Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Panda Bear – Tomboy (2011; Paw Tracks, EUA)

Panda Bear é o pseudônimo de Noah Lennox (Baltimore, EUA, 1978), conhecido por seu trabalho como membro da banda Animal Collective e por seus discos solo. Seu primeiro álbum é o epônimo Panda Bear, de 1998. A partir de 2000, mudou-se para Nova York e dedicou-se ao seu trabalho com o Animal Collective. O segundo disco, Young Prayer, veio em 2004. A aclamação de sua carreira solo veio com o terceiro álbum, Person Pitch, que foi votado por diversos veículos como um dos melhores discos de 2007 e, posteriormente, da década 00. Tomboy, lançado dia 12 de abril, é seu quarto álbum (RG)

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As pessoas usam a expressão “zona de conforto” para chamar a atenção para uma situação em que alguém tem completo controle e segurança sobre o que está fazendo, como um jogador de futebol que consegue jogar tranquilamente na área do campo em que mais se destaca, um ator que interpreta um papel que ele já está acostumado a fazer ou um músico que já sabe exatamente o que se espera dele e entrega exatamente aquilo. Na vida, no esporte ou na arte, ficar na zona de conforto garante estabilidade e segurança para desenvolver o que se sabe fazer de melhor, mas há sempre o risco ‒ especialmente quando se fala de arte ‒, de surgir as desagradáveis sensações de estagnação e previsibilidade, e elas podem, no limite, transformar a mestria em diluição fácil de um momento para outro. Antecipo logo que Tomboy NÃO É um disco feito em zona de conforto, muito embora pareça, e às vezes pareça muito. Um exame de por que parece pode talvez conduzir a uma tentativa de decifração de como esse disco é bonito e emocionante.

Pra começar, existe uma consideração a ser feita acerca de artistas geralmente associados ao experimentalismo. Mesmo que a trajetória do Animal Collective e de Panda Bear solo contenham diversos elementos acessíveis, vários outros não o são, dos barulhos ríspidos às digressões anticanção, das repetições de loops a mudanças bruscas de estrutura. E geralmente uma das formas de perceber que um artista está em sua zona de conforto é ver os elementos  acessíveis sendo potencializados e os difíceis minimizados. Isso efetivamente ocorre em Tomboy, mas se todo A significa B, nem todo B significa A, e há muito caminho de beleza e ousadia a se trilhar partindo de elementos mais acessíveis. Basta ver se eles aparecem como muletas para a falta de inspiração ou se correspondem apenas a um redirecionamento de foco. A essa prova, Tomboy passa com sobras.

O elemento mais acessível do Animal Collective e de Panda Bear solo é, sem sombra de dúvida, a voz “Beach Boys cheio de efeitos” de Noah Lennox. Quando entoada como um hino, em notas longas e reverentes, ela é de uma ternura absoluta, de uma docilidade quase infantil, calorosa a ponto de quase obrigar a cantar junto. Muito bem: a voz de Lennox é o centro absoluto de Tomboy, e o disco transborda com a psicodelia ensolarada dessa voz-coro que conduz todas as faixas do disco. Não que seja a única coisa notável, longe disso, mas aqui ela aparece com uma dominância surpreendente ‒ surpreendente porque não vemos os field recordings, os loops instrumentais formidáveis (“Good Girl/Carrots”, “Bro’s”, lembram?) que faziam parte da exuberância de Person Pitch. Mas há uma razão para isso, e ela é comovente.

Tomboy é o disco em que Panda Bear busca uma emoção mais crua e direta, e não é à toa que ele buscou a inspiração no Nirvana e nos White Stripes, ainda que o disco não soe nem remotamente com nada desses artistas. É o disco em que ele testa a emotividade de sua voz, de suas harmonizações e de suas melodias, e esse back to basics ‒ não em termos de instrumentação, mas em termos de estrutura das composições ‒ é no fundo tão audacioso quanto um mergulho nos elementos menos acessíveis de sua música. Se parece zona de conforto é porque tudo deu certo e porque tudo se encontra em perfeito equilíbrio, não fruto de preguiça mas de absoluto empenho e foco numa emotividade mais imediata.

Podemos amar “Slow Motion” só pela incrível melodia vocal, mas basta observar a batida e os barulhinhos sintetizados para percebermos que nessa faixa ele está testando os limites da sensação de letargia que já se tornaram uma marca registrada de sua música. Slow motion indeed. O disco todo, aliás, é inteiramente embebido de uma sensação onipresente de embaçamento que parece deixar tudo em estado flutuante ‒ mesmo “Tomboy” e “Afterburner”, as duas únicas que não parecem saídas de um estado de solipsismo extremo, a primeira pelo andamento, a segunda pela marcação percussiva quase techno. “Drone” é seu momento mais extremo, com Lennox encaixando sua voz em notas alongadas  para fazer uníssono com os drones sintetizados que a faixa exibe. A sensação de uma doce anestesia permeia a audição inteira, e aquilo que o disco perde em respiração/variação ele ganha em veemência. E dá clássicos automáticos: “Last Night at the Jetty”, “Surfer’s Hymn”, as já mencionadas “Slow Motion”, “Tomboy”… O disco esmorece um pouco com “Scheherazade” e “Friendship Bracelet”, que, sem ganchos ou melodias marcantes, cativam somente pela letra e por detalhes de instrumentação. Mas isso não é suficiente ‒ nem a comparação (injusta) com Person Pitch ‒ para minimizar a beleza deste que há de se consolidar firmemente como um dos grandes discos desse ano. Mais uma vez Noah Lennox nos faz levitar, e não há qualquer nesga de conforto nisso. (Ruy Gardnier)

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De saída, Tomboy se encontrava em uma situação-limite, determinada pelo duro ofício de suceder à obra-prima Person Pitch, que enlouqueceu meio mundo com suas estruturas cíclicas e vocais harmonizados à la Beach Boys. Ainda assim – ou em virtude disto – Tomboy se tornou um dos álbuns mais aguardados do ano, mas como que constrangido ou a soar de outra forma, ou a repetir a fórmula poderosa do primeiro álbum. Sem nenhuma sombra de dúvida, a segunda opção não diz respeito ao gênio criativo do autor em questão. Aquele que acompanha de perto a carreira de Noah Lennox sabe disso.

Ciente desse desafio, o autor optou por “viralizar” faixas do álbum de forma gradual, através de quatro belos singles, lançados entre outubro de 2010 e março deste ano. Neles, fez questão de favorecer a experiência do ouvinte, submetendo-o pouco a pouco a uma outra esfera de seu trabalho, mais lírica, evocativa e igualmente pessoal. Essa estratégia demonstra que as ações de Lennox são cuidadosamente planejadas, ou pelo menos obedecem a critérios estreitamente afinados com a dinâmica particular de seu trabalho. Pois as novas canções, de fato, demandam um período para a digestão, e mesmo a criação de um outro ambiente sonoro, condizente com o clima introspectivo que atravessa as onze faixas do álbum.

De fato, quando se escuta Tomboy pela primeira, já tendo percorrido mais de cinquenta por cento de suas canções, a audição ganha em fluidez, pois em certo sentido nos referimos a um álbum que tem seu conceito na própria sonoridade, e não em algum tema extramusical, ou mesmo nas letras. Tomboy requer que o ouvinte se desprenda do aspecto onírico, imagético e memorial de Person Pitch e abrace a brisa quente e melancólica que atravessa o álbum. Se a expressão “praiano” parece abusiva, substitua-a pela ideia de uma inflexão mais afetiva e interiorizada, a cantar uma experiência pessoal através de cores e sons, não de sentidos. A “família” permanece toda reunida, como na capa de Person Pitch, mas Tomboy vocaliza os pensamentos de um daqueles jovens, entregue às suas percepções e sentimentos.

Sendo assim, Tomboy é também um álbum fantasmagórico, rico em vivências, mas voltado para dentro. Ao contrário da energia  expansiva de Person Pitch, é um álbum que cresce justamente com o tempo e as audições contínuas, com sua decorrente familiarização. E isso através de uma sonoridade caracterizada não somente pelo excesso de ecos e delays, mas, sobretudo, pela saturação de vozes: vozes que cantam, que murmuram, que entoam hinos e fazem algum comentário. São vozes inconscientes, e às vezes não são apenas vozes. Antes, reportam não somente à formalidade dos significados, mas transformam cada sílaba, cada significante mudo e sem sentido, em som musical.

A partir de um certo número de audições, que pode variar de ouvinte para ouvinte, Tomboy se consolida como um conjunto coerente de canções, cada uma repleta de detalhes e melodias que viciam, dia após dia. Dificilmente resistiremos em transformar as onze faixas do álbum em trilha sonora constante para este e outros anos. O lirismo de “Benfica”, a levada reggae de “Tomboy”, o experimento lírico-minimalista “Slow Motion”, e mais: “Surfer’s Hymn”, “Last Night At The Jetty”, “Afterburner”, “Drone”, “You Can Count on Me”… Ao contrário de Person Pitch, no qual se destacam duas ou três faixas (“Bros”, “Good Girl/Carrots” e “Take Pills”), Tomboy é nivelado por cima. Eis uma boa definição para esta empreitada estética: uma viagem nivelada por cima. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 21 de abril de 2011 por em eletrônica, experimental, pop e marcado , , , , .
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