Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ekoplekz – Memowrekz (2011; Mordant Music, Reino Unido)

Ekoplekz é o projeto de um artista de Bristol identificado apenas pelo nome de Nick e pelo blog de música eletrônica que manteve de 2003 a 2009, gutterbreakz. Seu soundcloud já trata de descrever seu processo de trabalho: “Toda muzika trazida espontaneamente à existência por um ambiente inteiramente analógico. Gravada em cassete de quatro canais, ignorando todas as regras de bons procedimentos de gravação. Absolutamente nenhuma pós-produção na digitalização exceto por uns retoques muito discretos. Todos os barulhos inusitados, como chiados de fita, estalos, distorção e zunidos, são intrínsecos às faixas. Por favor não ajuste o som para corrigir”. Depois de alguns trabalhos lançados independentemente em 2010 (Volume 1, Doctrine 789305, Volume 2), Ekoplekz teve seu compacto Stalag Zero/Distended Dub lançado pelo selo Punch Drunk e teve agora em março seu primeiro álbum, um cassete duplo intitulado Memowrekz, lançado pela Mordant Music. No mês seguinte veio o EP Fountain Square, com algumas faixas que não couberam em Memowrekz. (RG)

* # *

Alguns obras de arte, e entre elas alguns discos, quando aparecem, desnorteiam de partida. São peças que desde o momento que surgem parecem habitar outros planos de existência, não se orientar pelas coordenadas segundo as quais a maioria dos artistas e de seus públicos se deixam guiar. Isso pode produzir obras que são apenas estranhas/pitorescas, mas também pode produzir verdadeiros monolitos de mistério carregados de expressão. Memowrekz pertence tranquilamente à segunda categoria. São 33 faixas em quase duas horas de música estruturada segundo padrões de organização, arranjo e timbre que não têm parâmetro comparável a nada do que existe presentemente. É uma música que bebe de muitas fontes, do kosmische alemão dos anos 70 aos primórdios da música industrial/synthpop dos anos 70-80, passando pelo dub e pelo BBC Radiophonic Workshop, mas a fusão de elementos é tão imbricada, e sua tradução tão pessoal, que a música do Ekoplekz só acaba soando muito longe com qualquer dessas influências diretas.

Talvez a única descrição sumária aceitável para a música do Ekoplekz seria “música ambient para perturbados”. Isso  porque, em termos de timbres e organização sonora, não tem nada que crie ambiência ou aconchegue o ouvinte no espaço-tempo. Mas as estruturas são basicamente de música ambient, só que a música é feita com timbres áridos de sintetizador, muita bruma vinda de filtros e ataques ríspidos em loop que ficam a meio-termo entre a melodia e o ritmo. Um procedimento recorrente em algumas faixas é oscilar alternadamente os volumes de dois loops, um de percussão eletrônica e outro de tonhonhóins que aproximadamente poderíamos considerar melódicos: por estarem organizados segundo uma mesma lógica de utilização, tendemos a senti-los como elementos homogêneos. Em outras faixas, a separação ritmo-melodia é mantida, mas sempre com elementos intermediários que podem ser considerados ora como um, ora como outro. Mesmo nessas, a lógica de arranjo convencional é absolutamente ignorada, sem elementos para fazer “a caixa”, “o prato”, “o baixo” e assim por diante. Às vezes é como se o Black Dice tivesse se entupido de Leyland Kirby e decidisse fazer algo do gênero, às vezes é como se o Neu! recebesse um remix dub de fidelidade extremamente baixa.

O Ekoplekz é um mistério porque ele não cai em qualquer fórmula fácil. Pode-se falar da extrema aspereza dos timbres sintetizados, que aproximam por vezes o projeto do noise, mas apesar da abrasividade sonora, eles são tratados como células musicais tão dignas e cheias de melodia como quaisquer outras. Mesmo quando recai em modelos mais reconhecíveis, como incursões “solistas” de trompete ou guitarra por cima de bases em loop, ou quando abusa de ecos psicodélicos à moda do dub, a atmosfera obtida está radicalmente longe do que se ouve em coisas congêneres. Memowrekz é composto de 33 passeios por paisagens disparatadas, ilógicas à primeira vista mas harmoniosamente organizadas à medida que o olho se acostuma à nova ordem, deliciosamente intransigentes na crueza rústica misturada com o refinamento do conceito, que nos convidam a uma viagem psicodélica extravagante de blips ultrarrascantes, ecos esfumaçados e quase-melodias alienígenas. 33 petardos que poderiam reivindicar para si o rótulo de freak ambient. Senhoras e senhores, a coisa é devastadora. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Um comentário em “Ekoplekz – Memowrekz (2011; Mordant Music, Reino Unido)

  1. Pingback: Updates (and a few photos) « Ekoplekz Bulletin Board

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 1 de julho de 2011 por em eletrônica, experimental e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: