Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Akita/Gustafsson/O’Rourke – One Bird Two Bird (2010; eMego, Áustria [Japão])

Akita é Masami Akita (Japão, 1956), mais conhecido como Merzbow, um dos mais conhecidos artistas noise do planeta. Gustafsson é Mats Gustafsson (Suécia, 1964), saxofonista e tocador de diversos instrumentos de sopro que atua nas searas do jazz e da livre improvisação. O’Rourke é Jim O’Rourke (EUA, 1969), multiinstrumentista, compositor e produtor com uma carreita diversa que cobre desde o pop à música eletroacústica e o noise. A única vez que os três tiveram um registro lançado foi com Andre Sider af Sonic Youth (2008), colaboração entre Sonic Youth (do qual Jim O’Rourke fazia parte), Gustafsson e Merzbow no Festival de Roskilde em 2005. O’Rourke já havia colaborado com Akita em Electric Dress (também com Carlos Giffoni) e com Gustafsson em Xylophonen Virtuosen e com os grupos Diskaholics Anonymous Trio, The Thing e Original Silence. One Bird Two Bird foi gravado em Tóquio em 2009. (RG)

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Inevitável: em qualquer tipo de intervenção colaborativa que envolva a participação de Masami Akita, tudo se curvará a seu diapasão de barulho avassalador. Para 99% dos músicos, isso conta como defeito, e não como qualidade: sobretudo em regime colaborativo, é necessário ouvir os outros músicos envolvidos e relacionar seus sons com os sons deles, encontrando um terreno de consonância ou ao menos estabelecendo uma área mútua de beligerância. Mas com Merzbow, o som não é apenas som, é uma filosofia, e a constância absoluta de sua produção sempre em níveis proibitivos de volume e intensidade é uma marca essencial de sua estética. Mas até aí só temos uns 50% de argumento em seu favor. Porque tudo bem ele ter sua razão, mas nada nela impele outros músicos a trabalhar junto com ele. O resto do argumento, e sua parte mais importante, é que a filosofia sônica de Merzbow é absolutamente compatível com o regime de improvisação, porque sua música é sempre móvel, desconcertante, suntuosa e harmonicamente oca, e desde que o colega músico consiga encontrar seu caminho no meio da torrente sonora, as possibilidades de acoplamento são muitas e as chances de surgir algo inaudito, bem grandes. Mats Gustafsson é um sujeito polivalente, que pode ir do cerebral ao incendiário em um piscar de olhos e atacar de desconstrutor ou lírico quando quer — naturalmente ele havia de se sentir em casa com Merzbow a seu lado, e aproveita para dar vazão a seus ímpetos mais selvagens: ele de fato faz seu saxofone gritar como um elefante em pânico. Já Jim O’Rourke é o grande orquestrador, é o homem que nas sessões de improvisação tem o enorme prazer de rechear o conjunto sem tomar o primeiro plano, criando em contrapartida um senso notável de dinâmica e espacialidade ao todo sonoro, extraindo relevo dos sons de seus colegas. Akita/Gustafsson/O’Rourke: uma união feita nos céus?

Completamente. No papel sim, e no ouvido também. Independente das posições fixas de cada artista — Gustafsson no “orgânico” sax, Akita e O’Rourke nos barulhos e samples (o disco não fornece especificações, mas supõe-se O’Rourke no laptop e Akita nos power electronics e/ou laptop) –, as duas sessões intituladas “One Bird” e “Two Bird” (na verdade uma única sessão dividida por um fade em dois lados de um vinil) mostram uma incrível força de variação, com momentos de assustadora sintonia e uma prudência de ataque impensável no meio de tanta profusão e intensidade. Essa prudência, claro, só é perceptível nas entrelinhas e preferencialmente nas audições contínuas, porque exceto nos irrisórios momentos de silêncio de cada lado da faixa, a brutalidade domina. Mas a brutalidade de One Bird Two Bird, como em geral na música de Merzbow, é cheia de detalhes e, sim, sutilezas, e o genial de ouvir um disco como esse é notar como, dentro da barbárie geral, os três artistas jamais soam homogêneos, contínuos, previsíveis, como em geral tende a ser o noise mais extremo. One Bird Two Bird é o melhor dos dois mundos: acachapante como intensidade de audição, e riquíssimo em momentos fugazes, singulares, encontros geniais entre uma frequência e uma nota, uma frequência e uma outra frequência, um jorro sonoro com outro. Que venham mais como esses. (Ruy Gardnier)

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Existiriam limites para a exploração sonora e, para além dela, o gosto por explorar esses limites? A aparente contradição pode fornecer um parâmetro razoável para definir a associação que assina este álbum. Masami Akita, mais conhecido como Merzbow, lida direta e intensamente com a borda. Como um operário dos ruídos que se esmera em milhares de artífícios, de modo a extrair sentido dos sons que não partilham do rótulo “música”, Akita é o maior e mais contundente exemplo de artista que tem gosto por esgarçar limites. Ele não é construtivo, não possui seguidores, não abre correntes: seu trabalho pode excitar, mas não empolga. Força bruta, pressão e depredação sonora: seu ofício é destruir sem destino, nem amanhã. O niilismo de Akita é político, mas não é “cultural”: seu trabalho é contracultural. Ao passo que o de seus companheiros, Mats Gustafsson e Jim O’Rourke, se encontra a meio caminho entre a diversas vertentes musicais e a utilização pontual de ruídos e sons “não-musicais”. É possível, porém, combinar essas duas prerrogativas aparentemente complementares, mas que no frigir dos ovos, se afiguram absolutamente distanciadas? Não se negocia com o noise, certo? Ele recobre a tudo como a noite recobre o dia. Enquanto os dois últimos podem criar mediações, dificilmente Merzbow será o tipo de autor que regulará seu trabalho com sonoridades mais acessíves, mesmo que estejam circunscritas ao raio sonoro do free-improv.

Mas em One Bird Two Bird o improvável acontece. Na verdade, já havia me surpreendido com a riqueza de Merzbient, na sensibilidade com que Akita traduziu o universo desafiante do noise para uma estrutura econômica, para uma sonoridade que incorpora outras possibilidades de “barulho”. Pois esta capacidade deproduzir sons com economia, e de compô-los de forma mais espaçada, favorece o encontro com as particularidades dos dois grandes improvisadores que estão ao seu lado. Nas duas faixas, Merzbow não opta pelo excesso, mas pelo diálogo. Gustafsson e O’Rourke, cada um a sua maneira, promovem interações admiráveis com o arsenal de Akita. Em “Two Bird”, por exmeplo, lá pelo nono minuto, Akita equaliza o volume de suas explosões para desenhar um momento de improvisação intensa, realizado pelo saxofone descontrolado de Gustafsson. Eles prosseguem em um crescendo, entretanto, sem que “a noite” paire sobre tudo. Pelo contrário, o que sobressai na improvisação do trio é a capacidade de tornar equânimes as intervenções improvisadas, criando diálogos que seriam impensáveis em se tratando da virulência sonora de Akita. Nos quarenta e poucos minutos de One Bird Two Bird muitos são os momentos em que se percebe a coerência do trio.

Alguns poderão dizer que Merzbow foi como que domado pelo instinto de produção de O’Rourke, mas não é por aí: assim como nos volumes de Merzbient, a radicalidade aqui reside na capacidade de mediar os volumes e fazer seus sons dialogarem. A intensidade fica resguardada, portanto, nas modulações e diversos momentos, e não na pressão e na saturação. Logo, não estamos diante somente de um exemplar raro ou de um momento brilhante de improvisação contemporânea. Mas frente a um outro momento da música barulhenta e asfixiante de Masami Akita – o que, diga-se de passagem, não é pouco. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Akita/Gustafsson/O’Rourke – One Bird Two Bird (2010; eMego, Áustria [Japão])

  1. Antonio
    16 de maio de 2011

    Esse disco é a coisa mais sensacional do ano, na seara noise e free jazz. Absolutamente indispensável!!!

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Publicado às 5 de maio de 2011 por em improv, noise e marcado , , , , , .
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