Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Curtis Mayfield – (There’s no Place Like) America Today (1975; Curtom, EUA)

Cantor, compositor e multinstrumentista, Curtis Mayfield foi um dos nomes mais importantes e peculiares do cenário soul/funk americano. Começou na década de 60 com o grupo The Impressions, e na década seguinte iniciou uma bem sucedida carreira solo. Seu primeiro álbum, Curtis, de 1970, chegou ao primeiro lugar das paradas americanas, mas foi a trilha sonora do blaxploitation Super Fly, que lhe rendeu a fama internacional. (There’s no Place Like) America Today é o sétimo álbum de estúdio do autor, lançado em 1975 pelo seu próprio selo, o Curtom. Só obteve relançamento em 1989, tornando-se um álbum raro. (BO)

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Escolhi este álbum na esteira de um assunto lateral, que esteve presente na maioria dos noticiários do último mês. Trata-se do vazamento de Toy, álbum de David Bowie, gravado em 2001 e jamais lançado em virtude da má relação do autor com a gravadora Virgin. Muito se falou sobre Toy, mas, em contrapartida, artigos inteiros foram dedicados ao recenseamento dos maiores discos perdidos de todos os tempos, etc. Diante desses discos e de suas respectivas histórias, concluí que a pior espécie de “álbum perdido” não é aquele que se perdeu por brigas internas, por desentendimentos com a gravadora, ou por motivos esotéricos – como o quarto álbum do Neu!.

Me parece que o pior exemplo da modalidade em questão ocorre quando o álbum desaparece das prateleiras por um longo tempo. E isto por absoluta falta de interesse da gravadora na reprensagem, em virtude da baixa vendagem, do caráter ousado da obra, ou simplesmente pelo modo contrário com que se manifesta em relação às necessidades da época, do mercado, da moda, etc. Junto a este espetacular (There’s no Place Like) America Today, de Curtis Mayfield, pensem também em On The Beach de Neil Young, outra obra-prima que se tornou rara pelas vicissitudes indicadas acima.

Me parece, portanto, que foi a música, estritamente a música, a responsável por condenar (There’s no Place Like) America Today ao limbo, de onde ressurgiu em 1994 através de uma edição em CD, também rara. Mas sua música é tão rica de detalhes e nuances, e ao mesmo tempo, tão espontânea, suave e melnacólica, que acaba por incorporar a ironia amarga do título. (There’s no Place Like) America Today apresenta um leque de ambiguidades, que parecem ter confundido a cabeça do público de Mayfield, dos que compartilhavam com ele das mesmas convicções políticas, dos que o acompanhavam  desde os Impressions, desde a época militante, quando compunha hinos como “People Get Ready”.

A começar pela capa, inspirada na célebre foto da jornalista Margarete Bourke-White: na Grande Depressão de 1937, uma fila de pessoas pobres cobre um cartaz que exalta o “american way of life”. Stevie Wonder preparava Songs in the Key of Life, o álbum que o alçaria a principal artista pop dos anos 70, enquanto James Brown radicalizava a proposta funk, ambos abraçando causas políticas com ênfase na consolidação dos direitos civis – em “Funky President”, Brown chega a gritar, sob a batida matadora: “I want to be the governor, now!”

À esta altura, a forma incisiva com que os artistas acima se posicionavam, contrastava com a concepção musical de Mayfield e do arranjador, Nick Tufo. Sua carreira solo fora marcada até então, não somente pelo acirramento preocupações políticas, mas também pela aposta em grandes orquestrações e na presença ostensiva da percussão. Neste álbum, porém, ele optou pela radicalização por subtração: menos elementos musicais, menos alegria, menos dança, menos instrumentos, sobretudo.

(There’s no Place Like) America Today é um álbum onde a descontração e suavidade musical correspondia à precisão na mensagem: mais do que os direitos civis, os negros careciam de uma mudança espiritual. Para Mayfield, o “american way of life” não era mentiroso somente porque excluía o negro, se não que o próprio negro deveria promover o questionamento do modelo de desenvolvimento que amparava o “american way of life”. Mais do que reclamá-lo para si, o negro americano deveria expurgar o “american way of life” de seus valores e práticas.

Mayfield preferiu abordar esta concepção através de temas lentos, indiretos e, como assinalei acima, a partir de uma sonoridade mais simples, econômica e espontânea. Assim nasceram clássicos como “Billy Jack”, no qual essa simplicidade aparece com toda sua particularidade: baixo e bateria mantém a batida seca e marcada, em cujo espaço intermediário se subdividem o toque das congas, incríveis floreios de guitarra com wah-wah, e lá pelo último minuto, a entrada do naipe de metais. Beleza rústica, porém delicada, como se pode perceber na intervenção pontual e fantasmagórica das cordas em “Blue Monday People”, nos belos vocalises de Mayfield junto aos metais em “Love to the People”, na comoção discreta de “Jesus”. Todas executadas com sensibilidade indescritível pelo baixo de Joseph “Lucky” Scott, pela bateria de Quinton Joseph e, sobretudo, pela percussão do “mestre” Henry Gibson, o trio que garante a coesão timbrística e o suingue do álbum.

Se a simplicidade pudesse ser definida, eu proporia a seguinte fórmula: simples é aquilo que parece fácil – geralmente porque se confunde a grande arte com o grande labor, e o grande labor com a exuberância, o volume de elementos e relações. Mas (There’s no Place Like) America Today é um álbum geograficamente pobre, um território mal povoado, habitado de forma esparsa, em um certo sentido, demasiado “estético”. O seu desenho é simples e rico, mas o seu significado é forte: fala de um presente que é como que revirado do passado, a cobrir as aspirações e ensombrecer o horizonte não só dos negros, mas de toda a América. “America today”, quer dizer, a América de sempre, como bem indica a capa e as canções, crítica e crônica ao mesmo tempo. Dificilmente o mercado, o show business e até mesmo o público, perdoaria a petulância e a profundidade desta crítica. Como não perdoou, de fato, o que condenou (There’s no Place Like) America Today ao ambíguo título de melhor “álbum perdido” da história. (Bernardo Oliveira)

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Para aqueles que conhecem apenas as faixas de funk efusivo de Curtis Mayfield, como as fabulosas “Move On Up”, “(Don’t Worry) If There’s a Hell Below, We’re All Going To Go”, “Freddie’s Dead” e “Superfly”, ouvir um álbum inteiro vai reconfigurar sensivelmente a imagem do cantor/guitarrista/compositor. Desde seu primeiro disco solo, Mayfield sabia atacar forte e com suíngue pesado, mas também adorava fazer grooves lentos em que exibia seu glorioso falsete e suas bem dosadas intervenções de guitarra em modo brando. A tônica de There’s No Place in America Today tende completamente para esse último lado, com os andamentos todos entre o lento e o moderado, os metais e coros atuando de forma discreta, a cozinha ágil e dinâmica porém contida, e as composições se inclinando todas para a balada gospel/soul ou a crônica social (às vezes as duas ao mesmo tempo, como em “Jesus”). Esse tipo de atmosfera já era recorrente e já havia sido levado à excelência desde seu começo com a fabulosa “We the People Who Are Darker Than Blue”, mas esse álbum de 1975 surpreende pela incrível coesão e propriedade de um funk distendido e reflexivo. O tom geral é pesaroso, mas Mayfield canta descrevendo e com autêntica emoção, não pregando mensagens, e essa distinção evita a xaropada, e permite que a própria música envie sua mensagem.

O título, a capa do disco e algumas faixas como “Billy Jack”, “When Seasons Change” e “Hard Times” sugerem a ideia de um disco conceitual chamando a atenção para o outro lado da América, aquele que não deu certo, aquele que está na fila do INSS e não com a família em seu carro 0km, como exibe a ilustração da capa. Mas pelo menos uma faixa não tem nada disso, e é apenas de entrega romântica, “So in Love” – a única, aliás, que galgou as paradas de sucesso, ainda que modestamente. E mesmo que em “Jesus” haja uma referência à criminalidade, o tom da faixa é essencialmente gospel. As outras cinco faixas, em todo caso, dão conta do recado e confirmam a verve de Mayfield como cronista.

Os arranjos em There’s No Place Like America Today podem soar desossados, mas Curtis Mayfield sabe operar muito bem dessa forma, levando para o primeiro plano alguns efeitos fantasmagóricos de guitarra (“Hard Times”!!!) e fazendo seu falsete adquirir um intenso poder emocional quando a só ele é dada a tarefa de conduzir a faixa. Em algumas obras, a manutenção do mesmo clima aborrece. Em outras, o talento converte a reiteração em veemência, e é o que acontece nesse álbum alienigenamente elegante em que à primeira vista a pulsação funk some mas com o tempo ela se mostra ali, senhora de si, só aparecendo quando quer e nos permitindo vislumbrar as minúcias de sua construção. (Ruy Gardnier)

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