Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

John Tchicai and Cadentia Nova Danica – Afrodisiaca (1969; MPS, Alemanha [Dinamarca])

John Tchicai é um saxofonista dinamarquês (Copenhague, 1936). Na década de 60, mudou-se para os EUA e fez parte dos conjuntos New York Contemporary Five e New York Art Quartet, em que tocou com Don Cherry, Archie Shepp (no primeiro), Milford Graves e Roswell Rudd (no segundo), além de participar do seminal álbum Ascension, de John Coltrane. De volta à Europa na segunda parte dos anos 60, Tchicai participou de dezenas de discos com participantes da cena europeia de improvisação  livre, como Derek Bailey, Han Bennink, Misha Mengelberg e Hartmut Geerken, entre outros. Cadentia Nova Danica é um conjunto formado por 16 músicos escandinavos e criado para a gravação de Afrodisiaca, e conta com onze instrumentistas de sopro (não contando o próprio Tchicai), três de percussão, além de guitarra (Pierre Dorge) e órgão (Ole Matthissen). Afrodisiaca foi gravado em Copenhague no dia 16 de julho de 1969, dia da chegada do homem à lua, como a própria contracapa faz questão de lembrar. (RG)

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Afrodisiaca não é um disco de grande renome na história do jazz. Muito pelo contrário, é uma obra obscura, referida no mais das vezes como um momento passageiro numa historiografia evolucionista que vai com toda velocidade para chegar no free improv completo e frequentemente atropela zilhões de álbuns “transicionais” no meio do caminho. Mas de “disco de transição” Afrodisiaca não tem nada. Trata-se, ao contrário, de uma obra híbrida, que tem improvisação livre mas não é um disco de free improv, assim como tem jazz, elementos de experimentalismo erudito e de fanfarra popular, reconvertidos e transfigurados em outra coisa a partir da visão de seu conceptor, John Tchicai. A perspectiva histórica facilita, hoje, a apreciação: se há décadas atrás o foco do olhar centrava-se nos discos mais ousados, selvagens ou aqueles que transformaram em marcos (Machine Gun do Peter Brötzmann Octet, por exemplo), hoje a sedimentação de um terreno claramente reconhecível como free improv e um campo já vasto de álbums, artistas e propostas distintas à disposição do ouvido contemporâneo faz com que o foco se recentre menos na devastação cacofônica e mais nas formulações heterogêneas que incorporam free e não free, nos discos que brincam à vontade com um pé de cada lado da cerca sem saber que cerca há. Não é questão de minimizar o free total: ele permanece fundamental e tão urgente hoje como outrora. A questão é tirar do limbo os discos que nunca quiseram para si essa estruturação, e de quebra apresentaram modelos novos de organização que os transformaram em peças únicas no seio de qualquer discografia. Afrodisiaca definitivamente é um desses.

Ao contrário da maior parte dos discos de jazz, free ou não free, que preferem a continuidade, Afrodisiaca elege a separação e faz uma opção chamativa pela composição em diversos movimentos bem definidos, com cortes bem demarcados que dão à obra inteira a sensação de uma colagem (uma das faixas se chama adequadamente “Fodringsmontage“). “Afrodisiaca”, a peça que dá título ao disco e ocupa todo seu lado A, é uma composição do trompetista Hugh Steinmetz com movimentos guiados por instrumentos diferentes como balafon, contrabaixo, órgão e flauta, sem progressões climáticas ou reaproveitamento de temas. “Heavenly Love On a Planet”, inteiramente baseada em solos de Tchicai sobre percussões pontilhistas, é também cindida em quatro movimentos, os ímpares com sopros em uníssono formando uma melodia assobiável, os pares com os graves ultraguturais de Tchicai que destilam uma energia incendiária e desbragada. À exceção da curta “This Is Heaven”, uma doce melodia tocada com paixão pelo time de sopros, todo o resto de Afrodisiaca é separado por movimentos, alguns inteiramente escritos, outros misturando base fixa com improvisação, outros poucos de improvisação total.

E o que dá o charme e o gênio particular de Afrodisiaca é a forma como esses regimes se alimentam. Ainda que os movimentos não soem orgânicos entre si (ou seja, sem um guia claro de continuidade), a dinâmica entre melodias acessíveis e solos nervosos jamais soa forçada ou previsível, como se tudo ali, por mais heterogêneo que fosse, participasse de um mesmo clima de celebração cósmica, que é a principal sensação que sobressai da audição. Pode-se louvar o clímax free do final de “Afrodisiaca”, as flautas bêbadas ali no meio da mesma faixa, as fantásticas incursões de Tchicai alternando entre lírico e selvagem no disco inteiro, o incrível apuro dos percussionistas ou a poderosa guitarra de Pierre Dorge em “Fodringsmontage”, mas o encantamento maior surge mesmo do disco como um todo, da energia geral da execução, do equilíbrio nos movimentos e da pregnante sensação de um pé fincado na terra e a cabeça flutuando entre as nuvens, fanfarra e vanguarda. Uma excelente trilha para ir até a lua e voltar. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “John Tchicai and Cadentia Nova Danica – Afrodisiaca (1969; MPS, Alemanha [Dinamarca])

  1. Marcos Thanus
    3 de agosto de 2011

    Grande texto sobre um dos meus discos preferidos. Justamente… não é free o tempo todo, não é jazz o tempo todo, não é música clássica o tempo todo, mas sempre um pouco de tudo, sempre com o pé no chão e cabeça em uma outra dimensão. E que capa é essa, hein, bicho? Fãs de Sonic Youth tem que ouvir.

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Publicado às 15 de julho de 2011 por em experimental, jazz e marcado , .
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