Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kode9 & The Spaceape – Black Sun (2011; Hyperdub, Reino Unido)

Kode9 é o pseudônimo do DJ, produtor, empresário e filósofo escocês Steve Goodman. Junto a Digital Mystikz e Loefah, outros dois produtores pioneios do dubstep, Goodman foi revelado pela coletânea Grime, do selo Rephlex. No mesmo ano, deu início aos trabalhos do selo Hyperdub, adquirindo notoriedade por lançar o primeiro álbum de Burial, em 2006. Também em 2006, junto com seu parceiro e MC Stephen Samuel Gordon (conhecido como Spaceape ou Daddy Gee), lançou seu primeiro álbum, Memories of the Future. Nos cinco anos seguintes, editou um volume dos DJ Kicks, alguns singles e um livro, Sonic Warfare: Sound, Affect, and the Ecology of Fear. O álbum ainda conta com a participação da americana Cha Cha em seis faixas. (BO)

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O ambiente soturno, os ritmos quebrados e o andamento acelerado emanam um ar de décadence, a alimentar distopias fundadas no tédio, no “espírito da cultura”, no desespero da existência, na vacuidade da sociedade de consumo… De um lado, o pessimismo futurista, assombrado pela tensão entre a herança pós-colonial e o decantado preconceito racial. De outro, uma de suas contrapartidas mais evidentes e poderosas: a música, particularmente um mélange diversificado de hip hop, toda a pluralidade da música jamaicana, gêneros dançantes derivados da disco, e a influência direta da música eletrônica dos anos 70 e 80.

Black Sun é mais uma pequena prova de que a arte nada tem a ver com a lamúria; antes, ela irrompe como um problema, um deleite, um fetiche, uma obsessão. Portanto, todo o “mal estar” é apenas parte de um truque, apenas cenário: resta, soberana, a novidade desconcertante da música de Kode9 & The Spaceape. A topologia sonora acidentada evoca a diversidade cultural proveniente do caldeamento racial inglês, resultando em uma música apocalíptica e pós-diaspórica. E, no entanto, apesar de refletir sobre um contexto tenso e injusto, este talvez seja o aspecto mais admirável em Black Sun, isto é, seu caráter meditativo. Talvez por isso traga um gosto particular por sonoridades “desmusicalizadas”, como recortes de guitarras carregadas de efeito e sons variados de sintetizadores, adicionando-os sobre a base rítmica, em um procedimento inclusivo, caro ao dub.

Percebe-se agora que as premissas de Memories of the Future não se encontram hoje tão ultrapassadas como se poderia imaginar: Black Sun as utiliza, mas reconfigurando o ritmo para criar mais densidade sonora e nuances climáticas, mas com um grau acima do primeiro álbum. Caracterizado pela relação estreita entre sotaque patois de Spaceape e a exploração de células rítmicas do ragga, Black Sun é um álbum de batucadas contagiantes, com um forte acento experimental em cada uma das doze faixas.

Dentro desses critérios, o disco flui perfeitamente. Tem suas faixas enérgicas, como a batida marcada no contratempo em “The Cure”, o ragga digital, parecido com um baião, em “Black Smoke”, o acento grime de “Am I”. Repara-se também as faixas mais lentas, que se destacam por sutis modulações da percussão em “Promises” e na introspectiva “Otherman”. Duas faixas techno distanciam Black Sun ainda mais de Memories of the Future: na faixa-título e na belíssima “Love is the Drug”, techno cujo suingue foi realçado pelo posicionamento estratégico de alguns tambores e a bela voz da cantora americana Cha Cha. Notáveis também as incursões “ambient”, como “Kryon” (com participação de Flying Lotus) e a “Hole in the Sky”, e instrumentais interessantes como “Green Sun”.

Rio de Janeiro, balneário cosmopolita, contradição das contradições: que outra cidade poderia abraçar, na primeira hora, um grande nome do dubstep para, em seguida, negá-lo até morte? A primeira aparição de Kode9 (sem Spaceape) no Brasil foi no Rio, junto a outros nomes como Scanner e Daedelus, e já naquela época sua apresentação se destacava pela introspecção e as vibrações sombrias. A cena era engraçada, imaginem: umas oitenta pessoas no pilotis do Museu de Arte Moderna do Rio, sem saber exatamente o que fazer com o andamento extremamente lento, uns batendo a cabeça, outros marcando com o pé, outros simplesmente ouvindo. Depois disso, a cidade se fechou para o gênero, mesmo depois da sua fragmentação e aceleração. E nada faz crer que sob a luz deste “sol negro” algo mudará esta situação. (Bernardo Oliveira)

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Se saíssemos direto de Memories of the Future, primeiro álbum de Kode9 & the Spaceape, direto para Black Sun, não haveria muito espanto no que diz respeito a foco e continuidade sonora. No entanto, nos cinco anos que se passaram entre um disco e outro, o dubstep adquiriu notoriedade transatlântica, mutou-se em ramificações virtualmente infinitas dentro e fora do underground britânico, e chegou mesmo a ser ofuscado por outros ritmos mais sensuais e menos ameaçadores, como o UKF. No último par de anos, Kode9 não só lançou pela sua gravadora alguns artistas decisivos nessa mudança como ele próprio lançou faixas que testemunhavam uma guinada sensível para o “novo som”. Aí surge Black Sun, um disco que leva justamente o nome do single que mais apontava para esse novo momento. Mas a pista é enganadora: quando Kode9 se junta com o Spaceape, volta imediatamente aquele universo carregado, com camas de subgrave preenchendo o som, andamentos lentos, síncopes radicais para fazer a percepção requebrar, e aquela patente sensação de cenário pós-apocalíptico reforçada pela voz ultragrave de ceifador do “símio espacial”.

Mas Black Sun não significa nem a estagnação de um produtor que volta para seu porto seguro quando vai fazer um álbum, nem a desorientação de um artista que, diante de diversos caminhos a seguir, seguiu um pouquinho de cada um e encontra-se atualmente num impasse. Trata-se de um disco absolutamente focado em tudo que faz, sem nenhuma indecisão visível quanto ao futuro do dubstep ou quanto à fusão com novos sons. Das inflexões ragga dos vocais de Spaceape ao clima de Maxinquaye quando a vocalista Cha Cha se une ao cantor/rapper residente (basta ouvir “The Cure” com atenção que surgem os ecos de Tricky, ainda que filtrados por uma sensibilidade própria), o disco varia de climas com propriedade e com maníaca precisão aos detalhes, criando padrões rítmicos soberbos e uma sensação perene de tensão reinante. Vai-se do house dubstepificado (“Black Sun (Partial Eclipse)”) ao dubstep tingido de trip hop (“Love Is the Drug”), passando pela marcialidade de Spaceape em “Am I” e pelas explorações melódicas e rítmicas da instrumental “Green Sun”, com enorme propriedade na variação.

Há uma estrutura muito precisa em Black Sun, ou pelo menos nos momentos em que o disco funciona a todo gás. As três primeiras são os momentos do holofote dado a Spaceape. Em seguida, entra a parte concedida a Cha Cha e o flerte mais distintivo com o trip hop. Depois, com as duas faixas com sol no título, a ênfase instrumental. A partir daí, o disco flutua meio indefinido, como um repositório do que não tinha lugar nas outras partes. O ragga de “Bullet Against Bone” não apresenta nada além do que as primeiras já tinham mostrado com força maior, e os dois momentos semi-ambient do disco, “Hole in the Sky” e “Kryon” (esta última uma discreta parceria com Flying Lotus), são curiosos mas apenas toleráveis, a galáxias de distância dos reais destaques do disco. Black Sun padece um pouco por ter sua energia esgotada aos 25 do segundo tempo (“Otherman” e “Green Sun” fornecendo os brilhos finais), mas quando está em plena forma, Kode9 segue sendo um dos produtores essenciais de nossa época, e os melhores momentos de seu novo disco mostram que ele é tão fundamental hoje quanto nos tempos em que o dubstep era ainda uma novidade. Kode9 convence para além da novidade. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 30 de abril de 2011 por em dubstep e marcado , , , , , , , .
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