Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ricardo Villalobos & Max Loderbauer – Re: ECM (2011; ECM Records, Alemanha)

Ricardo Villalobos nasceu em Santiago, no Chile, mas se mudou para Alemanha ainda na infância, fugindo da ditadura de Pinochet. Produtor e DJ, é uma das figuras mais importantes da cena techno contemporânea, explorando de forma particular os elementos do microhouse e do minimal. Lançou cerca de cinco discos solos, e diversos EPs em selos como Playhouse, Perlon, Sei Es Drum, entre outros. Max Loderbauer é produtor respondável por projetos como Sun Electric e NSI, além de fazer parte do Moritz Von Oswald Trio. Durante o Outono de 2009, no estúdio Laika em Berlim, Villalobos e Loderbauer reinterpretaram material bruto do catálogo do selo alemão ECM (Edition of Contemporary Music), fundado por Manfred Eicher em 1969, especializado em explorar os limites do jazz e da música erudita. Nas palavras dos autores, Re: ECM busca criar “estruturas sonoras” – “novas contextualizações para os espaços sonoros” criados por músicos filiados ao selo, como Louis Sclavis, John Abercrombie, Wolfert Brederode, Paul Giger e Christian Wallumrød. Vale notar que Eicher produziu e masterizou o álbum. (BO)

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Como na grande maioria das vezes recusei com veemência o trabalho excessivamente cerebral do selo alemão ECM, me flagrei meio perdido diante das inúmeras referências trabalhadas nesta colaboração entre dois nomes relevantes da eletrônica contemporânea, Ricardo Villalobos e Max Loderbauer. Em busca de pistas que me aliviassem a barra de ter de percorrer o abstracionismo de Miroslav Vitous, John Abercrombie e, mais recentemente, Christian Wallumrød Ensemble, detive-me sobre a capa verde escuro em busca de outras pistas. Na ausência de estofo suficiente para empreender uma crítica do ponto de vista objetivo, me refugiei justamente na abstração da qual tentava fugir.

Reparei alguns borrões ainda mais verde escuros, além do risco branco, imperfeito, cortando o incomensurável espaço verde. Contando com a benevolência do leitor para o delírio que se segue, tais borrões pareciam dizer: se a arte pode manifestar uma dimensão crítica e, por outro lado, pode gerar a representação estocástica de sua existência enquanto fenômeno estético – desdobrando-se em outras obras e comentários – eis uma capa perfeitamente adequada para o álbum em questão. Ela indica visualmente o grau e a natureza da particularidade com que confluíram o trabalho de Villalobos, Loderbauer e do produtor do disco, o alemão Manfreid Eicher, fundador da ECM.

Entre tais nomes, nomes importantes da música contemporânea, há de se supor que existam abismos, pontes, conexões imprevisíveis, afinidades eletivas, formas diversas de criar e desenvolver procedimentos concernentes à criação musical. E, de fato, Re:ECM é um trabalho que dificilmente seria concebido por outros personagens que não os que estão aqui em jogo. Eicher, por motivos óbvios, por ser o mentor e timoneiro de uma utopia jazzística que no meu entender, já rendeu seus frutos mais suculentos. Villalobos corrobora o impressionismo minucioso da ECM, ele que timbrou o techno com sutilezas sonoras de modo a justificar brilhantemente o rótulo “microhouse”. Loderbauer, aparentemente como um catalisador de ideias, da mesma forma como faz no trio de Moritz Von Oswald.

Diante da excelência do trabalho, não tive outra opção se não buscar suas fontes – que, sim, importam. Mas vale frisar que, independente de qualquer referência, Re:ECM possui luz própria, encerrada em uma atmosfera idiossincrática, difícil de dominar à primeira vista. Assim, convém destacar que o disco não é exatamente um álbum de remixes. Artistas de épocas distintas e com um aporte variado foram “recriados”, isto é: retalhados, remixados, sampleados, “loopados”, reconstruídos, adicionados a outras composições. Em diversos momentos, os trechos são executados em sua perfeita unidade sonora, apenas salpicados por efeitos. Em outros, a dupla cria novas peças, absolutamente autônomas em relação à faixa original, e incorpora seus elementos, recontextualizando-os. Neste aspecto, temos um capítulo à parte. Pois se os limites da interpretação foram ultrapassados pelo recorte conceitual estabelecido pelos autores, o mesmo não se pode afirmar da sonoridade ECM. Esta se mantém preservada em seu pontilhismo cerebral, muitas vezes árduo e trabalhoso, que define o selo em seu caráter mais profundo.

Nas 17 faixas que compõem Re:ECM, são perceptíveis e evidentes suas características gerais. Mas percorrê-lo faixa a faixa, seguidas e repetidas vezes, mostra que nem tudo pode ser açambarcado pela visão geral. Por sua extensão e pretensão, o disco excede o conceito geral e chega a dialogar abertamente com a obra de Villalobos e Loderbauer. Como em “Resole”, do CD 2, recriação de uma faixa do russo Alexander Knayfel, na qual a sobreposição de vozes femininas cria o contraponto perfeito ao ritmo descompassado formado por bleeps e percussões. Ou na generosidade com que retiram John Abercrombie da pasmaceira de “Timeless” (de 1975), através dos timbres abrasivos de “Retimeless”. Duas “recriações” (ou “recontextualização”) da belíssima “Blop”, do Christian Wallumrød Ensemble encabeçam os dois discos: “Reblop” (do disco 1) e “Replob” (do disco 2) absorvem o aspecto onírico da harpa barroca de Giovanna Pessi, a primeira de forma mais propriamente jazzística – tensa e irregular –, a segunda dispondo de camas de teclados mais duradouras e meditativas. Com o mesmo Wallmurød, a faixa que encerra o CD 2, “Redetach”, se inscreve nos momentos em que podemos escutar o que seria algo como o duo de Ricardo Villalobos. “Reblazhenstva”, é retirada da obra do mesmo Knaifel (de “Blazhenstva”, 2008); espantosa e fantasmagórica recriação de “Rekondakion”, de Arvo Pärt (de “Kondakion”, 1998);  “Reemergence”, uma forma mais robusta de interpretar a peça de Miroslav Vitous (de “Emergence”, 1986);  um caso raro em que as duas versões se equiparam, “Rensenada” recria a peça “Ensenada” (1974), o jazz afropsicodélico composto por Bennie Maupin.

Re:ECM traz uma longa sequência de momentos de música eletrônica composta e pensada sob critérios aparentemente rígidos, mas com liberdade de criação indicada na profusão de detalhes e adições. Porém, no aspecto geral, permite entrever um pouco mais. Não somente o trabalho de composição extraordinário, que buscou captar este espírito sem macaqueá-lo, mas também uma forma aditivada de trato com a referência, que não é cover, nem cut and paste, nem remix, nem sampler, nem loop, mas tudo isso junto, misturado e justaposto. Mais uma vez os alemães roçam as técnicas do dub jamaicano – e seu conceito máximo, qual seja, usar o estúdio como instrumento musical – com caráter de invenção. Não só eles parecem extrapolar a mera proposta de revitalização do conceito ECM, como também inventaram uma ECM muito particular, tanto no tratamento conferido às composições, como na seleção das faixas. Um disco que pode ser amado, odiado, mal-compreendido ou simplesmente ignorado. Mas que promove uma modalidade de reinterpretação que servirá de referência não só para uma história da música em 2011, como também para a música eletrônica daqui para frente. (Bernardo Oliveira)

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