Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ensemble Economique – Psychical (2010; Not Not Fun, EUA)

Ensemble Economique é um projeto de Brian Pyle, músico multiinstrumentista do norte da Califórnia (condado de Humboldt). Em 1998, fundou com Merrick McKinlay o projeto Starving Weirdos, que lançou diversos discos por selos como Collective Jyrk, Root Strata, Digitalis e Olde English Spelling Bee. Também faz parte do grupo RV Paintings, com seu irmão John Pyle e Spencer Doran. Seus primeiros lançamentos como Ensemble Economique datam de 2008, com o álbum At the Foot of Nameless Roads e o CD-R No GPS, ambos pela Digitalis. Psychical é seu segundo álbum, e seu primeiro lançamento com o selo Not Not Fun. (RG)

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Formou-se aos poucos, amalgamando diferentes segmentos de subgêneros, mais por uma impressionista noção de feeling do que por estratégia, mas formou-se firme, e sabe-se lá como. Hoje, está em todo lugar, com diferentes feições mas com um mesmo efeito de maravilhamento assustador a partir de objetos musicais simultaneamente misteriosos, evocativos, soturnos e psicodélicos. Por mais que se insiram em contextos distintos, fica difícil não associar o trabalho de Forest Swords, Sun Araw, Ensemble Economique, Demdike Stare, Umberto e mesmo Leyland Kirby na confecção de um misto muito contemporâneo e arcano de ambient (mais ao lado dark), drone de sintetizador, mantra, psych e trilha sonora para filmes inexistentes. Os méritos e os deméritos pessoais cabem a cada artista individualmente, mas convém notar que o tempo une esses OVNIs contemporâneos nessa busca de uma música evocativa sem objeto cuja primeira reação é o absoluto mistério diante de seus sons e da fruição que eles evocam, geralmente curto-circuitando épocas heterogêneas para conseguir uma dimensão ultratemporal (não atemporal, cabe frisar) da escuta – certamente não são os sons “de hoje”, como com Dan Deacon, os discos da Raster-Noton ou Animal Collective, mas tampouco são sons que se deixam alegremente parasitar apenas um momento do passado e macaqueá-lo fetichisticamente. Daí que, entre outras coisas, esses artistas redimem a onda hipnagógica reinante (seja o “pop hipnagógico”  de Ariel Pink e Rangers ou a “hipnagogia experimental/arquivística” de Moon Wiring Club e Focus Group) de seu atávico sentimento passadista, impondo uma fricção temporal que é própria de nossos dias, em que temos ao toque dos dedos a biblioteca sonora que quisermos.

Parte da emergência desse psicodélico soturno deve-se à cena psych do underground californiano, seja pelo viés do Sun Araw, seja pela atmosfera estética construída pela curadoria do selo Not Not Fun (cortesia de Amanda Brown, ex-Pocahaunted). Mas Psychical não precisa tomar legitimidade emprestada nem da nova cena, nem do selo. Como Ensemble Economique, o californiano do norte Brian Pyle realizou um dos discos mais suntuosos e vibrantes em atmosferas ameaçadoras e insidiosas de que já tivemos notícias. A sensação geral é a de se estar perdido no meio de um filme de terror abstrato, ligeiramente vagabundo no vocabulário mas sofisticado na linguagem e no requinte dos planos e do ritmo. A música soa como uma possível variação experimental do doom metal que trocasse as guitarras e baterias por sintetizador e bongôs, e tivesse maiores preocupações com a dinâmica da composição.

“Hail” abre o disco com ondas de sintetizador vintage que tem seu marasmo seventies quebrado por atabaques nervosos que reinserem a sonoridade numa outra chave de percepção (“kosmische my ass”, dir-se-ia com propriedade). “Red For the Sun” trabalha com drones graves abusivos no fundo enquanto evolui por meio de falas (também graves) de um inglês pra lá de carregado no sotaque antilhano e pulsos dados por uma matraca de roda. “Forever Eyes” usa arranques de bateria sintetizada, lembrando o darksynth apocalíptico dos anos 80, e adiciona ao recheio uma voz sussurrada. “Shacks Built From Plyboard” aposta nos efeitos de ressonância do órgão de igreja, e novamente os atabaques e a matraca são incorporadas para friccionar a solenidade do instrumento e colaborar com a coloração rítmica. “Real Things”, talvez a melhor do disco, reencontra o vozeirão grave antilhano e adiciona ao peso do fundo a guitarra de Tom Carter (ex-marido e parceiro de Christina Carter nos Charalambides, presente ainda em outra faixa do disco, “Monsoon Clouds”). A capa de Psychical vende apenas pela metade o som do disco que há dentro: há retrô e há vintage, mas aqui eles convivem perfeitamente com diversos elementos heterogêneos prontos a conferir ao som geral uma sensação que nada tem de emulatória. Mais do que Umberto, ancorado demais em John Carpenter e Goblin para transfigurá-los efetivamente, Brian Pyle fez a trilha sonora perfeita para seu filme inexistente, e como Leyland Kirby transbordou o tempo através do sutil jogo de camadas anacrônicas entre si. E o resultado é definitivamente viciante. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 15 de junho de 2011 por em eletrônica, experimental e marcado , , , , , , .
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