Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

T.P. Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – Cotonou Club (2011; Strut, Alemanha [Benin])

Desde que foi fundada em 1966 por Mélome Clement, a Tout Puissant Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou é a banda mais conhecida de Benin. O grupo já gravou mais de 500 álbuns, entre trabalhos autorais e acompanhamentos, misturando funk, afrobeat, música latina, psicodelismo e música religiosa do país, ligada ao Vodun, como sakpata e o sato. Em 2008, o selo alemão Analog Africa lançou The Vodoun Effect 1972-1975: Funk & Sato from Benin’s Obscure Labels, coletânea que notabilizou o nome do grupo para além das fronteiras da África. No ano seguinte, Echos Hypnotiques reforçou o interesse, exibindo faixas de 1969 e 1979 e angariando opiniões favoráveis de artistas célebres, como a banda Franz Ferdinand. Em 2010, a Poly-Rythmo realizou sua primeira turnê fora da África, visitando as Américas, Japão e Europa. Cotonou Club é o primeiro álbum da banda a ter lançamento mundial. (Bernardo Oliveira)

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Para o bem e para o mal, as duas grandes características de Cotonou Club podem ser apreciadas a partir de duas faixas específicas, que as contém concentradas.

Primeiramente, a execução enérgica, vigorosa, na regravação de “Gbeti Madjro”. Uma comparação com a faixa original mostra que está tudo lá, mas através da reinterpretação da sonoridade e da timbragem, ambas encorpadas e intensificadas. Se a gravação original omite alguns tambores e inflexões vocais em virtude da precariedade técnica – embora, com isso, ganhe em glamour – nesta regravação as quebradas frenéticas da bateria foram sublinhadas, o canto de Mélome Clement e da beninense Angélique Kidjo, que participa da faixa, são mais fortes e afirmativos, e todos os instrumentos são pefeitamente identificáveis.

O resultado é fascinante, assim como em faixas que exibem a mesma qualidade: o funkão “Koumi Dédé”, o quase-afrobeat “Holonon” e uma das grandes faixas do ano, “Pardon”.

Mas a segunda característica, negativa, me permitirei apontar por um viés afirmativo, isto é, abordando uma faixa que contém o elemento que falta em Cotonou Club. Estou ciente de que não se deve julgar uma obra pelo que ela não se propõe a dar, ou pelo que ela “deveria” conter, segundo um julgamento parcial. Mas no caso da Poly-Rythmo, gostaria particularmente de escutar mais a influência do sato beninense, a síntese do vodun com o funk e o soul, com a qual a Orchestre Poly-Rythmo construiu a sua reputação. Clássicos do grupo, como “Azoo de Ma gnin kpevi”, “Gan tche kpo” e “Koutome” foram timbrados pelo sincretismo musical, que em Cotonou Club é representado quase que exclusivamente pela síncopes em 3/4 de “Tegbé”. “Von Vo Nono” e “Ocè” (uma regravação de “Se ba ho”, presente na coletânea Echos Hypnotiques) também manifestam alguma inclinação nessa direção, mas me parece pouco.

E então, como fica? Metade é vigor e inspiração, a outra metade é uma forte inclinação a confirmar os prognósticos do New York Times, excluindo os ritmos como o sakpata e o sato, em favor do título de “uma das maiores bandas de funk do mundo”.

Ocorre que, levando em consideração a sua interpretação do chamado “funk”, a Orchestre Poly-Rythmo sobressai no cenário atual. Preenchido por revivais os mais diversos, retomadas de 30, 40 anos atrás, mas também por revivais recentes, promovidos pela aceleração das trocas culturais, este cenário não comporta nenhuma manifestação semelhante. Nem o “nu-soul” da Stones Throw, nem o revival afrobeat de Fanga e Antibalas, nem o “supertramp” revisitado de Ariel Pink… Poucas coisas se comparam ao suingue poderoso que a Orchestre Poly-Rythmo reproduz ao vivo. E, apesar da ressalva, a forma como esse som foi gravado em Cotonou Club justifica a inclusão do álbum dentre os lançamentos mais relevantes do ano. (Bernardo Oliveira)

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É revigorante saber que uma banda tardiamente descoberta volta finalmente à ativa para colher seus louros e adicionar mais música a seu legado. Mais ainda em se tratando da fascinante Orchestre Poly-Rythmo, um combo capitaneado por Mélomé Clément que tem em seu próprio nome um compromisso de tocar e fundir diversos estilos, alguns nativos, vindos das tradições religiosas do país, alguns vindos da América negra, como o jazz, o funk e a salsa, alguns vindos de outros cantos da África, como o afrobeat. Em todo caso, é sempre uma música festiva e direta. Depois de uma bem-sucedida turnê por vários países no Hemisfério Norte, a Poly-Rythmo lança Cotonou Club, um novo álbum com regravações de antigos sucessos e algumas composições novas. A questão principal é: as faixas apresentadas nesse disco se sustentam bem em comparação ao que já apareceu nas coletâneas de material gravado pelo grupo nos anos 60 e 70? E a resposta é “não muito”. As composições são marcantes, a variedade de ritmos está presente, mas a execução deixa um tanto a desejar: nada efetivamente é mal tocado, que fique claro, mas as sessões rítmicas soam estranhamente travadas, inorgânicas em diversos momentos – “Mariage”, “Von Vo Nono” -, e isso serve para conferir um tom quase genérico ao suíngue de uma banda que é capaz de muito mais. O que acaba salvando o disco são as faixas que têm colorações mais fortes no coro ou nos metais, como “Oce” e “Holonon”, essa última a única faixa completamente bem-sucedida do disco, com andamento rápido, licks deliciosos de guitarra funkeada e potentes detalhes de teclado com efeitos. A mixagem, por demais separada, acaba aguando a pressão da cozinha da Poly-Rythmo, e a sensação é a de estar ouvindo uma excelente banda veterana que ou anda enferrujada, ou se deixou levar por algumas facilidades de estúdio sem prever as consequências que isso teria na sonoridade final. Se o leitor ainda não ouviu nada dessa tout-pouissante orquestra, que não comece por aqui. Cotonou Club tem charme e é uma audição agradável, mas está longe de apresentar a força e a pressão das gravações que tornaram essa banda memorável. (Ruy Gardnier)

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