Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Thurston Moore – Demolished Thoughts (2011; Matador, EUA)

Thurston Moore (n. 1958, Coral Gables, Flórida) é um músico americano. Seus trabalhos mais conhecidos são como compositor, vocalista e guitarrista do Sonic Youth, grupo que capitaneia desde o começo dos anos 80. Como artista solo, Moore desenvolve diversos projetos paralelos, entre grupos (Original Silence, Whiteout, Diskaholics Anonymous Trio), performances de música improvisada (tendo tocado com Derek Bailey, Evan Parker, Zeena Parkins, Christian Marclay, entre muitos outros) e sua carreira solo, que contém tanto discos de noise (Root, Built For Lovin’, Sensitive/Lethal) quanto álbuns de canções (Psychic ♥ ♥ ♥, Trees Outside the Academy). Além de seu trabalho como músico, Moore também é dono do selo Ecstatic Peace! Demolished Thoughts é o terceiro álbum de canções de Thurston Moore, e seu oitavo no total. A produção coube ao cantor e compositor Beck. (RG)

* # *

Pode-se afirmar sem muito alarde que a carreira solo de Thurston Moore nunca realmente engrenou. Com o Sonic Youth ele faz parte de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, e como improvisador ele tem um currículo invejável, colaborando com seus característicos sons de guitarra às performances incendiárias de inúmeras formações entre o improv e o noise. Mas seus discos solo sempre ficaram um pouco à margem, tanto os de noise/free form quanto os de canções. Pode até ser injustiça, mas é uma injustiça explicável: embora bons, os álbuns solo ora orbitavam uma sensibilidade muito próxima do Sonic Youth (caso de Psychic ♥ ♥ ♥), ora não apresentavam uma identidade marcante dentro da seara em que se inscreviam (essencialmente a cena noise). Trees Outside the Academy era efetivamente a única exceção: as canções contidas e eximiamente manufaturadas, e sobretudo a utilização do violão (em oposição à guitarra onipresente em sua obra) abriam caminho para uma nova sonoridade e para a possibilidade de dar vazão a aspectos de uma sensibilidade que até então só se percebiam nas entrelinhas de um dedilhado ou outro das canções de seu grupo. Mas Trees… tinha algo de inconcluso, e parecia mais a busca de um som do que seu controle completo. Demolished Thoughts dá o passo seguinte, e com propriedade. Dois estrondosos lançamentos nos últimos doze meses já antecipavam essa “maioridade” solo com o violão (VDSQ: Solo Acoustic Volume Five e Suicide Notes For Acoustic Guitar), e a passagem das peças instrumentais para as canções guiadas pelo violão se deu na maior naturalidade e discrição. Nada especialmente chamativo. Apenas um intérprete com voz e violão, e retoques para reforçar as cores, cortesia de um violino aqui, de uma harpa acolá, um cello, ligeira percussão para encorpar… Lembra Sonic Youth? Um pouquinho, em algumas inflexões melódicas e numa estrutura ou outra. Mas o toque de sensibilidade é definitivamente distinto, e atinge áreas que jamais esperaríamos ouvir desse fantástico vândalo da guitarra.

A começar pelas relações que se pode estabelecer de gênero e arranjo. Demolished Thoughts é muito mais embebido de folk do que de pop e de rock, e Neil Young vem mais à mente do que, digamos, Swans. Igualmente, em termos dos detalhes de orquestração, o disco evoca mais o delicado pop de câmara de um Nick Drake ou o Chelsea Girl de Nico do que qualquer baluarte de noise-rock. Mas as comparações param no arranjo: as canções de Demolished Thoughts não apresentam nada da descarga emocional desses artistas, e se comprazem no que poderíamos chamar de brilho discreto da objetividade. Thurston Moore canta com uma limpidez notável, com expressividade de narrador e um desprendimento que sintoniza perfeitamente com o clima das levadas de violão, algo doces mas com um indelével clima de tensão no ar.

A faceta mais enérgica ou entrópica do Sonic Youth pode ser reconhecida respectivamente em “Circulation” e na parte final de “Orchard Street”, em que se simula uma das famosas digressões instrumentais do grupo, só que com violão e cordas tangidas. Mas o tom de Demolished Thoughts é dado pela beleza de faixas cristalinas como “Illuminine”, “Blood Never Lies” e “Mina Loy”, com ganchos melódicos contidos porém certeiros, integração perfeita entre violão & voz e os instrumentos “nobres”, e execução vocal primorosa, entre onírico e misterioso. As nove faixas exibem um foco surpreendente na composição e nos arranjos, e no fim das contas é um pouco isso que cria a identidade do disco e faz com que ele supere os anteriores, dosando introspecção e acessibilidade, doçura e mistério. Thurston Moore e sua banda podem ser conhecidos pelos seus excessos, mas eles sempre foram exímios artífices de melodia e estrutura. É essa segunda parte que dá as caras em Demolished Thoughts, em modo acústico e com atmosferas perfeitamente adaptadas para a nova conjugação. Mr. Moore, noisemaker, roqueiro acelerado, nos faz também suspirar. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 1 de junho de 2011 por em folk, rock e marcado , , , , .
%d blogueiros gostam disto: