Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pursuit Grooves – Frantically Hopeful (2011; Tectonic, Reino Unido [EUA])

Pursuit Grooves é o pseudônimo de Vanese Smith, produtora, compositora e cantora americana nascida e estabelecida na cidade de Nova York, com passagem por Washington D.C. Seu primeiro álbum, Fun Like Passion, data de 2006, e foi lançado artesanalmente pela cantora em CD-R, assim como o segundo, Wild Art Forestry, de 2008. Sustainable Movements For a New Age, de 2009, foi apenas disponibilizado para download gratuito. Começou a chamar a atenção da mídia especializada com o EP Foxtrot Mannerisms, lançado pelo selo Tectonic, do produtor britânico Pinch. Frantically Hopeful é seu quarto álbum, e seu primeiro lançado por um selo de porte mais significativo. (RG)

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Da primeira vez que ouvimos falar do Pursuit Grooves, foi através de Foxtrot Mannerisms e da assombrosa “Pressure” que abria esse EP cheio de momentos auspiciosos. “Pressure” é uma pequena joia que adiciona soul e r&b à sofisticação techno-fragmentária fourtetiana, mas mantém-se claramente acessível a públicos mais largos como uma espécie de avant-soul com um notável artesanato pop. Mas aqueles que esperam apenas essa faceta, ou que esperam pelo menos que essa faceta dê as caras em algum momento de seu novo lançamento, esses hão de se desapontar com Frantically Hopeful. O que temos aqui é um indefinível bric-à-brac de loops quebradíssimos, camas de sintetizador cósmico, fragmentos de canção desvirtuados pelo equilíbrio torto da batida, raps ou mesmo cantos eventuais, e a sapiência de alguém que sabe beber do dubstep, tudo isso filtrado por uma sensibilidade proveniente do soul. Soa mais ou menos como se Janelle Monae fosse inteiramente desmontada e depois reconstruída por um discípulo de Flying Lotus particularmente aficcionado por loops selvagens como os do juke. Só que muito mais variado e imprevisível do que parece.

“Revolutionaries” começa mansinha, com licks de house, mas rapidamente uma bateria insanamente quebrada e uma linha de sintetizador vem romper a audição frugal e transformá-la num quebra-cabeça da sensibilidade. “Type Send Universe” já começa insana, com um loop de compasso que não chega até o final, sobre o qual entra uma linha calorosa de baixo e alguns samples bem localizados para dar relevo. A sensação é a de um soul easy-listening que deu gloriosamente errado porque um arranhão impediu que a agulha seguisse o fluxo normal do sulco. Quando chega a terceira, “I Sink”, um rap/spoken word estruturado por uma programação de bateria de andamento ultrarrápido que lembra música industrial, sabemos que o disco não abrigará momentos de respiração para incorporar faixas afáveis. É um disco que soa radical não pela utilização de elementos de sonoridade abrasiva, mas pelo notável descentramento  operado em células sonoras que estamos acostumados a ouvir muito bem centradinhas.

Frantically Hopeful é um disco em que cada faixa possui sua lógica própria, conformado por um ideal modernista nas composições – no mínimo o intento de confrontar o ouvinte com coisas que ele não pode domesticar na audição – e um ideal progressista-cósmico nas letras e nos títulos (“it’s a revolution”, “transformation of consciousness”, “peace talks”). Às vezes, no entanto, a coisa funciona um tanto no vazio, como “Transformation of Consciousness” ou “Mars Is Rising”, que soam como vinhetas mas duram tempo demais para sê-lo, e não apresentam variações suficientes para cativar até o fim da audição. Em compensação, quando Vanese Smith afronta seu lado mais soul, como na frankensteiniana balada “Peace Talks”, o sucesso é certeiro.

São muitas ideias em ação em Frantically Hopeful, a maioria muito boa. Ainda assim, resta a impressão de que o disco poderia ter menos ideias e trabalhá-las mais detidamente. Essas ideias não se articulam 100% na progressão das faixas, mas isso é algo patentemente desejado, e essa escolha chega mesmo a fornecer um charme ao disco. Imperfeito por escolha, exímio em momentos, quase sempre cativante, o tão esperado disco de Pursuit Grooves não é a grande revelação que se esperava, mas ao menos fornece ingredientes suficientes para uma fina degustação. (Ruy Gardnier)

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Em seu último EP, o incrível Fox Trot Mannerisms, Vanese Smith trazia uma mistura indefectível de elementos musicais, plenamente afinada com o fragmentário universo musical contemporâneo. Ela se destacou explorando o “avant-soul” de Georgia Anne Muldrow e Janelle Monae, a vertente mais trip hop do dubstep inglês e o hip hop descompassado característico dos selos Stones Throw e Brainfeeder, compondo, produzindo e versando com desenvoltura e malícia incomuns para quem desempenha tarefa tão complexa.

Prodígio do MPC, Smith também se mostrou plenamente capaz de criar uma sonoridade própria, sem filiar-se a nenhuma escola ou linhagem específica. Encarnando um daqueles muitos casos na música atual nos quais o artista opera segundo uma série de influências, sem que se confunda com elas, o Pursuit Grooves confirmou o traço distintivo de seu trabalho – como Blue Daisy, Actress, Ikonika, entre outros. Promovendo o encontro do hip hop experimental norte-americano com as batidas eletrônicas oriundas do contexto dubstep, o Pursuit Grooves excede as expectativas com sua sonoridade sensual e oblíqua.

No entanto, paga-se um preço pela distinção. Na economia dos rótulos e das “cenas”, um artista mal posicionado – ou inclassificável – há de ser questionado pela inadequação ou pelo reposicionamento diante de um cenário já bastante conturbado. Imaginem um disco de Hecker ou Leyland Kirby pelo Night Slugs, selo especializado em house/UKF? Ou ainda a estranha inclusão do Hype Williams no cast da Hyperdub? Após editar um single digital e alguns CDr’s pelo selo What Rules Records, Vanese Smith chega ao seu quarto lançamento, o primeiro por um selo renomado. Não vejo como determinar objetivamente se isto influiu ou não em seu trabalho, mas é inegável que Frantically Hopeful traz uma série de novos aspectos à sonoridade do Pursuit Grooves.

O disco começa promissor, com três faixas que prolongam admiravelmente o que já havia impressionado em Fox Trot Mannerisms: batidas sincopadas e justapostas, baixo sintetizado e um jogo de vozes de tirar o fôlego. Quando termina a terceira faixa “I Sink”, chegamos à conclusão de que estamos diante de um dos grandes discos de dubstep do ano. Porém, alguns momentos do disco resvalam em uma tentativa oportuna de criar algo mais próximo de sonoridades familiares ao cenário. Se antes a música do Pursuit Grooves destoava no cenário geral, com Frantically Hopefull esta distância foi diminuída. Está mais afinada com o Brainfeeder de Flying Lotus e Samiyan. Está mais próxima do Hype Williams, do Peaking Lights, do L.A Vampires. O que dizer da batida regular e dos modos synthpop de “Transformation of Consciousness”? Ou da estrutura magra e simplória de “Mars is Rising” e “Bedazzled”? Ou ainda do acento soul pop de “Clueless”, uma saborosa (porém ordinária) releitura do trip hop, temperada pelos timbres do dubstep.

Felizmente, quase setenta por cento do disco extrapola o alinhamento inoportuno dessas composições. A melancolia em “Peace Talks” é digna de nota, com seu contrabaixo errante e a voz vulnerável de Smith. Três faixas poderosas encerram o disco: a hipnótica “Attention”; a anomalia funky house “Bailouts”; e o encerramento polirrítmico, em tom de Nouvelle Vague, “What about?” Fica a pergunta evidente: não valeria unir as três primeiras, as três últimas e “Peace Talks”, incrementando o êxito de Fox Trot Mannerisms, ao invés de buscar a adequação ao contexto “tectonic” através de faixas vazias? Essa suposição, no entanto, não retira o brilho e a intensa particularidade de Frantically Hopeful e do trabalho de Srta. Smith. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 30 de junho de 2011 por em eletrônica, soul e marcado , , .
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