Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Andy Stott – Passed Me By (2011; Modern Love, Reino Unido)

Andy Stott é um produtor britânico, especializado em techno e dubtechno, mas que opera também na seara do dubstep e adjacências. Com o inglês Miles Whittaker, parte do Demdike Stare, integra o projeto Millie & Andrea. Seu primeiro álbum, Merciless, foi lançado em 2006. Passed Me By é seu segundo álbum solo. (BO)

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Não há como não recuar com um certo espanto diante da introdução de Passed Me By. A foto da capa pode não dizer muita coisa, não indica nem mesmo o autor. Mas me arrisco na hipótese de que se trata de algo relacionado à matriz africana de toda música eletrônica europeia, ou a um sentimento ambíguo de comunhão atávica e distanciamento, que reforçaria a frase que batiza ironicamente o álbum. Longe de querer questionar as implicações que um tal raciocínio pode adquirir, me pergunto se o título do disco não se refere a algo que está explicitamente demonstrado nesta foto, que se identifica com algo que “passa”, mas que também “atravessa”, se me permitem tamanha “literariedade”. Algo que nos integra e constitui, mas que parece distante ao mesmo tempo, resguardado em um continente cercado de problemas e diferenças por todos os lados. Penso que este raciocínio deve fazer sentido para um inglês. Já se vão aos montes as denúncias quanto aos perigos de uma “história única”, e mesmo da petrificação de matrizes culturais para fins de representação. Mas penso que aqui, trata-se de outro caso.

Trata-se, como sempre, da música. Certa imperfeição rústica, certa organicidade na instrumentação; algum desequilíbrio na emissão das vozes, na execução de instrumentos até então desconhecidos do público europeu; e, por fim, uma escala sonora e rítmica em nada compatível com os rigores da tradição musical clássica. Estes aspectos foram objeto de fascínio e inspiração por parte dos europeus durante todo o século passado. De uma forma geral, o perfil musical desenhado por Pierre Schaeffer e Chales Duvelle em meados da década de 50 para o selo Ocora (“Office de Coopération Radiophonique”), especializado em gravações de campo em países da África e Ásia, buscava compreender, à moda enciclopedista, esse vasto mundo “novo” – reiterando o fato de que isto é tomado da perspectiva de um europeu médio. Não seria exagero notar que, praticamente no mesmo período, Stockhausen ampliava o espectro sonoro da música ocidental, compondo, a partir de fitas magnéticas, uma de suas peças fundamentais “Gesang der Jünglinge”. A confluência de aspectos supostamente representativos da tradição e da vanguarda determinava o perfil sonoro deste período.

Não é exagero afirmar que este gosto pela imprecisão, por uma liberdade nas modulações rítmicas, harmônicas e melódicas e, sobretudo, pelo espaço à improvisação tomou de forma muito particular a música eletrônica dos últimos quinze anos. Por outro lado, como o processo acaba por definir não só o meio pelo qual a música se produz, mas o seu próprio caráter poético – o seu “sentido” – músicos como p. ex. Wolfgang Voigt, Richard D. James e Florian Hecker trataram de produzir a rusticidade sonora a partir dos apetrechos eletrônicos cada vez mais permeáveis à manipulação e ao controle da reprodução. É também evidente a contribuição dos estudos e trabalhos de música eletrônica do próprio Schaeffer, mas também de Russolo a Stockhausen, o que confere a esta inflexão um caráter mais desbravador do que rústico.

E quais as características sonoras de Passed Me By, se não o desequilíbrio clamoroso e estratégico entre sonoridades graves, médias e agudas, a mão pesada na dosagem dos timbres graves, um andamento que às vezes se concentra na percussão, às vezes na harmonia, mas nunca de forma regular e contínua? Os rúidos que recobrem esses graves se unem a vibrações que extrapolam a caixa de som e ameaçam a integridade física do ouvinte. O conjunto sonoro é arenoso, desértico, mas ao mesmo tempo repleto de nuances. Por si só, a vinheta de abertura, batizada sugestivamente como “Signature”, já encerra uma composição curiosa, calcada sobre samplers de gravações de campo e sons gravíssimos sintetizados. O ritmo pesado de “New Ground”, uma espécie de dubtechno experimental, surpreende pelo contraste entre o andamento desconjuntado e o improvável aspecto soul impresso pela repetição da voz feminina. Quando a composição se orienta por uma regularidade mais acentuada, como na indefinida “Dark Details” ou no techno “North to North”, sublinha alguma dinâmica rítmica para em seguida dissolvê-la com rasgos sonoros difíceis de definir.

Como nas duas faixas de encerramento, “Execution” e “Passed Me By”: ambas se orientam por andamentos maquínicos, em nada compatíveis com a regularidade do techno. E, no entanto, como o ouvinte poderá perceber, foram elaboradas como uma máquina pesada, uma máquina que não funciona adequadamente, mas que se move à força, transbordando um clima letárgico e pesaroso. Se no século XX a “música interessante” é aquela que exprime desequilíbrio, irregularidade, imprecisão, em vistas de recuperar o sentido espontâneo do ruído, do “som natural”, daquilo que não é considerado pelo austero rótulo de música, então vale identificar aqueles artistas que tentam restituir isso à música eletrônica criada em diálogo com a pista de dança.

É talvez neste sentido que Passed Me By pode ser considerado um álbum conceitual – ora vejam vocês. Por um lado, apresenta uma roupagem sonora absolutamente “desnivelada”, desprovida de um equilíbrio estético mais comum, e a apresenta de forma inteligente e coesa (até mesmo nos aspectos visuais). Por outro, se esmera em extrair desses limites algo que não se repetirá, talhando milimetricamente cada momento do disco e fazendo um uso ilusório da repetição. Estamos, portanto, diante de um trabalho poderoso. A despeito de seu hermetismo básico, Passed Me By destila um resultado sonoro que, pouco a pouco, se torna uma experiência fascinante. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Andy Stott – Passed Me By (2011; Modern Love, Reino Unido)

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Publicado às 10 de junho de 2011 por em experimental e marcado , .
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