Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Spatial – Spatial (2011; Infrasonics, Reino Unido)

Spatial é um produtor londrino (sem informações biográficas, como nome ou data de nascimento). Em 2008, ele criou o selo Infrasounds e desde então lançou com seu pseudônimo quatro singles de 10”, com design minimalista e faixas intituladas com números de cinco ou seis dígitos. Além dos lançamentos do Spatial, a Infrasonics também lançou EPs split de outros artistas que passeiam pela cena garage/dubstep, como Ike Release, Hot City, xxxy e Jamie Grind. Spatial é o primeiro CD lançado pelo selo e compila todas as faixas lançadas pelo Spatial até aqui, entre compactos e faixas bônus apenas para download. (RG)

* # *

Quando o Spatial apareceu com seu primeiro compacto, “70707” foi sozinha suficiente para estabelecer o projeto como uma aproximação do dubstep com a ultraeconomia das reduções operadas por artistas de dub techno como Deepchord. De fato, a faixa destila elegância por todos os lados, com síncopes fortes, firmes entradas de subgrave, mas ao mesmo tempo uma profunda discrição nos retoques melódicos, envolvendo-os em camas de efeitos e irrisórias repetições, fazendo o ritmo pular à frente da atenção. “80723”, o lado B, era o oposto: um riff de teclado bem ao gosto do garage/hardcore tradicional domina a faixa logo de início, e ainda que a faixa depois evolua ritmicamente abstraindo de seu tema, é inequívoco que nela o Spatial não tem nada de depurador de gêneros. Há um pendor experimental, sem dúvida, que faz com que as faixas fiquem mais apropriadas à audição do que à dança numa pista, mas Spatial não tem qualquer ortodoxia, e usa as reduções quando faz sentido usar, e quando não faz, recorre a seu exato oposto, os marcadores tradicionais de gênero (no caso, boa parte do passado da dance music, das divas do house aos riffs safados do garage). O brilho de seu talento consiste em misturar esses dois lados antagônicos de modo que um cresça com o outro, o aspecto mais ousado fornecendo uma camada mais obscura/introspectiva ao som, e o aspecto mais apelativo – nunca óbvio contudo – garantindo o pé fincado no solo. Esses dois lados estão tão presentes que ambos, separados, conseguem se identificar: Alva Noto já se revelou admirador e o Hot City, um dos bambambãs da guinada garage atual, já lançou split pelo Infrasonics.

Spatial não é um álbum propriamente dito, mas uma coletânea de faixas. Ele não flui com a naturalidade de um disco nem tem o senso narrativo para tanto. Mas, ao contrário do que acontece com muitas compilações desse tipo, ele não esgota a paciência do ouvinte por excesso de exposição: é, ao contrário, como se estivéssemos num eterno presente, porque a ausência do fator-estribilho faz com que a memória imediata rapidamente escoe para o esquecimento depois da audição, o que faz com que tenhamos essa impressão “um por vez” que cabe tão bem à fruição do Spatial.

Temos aí um projeto que funciona mais como fundista do que como velocista. Seria despropositado pegar a melhor faixa do Spatial e comparar com a melhor faixa, digamos, do FaltyDL ou do 2562: eles ganhariam fácil. Mas aí entram em ação as melhores características do Spatial, o senso de manufatura e o foco, e inversamente poderíamos dizer que os momentos mais tolos de 2562 e FaltyDL não têm qualquer eco no Spatial, porque o talento no talhe e o pendor para a redução garantem que tudo será minuciosamente trabalhado, sem tentar abraçar o mundo mas ao mesmo tempo sem qualquer ambição frustrada.

Como a cena britânica de uma forma geral, o som do Spatial tornou-se mais festivo e o andamento deu uma acelerada, e a elegante magia de subgraves de uma “90113” ou “81012” foi cedendo lugar a um approach mais direto, como atestam os sinos tubulares, os riffs de garage e os vocais de diva R&B de “90807”. Mas que ninguém se engane: o senso de elegância e as síncopes poderosas estão lá para tirar qualquer composição do óbvio. Spatial não é apenas um dos enigmas mais curiosos da cena eletrônica britânica: é sobretudo um artista com uma obra incrivelmente coesa que conseguir escavar com propriedade suas inflexões para tirar do óbvio o repertório tradicional de códigos de subgêneros eletrônicos. E as treze faixas de Spatial compõem um senhor portfólio. (Ruy Gardnier)

* # *

Formatos como a presente compilação tem o mérito de trazer à tona o sentido geral da obra. Mais do que um mero caça-níquel, oferecem uma visão panorâmica e, assim,um recenseamento dos traços mais comuns de um determinado período da atividade de um artista. No caso desta coletânea do misterioso produtor londrino que se apresenta sob a alcunha Spatial, trata-se de todos os seus lançamentos desde 2008, inclusive compactos e faixas lançadas pela internet. Trata-se não somente de um recenseamento propriamente dito, mas de obra completa, inteira, aberta à interpretação.

Porém, ao mesmo tempo, esse formato sublinha particularidades e nuances, salienta concessões, guinadas correções de rumo, elementos alienígenas. Dependendo do artista, esta cartografia pode se apresentar mais acidentada, enquanto que em outros, ela se constitui de forma contínua. De uma forma geral, o trabalho de Spatial é mais regular, operando basicamente sobre a estrutura do dubstep de Pinch e Kode9, as sonoridades do minimal de Villalobos e Luciano e os ritmos da Skull Disco. Talvez a tendência em apressar o andamento a partir da faixa “90807”, mas não mais do que isso.

Porém, estendido nas treze faixas, percebemos que o melhor do produtor reside nos pequenos detalhes, e não no panorama. Me refiro ao artesanato preciso dos graves e à elaboração minuciosa da estrutura rítmica que dialoga com esses graves. A influência precisa do dub e do reggae, em um momento em que os produtores buscavam dar uma cara mais dançante para o gênero – à exceção da já citada “90807”. As variações e timbres surpreendentes, a estrutura “vazada”, escassa, que marca as primeiras faixas como “70810”, “80723” e a mais minimalista de todas, a hipnótica “90113”.

Uma obra altamente prazerosa, que não carece de audições sucessivas para criar empatia, conquistando seu ouvinte pela pressão macia dos graves. E no entanto, as mesmas audições levam a detalhes como os tambores super agudos em “70707”, a pressão do grave em “80207” e “90121”, ou ainda o intermezzo estranhíssimo de sintetizadores na faixa que encerra o disco, “100505”. Se não se destacou na cena dubstep de acordo com a excelência de seu trabalho, é porque Spatial é mais próximo do mistério, das sombras. Sua obra é discreta, como podemos perceber. Discreet music, como diria o poeta. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 20 de maio de 2011 por em eletrônica e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: