Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Domenico – Cine Privê (2011; Coqueiro Verde, Brasil)

Domenico Lancellotti (Rio de Janeiro, 1972) é músico e compositor. Nos anos 90, foi baterista da banda Mulheres Q Dizem Sim, capitaneada por Pedro Sá, e tocou bateria para o Quarteto em Cy e para o conjunto Jobim-Morelenbaum. No começo da década passada, montou com Kassin e Moreno Veloso o projeto +2, em que um dos integrantes tomava a frente a cada projeto ‒ o Domenico +2 é Sincerely Hot, de 2004. O último disco do +2 é Ímã, trilha sonora encomendada para o Grupo Corpo. Domenico também faz parte dos conjuntos Orquestra Imperial e Os Ritmistas. Cine Privê é seu primeiro álbum solo. (RG)

* # *

Aqueles que acompanham a Camarilha há alguns anos certamente hão de se lembrar do entusiasmo com que Ímã foi recebido. O então camarilheiro Thiago Filardi, que indicou o disco, foi direto ao ponto e destacou a completa organicidade do trio, que vinha evoluindo a cada lançamento e com Ímã parecia atingir o mais perfeito equilíbrio. A expectativa para o disco seguinte, portanto ‒ do +2 como um grupo ou de qualquer um dos três de seus membros ‒, era justificadamente grande. E eis que surgiu a notícia de um disco solo de Domenico, justo aquele que foi o frontman do melhor dos três primeiros do grupo, Sincerely Hot. A ansiedade só aumentava, e a principal questão suscitada era se, voltando ao formato das canções cantadas (Ímã era instrumental), a organicidade de composições, arranjos e atmosferas seria mantida naquele alto nível. A faixa “Cine Privê”, que abre e dá título ao disco solo de Domenico, veio antes como teaser e não era preciso ouvir duas vezes para dizer um sonoro e ressonante SIM à dúvida. Trata-se de uma soberba canção pop, guiada por uma bateria cavalgante e pela voz aveludada e cheia de filtro de Domenico, com deliciosos barulhinhos cósmicos e um admirável trabalho de guitarra na segunda metade da faixa. A pergunta seguinte era se o disco inteiro manteria o mesmo altíssimo nível.

Mas nesse caso a resposta é um tímido e envergonhado não. Em termos de cuidados de produção e detalhes de arranjo, Cine Privê é homogeneamente bom e estimulante, com cores e timbres vindos de instrumentos inesperados, e também com excelente uso de espaço e da separação do estéreo. Mas no que diz respeito às composições e aos vocais de Domenico, apenas metade das faixas segura o nível esperado. E a partilha é bem definível. Sempre que as faixas levam a armação instrumental para o primeiro plano, os resultados são excelentes, como “Cine Privê”, “Pedra e Areia” e “Zona Portuária” (esta última já presente, em forma instrumental, em Ímã). Mas quando se entra em modo intimista-fofinho, o vocal sobressai, e como o modo de cantar de Domenico não é lá muito distintivo nem imponente ‒ e tampouco o lirismo é especial ‒, algumas composições soam francamente genéricas. É claro, mesmo nelas há alguns atrativos, como a interação de guitarras em “5 Sentidos” e os arranjos da caetaníssima “Fortaleza”. Ainda assim, persiste a sensação de estar tentando chegar em algum lugar que não consegue ser atingido.

Mas Cine Privê é notável não por esses momentos, e sim pelas belas faixas que abriga. Além da faixa-título, cabe mencionar a incrível pressão de “Sua Beleza”, com um apreensivo naipe de metais seguindo a melodia principal; a saborosíssima “Zona Portuária”, um PHD em Marcos Valle conduzido por uma bateria milimetricamente atrasada e por suingantes ataques do teclado; a frugalidade despretensiosa de “Hugo Carvana”, um sambinha-Stereolab de dar gosto; e “Pedra e Areia”, a única faixa que permite espaços mais soltos, e consequentemente a mais apta a intervenções atmosféricas e doidivanas de guitarra, teclado e voz. Não é justo julgar Cine Privê pelo que ele não é (o tal disco definitivo que se esperava pós-Ímã). Pelo que oferece, não é 100% convincente, mas pelo menos 50%, esse sim, é totalmente 100%. (Ruy Gardnier)

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Eu abraço com a maior satisfação o que podemos chamar de “propedêutica do autor”, mas daí a levá-la em consideração são outros quinhentos. Através do press-release assinado pelo compositor paulistano Romulo Fróes, Domenico afirma que Cine Privê é uma trilha sonora para filmes que não existem. Conforme as dez composições que integram seu primeiro álbum solo, penso que esta estratégia aparece um tanto quanto inusitada diante da beleza propriamente sonora do disco.

Cine Privê investe em uma espécie de easy listening, que no entanto se ampara em uma estrutura de arranjos vertiginosa, em curto circuito com o teor leve e desprendido das composições. Ela fere talvez a sensibilidade lógica do ouvinte, mas nunca seus ouvidos. Se de fato se trata de uma trilha sonora, Cine Privê, embala um filme de Otto Preminger, daqueles em que a estampa refinada e aparentemente estável esconde um mundo de estranhas relações e desejos inconfessáveis.

É claro, portanto, que o tipo de relação entre essas sonoridades depende do filme em questão. Porém, a julgar pela sonoridade de Cine Privê, trata-se de uma linguagem construída à revelia da rigidez de critérios lógicos (leia-se “de gênero”), mas segundo uma fluidez que leva de Lalo Schifrin a João Donato sem fazer média com o easy listening (na incrível “Sua Beleza”), que destila a manipulação de guitarras e sintetizadores juntos a uma voz ao mesmo tempo suave e carismática (na bela faixa título), que volta e meia flagra o ouvinte com as calças na mão, com a singeleza de “Su Di Te”, com o experimentalismo leve e desconcertante de “Pedra e Areia”, com o transamba setentista “Zona Portuária”…

Cine Privê é bossa nova das neves, MPB da Conchinchina, música esfíngica, aquela que não se “vê” por aí. E aí sim, podemos compreender o poder imagético de sua música: o que encadeia o “cine privê” de Domenico não é propriamente a imagem em si, mas uma determinada imagem da música, particularmente da música brasileira, que ao final do álbum resta esfacelada, fragmentária e mais interessante do que nunca. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Domenico – Cine Privê (2011; Coqueiro Verde, Brasil)

  1. domenico
    22 de abril de 2011

    Caro crítico R.G., não faço distinção alguma entre pisar numa guitarra distorcida ou cantar uma canção. Muitas vezes fomos mais radicais justamente nesse formato violão e voz, e falo isso de um lugar privilegiado, entre o Moreno e o Kassin. Essa idéia separatista de que pretendi alcançar um lirísmo só em 50% do disco é inconcebível, me parece um problema de quem não soube encontrar a gaveta certa para enquadrar o album, um preconceito ordinário do século passado. Abs.

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Publicado às 21 de abril de 2011 por em MPB, pop e marcado , , .
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