Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Deepchord – Hash-Bar Loops (2011; Soma Quality, Reino Unido [EUA/Holanda])

Deepchord é um projeto criado  no começo dos anos 00 em Detroit, EUA, pela dupla Rod Modell e Mike Schommer. A dupla ficou famosa por diversos singles sem título, conhecidos apenas pelo número de série (dc10, dc11 e assim por diante), lançados entre 2001 e 2003, pelo selo da dupla, também intitulado DeepChord. Há alguns anos, DeepChord é o projeto solo de Rod Modell, que também faz parte dos projetos Echospace e cv313, além de eventualmente lançar discos com seu próprio nome. Hash-Bar Loops é o primeiro álbum do DeepChord propriamente dito, já que os discos de longa duração anteriores haviam sido uma coletânea de singles e dois lançamentos como “DeepChord Presents Echospace”. Como seu título sugere, Hash-Bar Loops foi criado inteiramente em Amsterdã, Holanda. (RG)

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Três palavras parecem definir muito bem o processo criativo de Rod Modell e sua visão muito particular do dub techno: abstração, ambiência e subtração. O dub já nasceu como uma operação de abstração, de uma ação cerebral operada em cima de um objeto “carnal”, uma música de ritmo contagiante que tem a dança como objetivo. O Basic Channel muito apropriadamente soube transportar essa filosofia para o universo do techno, mas foi o DeepChord que conseguiu os níveis mais intensos, proibitivos quase, de subtração e abstração desse subgênero que é o dub techno, soando por vezes tão experimental quanto o muito mais rebuscado Pole. Filtrava-se praticamente tudo, e o que sobrava eram timbres que soavam como os sons mais límpidos e puros escutados até então, de um preciosismo que espantava pela elegância e pelo pleno domínio do espaço sonoro em que os sons fluíam. Com o tempo, no entanto, Rod Modell foi remodulando seu som, até chegar a uma nova formulação que ele levou à perfeição com The Coldest Season, primeiro álbum do projeto Echospace. A partir daí, a ideia de ambiência passou a moldar o som muito mais do que a subtração, e a pureza dos timbres foi trocada por uma “indefinição” estratégica, fazendo do lo-fi um ultra hi-fi (bumbos saturadíssimos e ao mesmo tempo abafados são uma marca registrada) e incorporando field recordings, chiados e ruídos de estática a seu som. O produto que nasceu daí permanece soando factivelmente como dub techno, mas conceitualmente está muito mais próximo de algo como um ambient techno tingido de dub.

Hash-Bar Loops não redireciona o som do DeepChord, agora sem “apresentar o Echospace”; apenas amplifica o grau de abstração operado em cima do vocabulário do techno tradicional. Seguindo a deixa do Basic Channel, não há dados melódicos reconhecíveis, apenas esguichos de notas ultraprocessadas que passam por nossas cabeças sem que possamos nos apoderar delas e transformá-las em dados familiares. Mas são os elementos reconhecíveis da marcação rítmica que passam por uma intensa radicalização. Não só os bumbos permanecem estourados e abafados como se o ouvinte estivesse na sala ao lado de uma psita de dança, mas os sons de pratos também soam ríspidos, rascantes, verdadeiros chiados transformados em elementos rítmicos. E como absolutamente não há qualquer elemento que corresponda à caixa, Hash-Bar Loops basicamente se apresenta a nós através da econômica dinâmica de graves abafados, agudos opacos e, no meio, ou nada ou camadas de ruído branco. “Electromagnetic” exemplifica à perfeição o primeiro modelo e “Merlot” o segundo.

Apesar do nome do disco, as faixas de Hash-Bar Loops apresentam variações significativas em sua progressão ‒ ou seja, não são loops e só loops que ouvimos ‒, mas sempre na progressão discreta do dub, não-teleológica e fartamente descontínua. Se os loops não se confirmam tal e qual, a sensação de um hash-bar mostra-se completamente apropriada como metáfora. É um álbum tresloucadamente hipnótico, esfumaçado de forma imponente pela saturação de seus elementos e onírico no espaço que há entre a marcação rígida do 4/4 e os elementos impalpáveis provenientes de chiados ou de field recordings. Os andamentos de Rod Modell estão mais rápidos e as batidas mais marcadas, mas o real passo à frente de Hash-Bar Loops é a radicalização da impressão de ambiência e a utilização de timbres paupérrimos (ao menos em termos de definição e pureza) para criar intensas situações de transe, entupindo os graves e os agudos e deixando os médios (nosso conforto) pra outro dia. Quando achamos que ele não pode mais nos surpreender, aparece ele com mais uma. Só resta abrir passagem e seguir o caminho. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Deepchord – Hash-Bar Loops (2011; Soma Quality, Reino Unido [EUA/Holanda])

  1. cheapelectroniccigarette
    20 de julho de 2011

    I love your camarilhadosquatro.wordpress.com
    electronic cigarette

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Publicado às 15 de julho de 2011 por em ambient, eletrônica e marcado , .
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