Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Florian Hecker – Speculative Solution (2011; eMego, Áustria)

Florian Hecker nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1975, e divide sua residência entre Kissing, na Alemanha, e Viena, na Áustria. Trabalha com música feita por computador desde 1996 e lançou sem primeiro disco solo, IT ISO161975, em 1998. Além de lançar discos e fazer apresentações ao vivo, Hecker também cria instalações sonoras, e já exibiu em diversas galerias e museus. Seu álbum Sun Pandämonium ganhou o Prêmio Ars Electronica em 2003. Entre seus últimos trabalhos, o de maior destaque é o álbum Acid in the Style of David Tudor, de 2009. Speculative Solution foi lançado numa caixa que contém também um livreto de 160 páginas e cinco bolinhas de metal, e é baseado nas teorias de Quentin Meillaussoux sobre hipercaos, a “absoluta contingência das leis da natureza”. No texto de apresentação, é recomendado que o álbum seja ouvido, assim como Acid in the Style of David Tudor, em volume alto e em caixas de som, não em fones de ouvido. (RG)

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Ninguém mais que Florian Hecker parece hoje tão empenhado em ampliar as noções do que se entende por música. A tarefa é árdua, porque aparentemente tudo que um dia não era considerado “musical” hoje já o é: barulhos avassaladores, registros de campo, exercícios com frequências sonoras e mesmo o silêncio total já são assimilados pela história e pelas práticas artísticas como elementos legítimos de construção musical. E essas práticas criam gêneros, e esses gêneros vão tornando-se instituições, que vão criando padrões, historicidade, e rapidamente a legitimação transforma-se em domesticação, com sons áridos e ríspidos obedecendo aos mesmos padrões de ordenação temporal, estrutura progressiva e nexo lógico, perdendo o frescor e a imprevisibilidade que outrora tiveram. Noise e field recordings, para citar apenas dois “gêneros” (eletroacústica numa chave menor), já são avaliados a partir de uma história pregressa, comparados a marcos do gênero, trabalhos similares etc., sem o caráter inaugural das primeiras obras desbravadoras. Florian Hecker está bastante ciente disso, e vai procurar suas inspirações completamente fora do espectro “musical”: de um lado, nas pesquisas acústicas dissociadas das questões de composição propriamente ditas (no que partilha terreno com gente como Maryanne Amacher), e de outro na inspiração vinda da teoria e da filosofia, como forma de imaginar mundos sonoros ainda não criados e arrumar inspiração para novas articulações, novas estruturas, novas formas de organização. E o intento é bem sucedido, pelo menos em seus aspectos preliminares: a música de Hecker não soa como nada mais nesse planeta, e seus discos são como monolitos magnéticos, envolvidos numa aura de mistério e impacto inaugural. Disco a disco.

E Speculative Solution mantém dignamente a (altíssima) expectativa que merece cada disco novo de Florian Hecker. Como Acid in the Style of David Tudor, ele soa inicialmente “amusical”, seus pulsos rítmicos parecendo mais estalos do que percussão, suas frequências evocando mais mensagens de erro em loop do que trechos melódicos propriamente ditos. Mas onde ele vai mais longe em relação a seus confrades da Raster Noton e compositores similares é que a própria organização não é baseada em modelos preexistente nem é amparada por seus padrões (progressão, desenvolvimento). Aqui, a inspiração é ideia de hipercaos do filósofo Quentin Meillassoux, ou melhor, uma interpretação sobre a ideia de hipercaos, traduzida numa estruturação sonora através de microcrônicas (trocando em miúdos, pequenos trechos autossuficientes sem conexão com o anterior ou o seguinte, mas, ainda assim, conectados pela percepção do ouvinte) e “sequências de contingências auditivas” (em miúdos, organizados sem um eixo de necessidade, articulando estases e situações frenéticas). Organizados assim, esses fragmentos dão uma sensação bastante diferente da que existe em Acid in the Style of David Tudor.

Mas o que fascina em Speculative Solution é a mesma coisa que encantava no disco anterior. É a forma como os espasmos e timbres flutuam pelo espaço e se articulam no selvagem encontro entre a fontes sonoras direita e esquerda. É a natureza formidavelmente estranha do conjunto, que em si pode não ser tão monumental quanto os blocões de Acid… intercalados por torpedos hiperagudos de dois minutos, mas que faz com que cada “microcrônica” tenha um sabor todo próprio, sobretudo se ouvido com muita atenção e com equivalência espacial entre cada uma das caixas. Pode-se argumentar que por vezes a sensação de “ilustração de teoria” transparece mais do que o necessário, e que isso diminui um pouco da radicalidade do projeto. Mas enquanto Hecker ainda conseguir nos surpreender com seu veio particular de desorientação espacial, ele permanecerá sendo o grande mago do vandalismo eletroacústico de nossa era. E cada “contingência auditiva” aqui presente testemunha em seu favor. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 3 de junho de 2011 por em eletroacústica, experimental, vanguarda e marcado , , , , .
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