Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Phew – Five Finger Discount (2010; BeReKeT, Japão)


Phew, ou Hiromi Moritani, é uma cantora japonesa nascida em 1959. Sua carreira teve início com o grupo de pós-punk Aunt Sally no final dos anos 70. Como artista solo, começou com o single “Shokyoku”, uma colaboração com Ryuichi Sakamoto, e com o álbum Phew (1981), que contava com a participação de Holger Czukay, Conny Plank e Jaki Liebezeit, do grupo alemão Can. Seus lançamentos seguintes só vieram nos anos 90, com Our Likeness (1991), que tinha como banda de acompanhamento o Crime & the City Solution acompanhado de Jaki Liebezeit, e View (1992). Além de sua carreira solo, faz parte dos grupos Most e The Big Picture, e já colaborou em projetos e discos de músicos como Anton Fier (Golden Palominos) e Otomo Yoshihide. Five Finger Discount é seu quinto disco solo, e conta com antigos colaboradores (como Bikke, Hisato Yamamoto e Seiichi Yamamoto, guitarras), novos nomes da cena experimental japonesa (Eiko Ishibashi e Tatsuhisa Yamamoto, piano e bateria respectivamente), além de Jim O’Rourke no baixo e nos sintetizadores. (RG)

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Five Finger Discount vai para todos os lugares, ataca de cima a baixo, de um lado para outro, opera na diagonal, ricocheteando por onde pode. Vai das toadas sentimentais à rispidez das microfonias e dissonâncias cumulativas, passando por uma versão ultralenta e intimista de “Love Me Tender” (aquela mesma, do Elvis Presley) e por um rock garageiro gravado em modo lo-fi. A reação mais esperada é afugentar tanto o fã convencional quanto o ouvinte de vanguarda. Mas ambos estarão redondamente enganados se abandonarem o navio no início do percurso, sem perceberem que Phew tem uma personalidade absolutamente única, irredutível a ortodoxias, e que no meio de seus híbridos existe uma subterrânea propriedade que revolve em torno de sua voz, de como suas vocalizações impregnam as faixas de atmosfera.

Mas as vocalizações de Phew têm algo muito particular. Ainda que haja a tentação de chamá-la de diva por sua aura, cabe notar que sua voz jamais aparece para reinar única em cada faixa. Seu trabalho funciona às antípodas de David Sylvian, porque sua voz funciona entre os instrumentos, e trabalha dando relevo a eles — não cantando por cima de fundo improv. As vocalizações de Phew, aliás, não são notáveis tanto pelo caráter material de sua voz (timbre, extensão etc.) mas por seu estilo ao mesmo tempo discreto e pregnante, charmoso sem excessos de fofura de um lado, imponente e vigoroso do outro.

Five Finger Discount é um disco composto majoritariamente de canções. Trata-se de um songbook que incorpora fontes muito diversas, de Elvis Presley a Ryuichi Sakamoto, do poeta Shuji Terayama (também conhecido como cineasta experimental) ao pop de Hachidai Nakamura. A escolha das faixas em si já é digna de nota, mas o diferencial está nos arranjos e no poder de instauração da voz de Phew. Pode-se ir da dócil e açucarada “Dokokade” à perturbadora “Sekai no Hatemade Tsuretette”, um dos grandes destaques do disco, que mantém uma soberba tensão entre música frugal (a marcação da bateria, os teclados) e o caos absoluto das cumulativas intervenções de guitarra e de voz. O equilíbrio atingido é o de um pós-punk de cabaré alienígena. “Thatness and Thereness”, marco do synthpop experimental de Ryuichi Sakamoto em seu B2 Unit, vira uma canção de realejo cubista. “Love Me Tender” se transforma numa declamação acompanhada de drones e barulhinhos. No geral, Phew opera uma rara reconstrução, atribuindo facetas introspectivas, soturnas, agressivas ou lúdicas (às vezes as quatro ao mesmo tempo) a tudo que toca, propondo instrumentações ligeiramente inusitadas e cheias de detalhes que colocam seu disco num não-lugar formidável, entre pop acessível e música experimental propriamente dita, sem no entanto ser nenhum dos dois. Five Finger Discount é uma deliciosa anomalia, expelindo doçura sulfúrica a quem estiver pronto para receber. A quem sabe identificar, é bem melhor que glicose, e aquece sobremaneira a sensibilidade. (Ruy Gardnier)

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Foi o Ruy quem me apresentou o trabalho da Phew, que a princípio eu tinha entendido como “few”. A busca no Discogs causou uma tremenda impressão, pois seu primeiro disco, datado de 1981, foi produzido pelo legendário Konrad Plank e membros do Can, basicamente Holger Czukay e Jaki Liebezeit. Mais do que depressa corri para verificar se era de fato genial. E era. Faixas como o dub astronômico “Kodomo” e o punk futurista “P-Adic” são obrigatórias no meu iPod. O que mais sai do balaio dessa simpática japonesa?

Our Likeness, lançado em 92, foi minha segunda experiência. Um álbum mais lírico, próximo, por exemplo, do punk gótico de Siouxsie. Trazendo Jaki Liebezeit novamente na bateria, o disco não constituía exatamente uma facilitação de seu trabalho, muito pelo contrário. Mas não pude deixar de reparar a preocupação na instrumentação em favorecer o canto e canção, do que o aspecto colaborativo e rigorosamente formal de 11 anos antes, quando seu canto funcionava para a composição de um ponto de vista musical.

Mais tarde, escutei View, disco de 87 no qual a coisa desanda em canções mornas. E aí, em pleno 2010, Phew nos brinda com um novo álbum, Five Finger Discount. A caçada é dura, e o disco só aparece por aqui no início deste ano. Na lista de participações, nomes do novo e do antigo rock experimental japonês, como Tatsuhisa Yamamoto, o guitarrista do Most, Hisato Yamamoto, o multiinstrmentista Seiichi Yamamoto (que é um dos membros do Boredoms, KK Null e Most), a fantástica improvisadora Eiko Ishibashi (que gravou a pérola Slip Beneath The Distant Tree, com Tatsuya Yoshida), Jim O’Rourke, entre outros. O que esperar?

Bem, a primeira música nos prega a peça de relembrar algo de View, talvez o aspecto baladeiro. Chama-se “Rue Auble”, e só depois de simpatizar plenamente com o disco encontramos sua beleza. Já a partir da faixa seguinte, “Sekai no Hatemade Tsuretette” a boa impressão se consolida na progressão dissonante, no ritmo trôpego que aos poucos sobe de tom até terminar em fade out. A comparação inevitável com o trabalho de Brigitte Fontaine ocorre quando chegamos à versão irônica de “Love Me Tender” e “Thatness and Thereness”.

Mas o fato é que o álbum é melancólico, uma sequência de lindas composições, delicadamente ornamentadas com sonoridades do kraut, do pós-punk e da música eletrônica: a singela “Dokokade”, a soturna “Fushigina Hi” e o encerramento tristonho com “Yumede Aimasho”. A sequência só é quebrada com o rock’n’roll visceral de “Shonenwa Koyawo Mezasu”, no qual Phew esboça sua verve Iggy com prazer de quem sabe o que está fazendo.

Five Finger Discount é um disco difícil, sem dúvida. Ainda mais para quem tem como parâmetro o agitado álbum de 81. A voz de Phew não é exatamente o que se considera uma bela voz, mas ela explora outros caminhos, que não os da beleza. As instrumentações são muito sutis, às vezes operando com pouquíssimos elementos, às vezes explorando bem os andamentos, os climas. Mas conforme se percebe a espontaneidade e a profunda concentração com que cada nota é executada nesse belo trabalho, chegamos a conclusão de que estamos diante de uma autora especial, do quilate de Kate Bush, Patti Smith, Brigitte Fontaine… (Bernardo Oliveira)

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