Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Metá Metá – Metá Metá (2011; Circus/Desmonta, Brasil)

Metá Metá é um trio formado pelo compositor, violonista e artista multimídia Kiko Dinucci, pelo produtor e saxofonista Thiago França e pela cantora Juçara Marçal. Além de seus álbuns solos, com o Bando AfroMacarrônico, Dinucci e Marçal lançaram Padê em 2007. Thiago França é produtor com vários trabalhos na seara do samba paulistano, inclusive a produção do primeiro álbum da cantora D. Inah. O presente álbum homônimo é o primeiro trabalho do trio. (BO)

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Filha dos conturbados anos 60, a MPB é depositária de tantos conflitos e contradições que sua consolidação e suposta representatividade chega a causar espanto. Não é incomum ouvirmos a confusa identificação desta sigla histórica com o amplo espectro da música desenvolvida em terras brasileiras – pois classificar tecnobrega e guitarrada como “MPB” é, no mínimo, redutor. E no entanto, mais estranha ainda é sua condição: apesar de todas as vertentes e possibilidades sociais e culturais que vieram a se cristalizar por razões que ultrapassam a questão musical, restou uma sonoridade que enfrenta seu ocaso estético há pelo menos vinte anos. Hoje, o rótulo MPB está ligado a um regime sonoro de influências, modelos, timbragens e instrumentos na maioria das vezes idênticos.

São raríssimos os casos nos quais não se imponham violões e percussões os mais ordinários, geralmente embalando canções igualmente ordinárias. Mas existem também os casos que conjugam os elementos desta sonoridade com arte e engenho, que inventam linhas de fuga de um sistema sonoro viciado e preguiçoso. Como os primeiros discos de Guinga, as incursões musicais de Luiz Tatit e José Miguel Wisnik, algo de João Bosco e Luiz Melodia, algo traficado pelo rock de Los Hermanos e Do Amor… Pois bem: olhos abertos, pois estamos diante de um desses casos.

Na primeira faixa, um susto: violão preparado, envolto em ruídos, entoando “Vale do Jucá”, belíssima composição de Siba Veloso, presente no álbum Fuloresta do Samba. Seria um problema no aparelho de som, na mixagem? Não, trata-se de uma escolha estética, perfeitamente adequada à aridez e ao sentido poético da canção de Siba. A sequência é igualmente promissora, “Umbigada”, uma inflexão sofisticada dos vissungos recolhidos por Aires da Mata Machado, gravados por Clementina de Jesus, Tia Doca da Portela e Geraldo Filme em 82, sob o título O Canto dos Escravos. O violão gagueja com malícia, sambando sobre a melodia entoada pelo canto de Juçara Marçal.

Adiante, três momentos de força criativa na composição e no arranjo: o arpeggio “hermético” (de Hermeto) executado por violão e sax em“Papel Sulfite”, do capixaba Jonathan Silva (integrante do grupo Zabandá); as intrincadas articulações semânticas e coloquiais em “Trovoa”, do ex-Mulheres Negras Maurício Pereira; o saxofone “preparado” e as estripulias descritas em gírias paulistanas presentes em “Samuel”, composição de Dinucci com Rodrigo Campos (o palavrão na MPB nunca foi utilizado com tanta propriedade: “O ‘Deto’ é doido pra caralho / Zoou o guardinha daquele conjunto quadrado / Depois roubou moeda do homem-estátua de lata”).

Particularmente, já seria suficiente para que eu me convencesse de que o primeiro disco do trio Metá Metá é coisa fina, para se escutar com muita atenção. Mas aí veio o xeque-mate, em uma sequência final que ressucita certas linhagens da chamada MPB e que, apesar de cantadas e decantadas, foram ou apagadas pelo tempo ou simplesmente diluídas. O eco profundo do samba pós-bossa de Baden Powell, Toquinho e Billy Blanco em “Vias de fato”. Por mais que se possa entrever essa influência, elas não se reduzem a mera citação, pois há emoção e força na interpretação, para além da nostalgia e do fetiche em “fazer idêntico”. Depois, a parceria de Douglas Germano (ex-Bando AfroMacarrônico) e Dinucci: “Oranian” se destaca pela forma como sintetiza ora os afro-sambas, ora a instrumentação bossanovista da virada dos anos 60 para os 70, sobretudo no trabalho do grupo de Elis Regina. A precisão enxuta da voz de Juçara Marçal, a sugerir o timbre melífluo de Alaíde Costa, completa o aspecto referencial da faixa, mas não diminui sua beleza.

Sobressaem algumas dinâmicas de percussão, sopros e cordas que me tentaram a fazer comparações com o chamado pós-rock de Battles e companhia. Sem dúvida um sintoma de que, apesar de se filiar a um campo de influências e sonoridades próprias à chamada MPB, Metá Metá o faz com uma ambição que não se escuta por aí. “Obá Iná” exemplifica essa tendência, com seu ritmo dançante e agitado, quase um carimbó – além da coda espetacular, em ritmo de candomblé. A descontração do afrobeat de encerramento “Ora Iê iê o” compensa um dos poucos deslizes do disco, a convencional “Obatalá”. Mesmo nesses poucos casos, a execução é vigorosa, e boa parte da beleza do disco se deve a essa característica.

Metá Metá constrói seu primeiro álbum a partir das ruínas de uma MPB vetusta e aparentemente sem rumo. Tanto que não soa anacrônico, mas, à moda dos últimos discos de Allen Toussaint e Aaron Neville, confere outras nuances a uma sonoridade desgastada. Ecos do já citado Baden Powell dos afro-sambas, do Edu Lobo de Cantiga de Longe, do Fino da Bossa… E, evidentemente, uma forte presença de Itamar Assumpção, Premê e todo o contexto experimental que marca a “lira paulistana” nos últimos 30 anos. Ainda que as vertentes tropicalistas não sejam de forma alguma perceptíveis em termos sonoros, estão presentes no espírito desbravador do álbum. De fato, não é todo dia que ouvimos violões preparados e bateria quebrando tudo em discos do gênero. E este é apenas um dos diversos motivos pelos quais Metá Metá é talvez o mais surpreendente disco brasileiro do ano. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 9 de junho de 2011 por em MPB e marcado , , , , .
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