Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Prefuse 73 – The Only She Chapters (2011; Warp Records, Reino Unido [EUA])

Americano da Georgia, Guillermo Scott Herren é um dos produtores mais influentes dos últimos dez anos. Tendo por base a linguagem do hip hop, Herren participou de numerosos projetos (Delarosa & Asora, Piano Overload, Savath y Savalas, Risil, Diamond Watch Wrists, Cloud Mireya, etc.), mas foi com o Prefuse 73 que seu nome se notabilizou no meio. The Only She Chapters é o oitavo album solo do projeto e conta somente com a participação de vozes femininas. (BO)

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A trajetória multifacetada de Scott Herren colocou seus admiradores em permanente estado de prontidão. Ainda mais quando se trata do Prefuse 73, com o qual ele protagonizou um dos mais interessantes fenômenos da década passada. Basicamente o Prefuse criava faixas instrumentais aplicando procedimentos da IDM ao hip hop, investindo no recorte e na manipulação de células rítmicas e criando momentos marcantes como “Point to B”, “Radio Attack” e “Nuno”. Um hip hop experimental, flertando de forma constante com o rock psicodélico, com o jazz, com os field recordings, e uma infinidade de referências.

Adiante, Herren diversificou o trabalho, nem sempre obtendo os mesmos resultados. Alternando belos álbuns (One World Extinguisher, Surrounded By Silence), com discos menos inspirados (Security Screenings), nunca deixou porém de confirmar sua vocação para surpreender. E em relação a este novo álbum, podes-se dizer o mesmo. Primeiramente, desde Surrounded By Silence, um disco do Prefuse não contava com tantas participações especiais. Em The Only She Chapters, são as vozes femininas de Zola Jesus, Shara Worden (My Brightest Diamond) e da recentemente falecida Trisha Keenan, do Broadcast. Melífluas e regulares na grande maioria das vezes, elas contrastam com a segunda peculiaridade de The Only She Chapters: o seu caráter ultra-abstrato, lento e meditativo. Quase não se percebe a presença do hip hop, e o foco parece incidir sobre a concepção harmônica, as sobreposições de samplers e a utilização massiva de field recordings – que, em entrevista, Herren atribuiu ao “aplicativo de gravação de voz” do seu celular. Sem contar a experimentação usual e sistemática, produzindo sons com microfones de contato e guitarras preparadas. Com estas premissas em mente, e a habitual capacidade de desdobrá-las, elaborou um de seus melhores trabalhos.

Mas a mágica do disco parece habitar um paradoxo. Por um lado, o que parece unificar as técnicas e influências dispersas em The Only She Chapters é o alto grau de manipulação que Herren imprime não só na composição e na produção, mas também em cada timbre e detalhe.  Por outro, toda essa música é habitada por pessoas, lugares, conversas, sons do cotidiano, presentes não somente na perspectiva solipsista do autor, mas como que através de uma sonoridade intensa, saturada, que investe mais na irregularidade disforme do que na continuidade rítmica. Neste turbilhão sonoro, há espaço para muitas “identidades”, muitas vozes. “But the only she chapters…”

É nessa atmosfera onírica e, ao mesmo tempo, super povoada, que Herren deseja ambientar o ouvinte, às vezes o conduzindo por extratos de canções, às vezes por momentos de pura abstração sonora. No entanto, The only She Chapters é um álbum que flui como um rio, a despeito de suas dezoito faixas. Somente um talento burilado e inequívoco pode trazer à tona uma obra como essa. Essa capacidade  situa Herren entre os inventores sonoros incontornáveis de nosso tempo, e torna suas obras absolutamente imperdíveis. O que não deve ser diferente com The Only She Chapters: trata-se de mais um enigma, mais uma sucessão de belos momentos e mais uma audição altamente recompensadora. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 16 de maio de 2011 por em eletrônica, experimental, field recording e marcado , , , .
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