Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Julianna Barwick & Ikue Mori – FRKWYS Vol. 6 (2011; RVNG Intl, EUA)

Julianna Barwick é uma vocalista e compositora americana (nasceu no estado da Louisiana, vive no Brooklyn, NY). Seu primeiro álbum é Sanguine, lançado independentemente em 2006. The Magic Place, seu segundo álbum, foi lançado em fevereiro de 2011 pelo selo Asthmatic Kitty. Ikue Mori é uma compositora, baterista e artista gráfica japonesa (Tóquio, 1953) conhecida por participar da cena experimental novaiorquina a partir dos anos 70, da no wave (tocou no grupo DNA, de Arto Lindsay) à música improvisada (John Zorn, Fred Frith). Mori e Barwick tocaram juntas como parte de uma instalação na galeria White Columns, em Nova York, em outubro/novembro de 2010, com curadoria da RVNG Intl., o mesmo selo responsável pela série FRKWYS, que já lançou artistas como Excepter, Arp e Psychic Ills. (RG)

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Convenhamos: os discos solo de Julianna Barwick saltitam perigosamente na linha que divide o surpreendente e o tedioso. Num primeiro momento, achamos fascinante a maneira como ela utiliza e deforma sua voz com loops e efeitos, e de fato parte de seu mérito constitui na evidência de que ela de cara já achou um terreno dentro da música para chamar de seu (o que, considerando quanta gente está envolvida e quão multifacetados são os projetos, é muita coisa). Mas eventualmente a coisa toda recai num xarope etéreo que tem seu interesse mas não demonstra muito dinamismo interno. A própria Ikue Mori, bastião da cena experimental novaiorquina, pode por vezes chatear o ouvinte com seus samples que emulam sinteticamente sons da natureza, como água escorrendo, revoadas de pássaros e assim por diante. Mas eis que se dá a mágica da conjugação, e as sonoridades de ambas artistas se acoplam miraculosamente para criar uma obra delicada mas com fúria interna, cheia de detalhes mas simples na concepção, rica no conjunto e consistente a cada momento e a cada escolha feita por cada uma das artistas em cena.

Duos de improvisação muitas vezes são provas de fogo. Não há um terceiro elemento no qual se esconder, ou com o qual negociar um papel menos proeminente. Não querendo desfazer de outras formações, o duo talvez seja a situação em que a improvisação precisa se dar da maneira mais certeira como um diálogo necessário, como uma relação contínua de asserções e respostas, estabilizando ou desestabilizando a harmonia estabelecida pela interação entre os músicos. No caso de Ikue Mori e Julianna Barwick, nenhuma das duas precisa sair de seu esquadro para coabitar o espaço da outra. Barwick canta com seus solfejos característicos e cria loops espectrais com eles, formando drones entre o celestial e o melancólico, ao passo que Mori ataca ora com agudos firmes ou, mais frequentemente, com suas incursões fragmentárias, hiperpontilhistas, que, pela inserção na corrente sonora, acabam cumprindo a função percussiva que Mori exerce desde que começou na música. Em FRKWYS Vol. 6, o som de uma artista compensa o aspecto deficiente da outra. Se falta a Julianna Barwick um senso de variação interna, Ikue Mori o fornece maravilhosamente bem, com ataques espaçados e muito diversos que permitem à voz de Barwick permanecer sempre viva e nova, sem o risco da falta de peso (weightlessness) que seus discos evocam. Quanto a Barwick, sua propensão à longa duração das células musicais fornece um solo e um horizonte para Ikue Mori, que pode trabalhar como uma pintora, pincelando aqui e acolá a tela que com sua voz Julianna Barwick lhe fornece.

O resultado final parece muito mais com Ikue Mori e com improvisação do que com Julianna Barwick e com, sabe-se lá como dizer, balada espectral. Nada mais natural, uma vez que são peças improvisadas e que uma já é tarimbada nesse tipo de execução e outra está dando seus primeiros passos. E é Ikue Mori que domina a cena em FRKWYS Vol. 6, mas isso não poderia ser feito sem uma real interação entre as duas artistas, e é essa interação que no fim das contas faz os grandes momentos da improvisação. O desafio de Barwick foi estar aberta a essa interação, e o saldo foi enormemente positivo. Quanto a Ikue Mori, ela aqui é responsável por alguns de seus mais belos blipzinhos, se alimentando da doçura agridoce de Barwick para alternar da formosura eufônica às estridências de feedback. FRKWYS Vol. 6 é uma das surpresas mais bem-vindas desse ano, e não é só o caso de um improvável que deu certo: é um disco que entrega muito mais do que seriam as mais altas expectativas sobre ele. E um disco único também, porque vai demorar até aparecer outro duo improvisado de voz espectral com percussão eletrônica pontilhista. Mas essa é outra história. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 17 de junho de 2011 por em eletrônica, experimental, improv e marcado , , , , .
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