesquisando, testando, novas possibilidades para sua música, e nem toda a besteira que a internet é capaz de produzir a respeito de qualquer assunto – inclusive sobre “internet” – pode obnubilar as tendências predominantes no trabalho do grupo. The King of Limbs – que, de fato, eles são – traz um outro Radiohead, assim como a sucessão de álbuns que vão de Ok Computer até In Rainbows. Cabe ao ouvinte se preparar para fruir este Radiohead, esta experiência sem igual na música de hoje. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de abril de 2011 por em eletrônica, rock e marcado , .
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