Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Anne-James Chaton – Événements 09 (2011; Raster-Noton, Alemanha [França])

Anne-James Chaton é um poeta sonoro francês (Besançon, 1971). Foi editor de revistas e é diretor do festival de arte sonora Sonorités. Tem dois livros de ensaios, L’Effacé: Capitalisme et effacement dans les manuscripts de 44 de K. Marx e Notice de calcul de votre taux d’exploitation (ambos Sens & Tonka,2005), e quatro projetos livro+CD com sua poesia sonora: Événements 99 (2000), Autoportraits (2003), In the Event (com o grupo holandês The Ex, 2005) e Événements 09 (2011). Os três primeiros foram lançados pela editora francesa Al Dante, ao passo que o último foi lançado pelo selo Raster-Noton. Os “événements” de Chaton são as leituras dos documentos coletados durante um dia: manchetes de jornais, recibos, panfletos, cartões de fidelidade etc. “No fim do dia, essa coleção constrói um conto, porque cada documento revela informações, tais quais tempo, locais, ações, nomes de pessoas…”. (RG)

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Parte do charme alienígena dos lançamentos do selo Raster-Noton residem no equilíbrio entre aquilo que nossa sensibilidade entende como musical e aquilo que ela entende como não-musical. As melodias são limitadas a um mínimo operacional, ou simplesmente inexistem assim como a entendemos, sendo trabalhadas mais no sentido de informação, de sinal ou de dado, do que como nota. O núcleo do que se entende como “musical” nas obras dos artistas que gravam por esse selo tem a ver com o ritmo, habilmente manipulado de forma a criar padrões percussivos complexos, timbres robóticos e uma emoção fria, de pureza assustadora, que reflete à perfeição um aspecto do mundo tecnológico e, às vezes ironicamente, da “dança das máquinas” ao nosso redor. Curiosamente, há diversas semelhanças entre a obras de músicos como Frank Brestchneider e Alva Noto, que desmontam a música “de dentro”, e a obra do poeta sonoro Anne-James Chaton, que teve seu Événements 09 lançado pelo mesmo selo alemão, e que mesmo ao se aproximar da música “de fora”, chega a um lugar muito parecido. Essas semelhanças basicamente se resumem a duas instâncias-mestras, uma teórica e outra processual – e ambas revelam uma similaridade de princípios. No início do trabalho, há a opção por matérias-primas “digitais”, consideradas como informação bruta, e como estratégia composicional surge o ritmo como forma de transfigurar esses dados e conferir-lhes expressividade sonora.

O trabalho de Anne-James Chaton é uma meticulosa operação conceitual. Sua poesia não tem eu-lírico nem qualquer menção à interioridade ou a um conteúdo que brote, como se diz, “do coração do poeta”. A individualidade surge única e exclusivamente pela exterioridade, a partir dos encontros e dos vestígios dos encontros de um determinado percurso de tempo. Os “événements” de Chaton são obras criadas a partir de dias específicos em que ele guarda uma série de itens que chegaram a ele, sejam manchetes de jornais, trechos de notícias recortadas ou lidas, contas de banco, filipetas, recibos de compras. Uma vez completo o dia, ele utiliza a principal manchete de jornal como um loop que estrutura a composição, repetindo um trecho da manchete por alguns compassos e finalizando com a manchete inteira. Exemplo: “pop is dead, pop is dead, pop is dead, (…), the king of pop is dead”. Em seguida, pulsações semelhantes a bumbos se acrescem a esses trechos, acentuando ritmicamente o loop. Por fim e por sobre as falas da manchete, mais vozes que lêem ininterruptamente e a toda velocidade números, siglas, frases e mais números, criando uma intensa e vertiginosa sensação de simultaneidade. A sensação é mais ou menos como se um DJ de juke se apoderasse dos trechos com vozes múltiplas de “The Murder Mystery”, do Velvet Undergroung, e lhe impusesse uma marcação rítmica imponente tendendo a um ritmo “desequilibrado”.

Mas o talento de Anne-James Chaton não se resume apenas à invenção desse tipo de procedimento nem à semelhança de procedimento ou de sonoridade com outros artistas da Raster-Noton. O mais impressionante em Événements 09 é como os nove “acontecimentos” do disco (há mais nove faixas apenas com os loops originais das manchetes) variam entre si. É claro que, a partir de um padrão composicional tão rígido, as faixas se parecem todas. Mas temos desde o “Événement N. 25” (ou “Pina Bausch, une étoile s’éteint”), com uma batida marcial/industrial simples e envolvente, de audição mais simples, até a valsa ultrarrápida de “Événement N. 22” (“Iran, le printemps de Téhéran”), que entra na cabeça como um liquidificador, passando por “Événement N. 27” (“Éléction afghane: le défi au Taliban”) e seu pingue-pongue que se assemelha ao hardcore digital. Em comum, sempre, há a sensação de excesso, reiterada pelas justaposições de vozes, pelos loops e pelas repetições de  loops, praticamente intoleráveis para a grande maioria dos ouvintes de música, mas absolutamente coerentes e fascinantes ainda assim (a irritação temporária faz parte do processo). Mas o que torna Événements 09 uma audição absolutamente alienígena é a partilha operada e recomposta entre música e não-música, ritmando a recitação e se aproximando da música eletrônica ou fazendo do prosaico vocal uma questão de sobreposição de camada sobre camada. Mais ainda: absolutamente sem querer, Anne-James Chaton preencheu a lacuna que existia entre o juke a Raster-Noton, “simplesmente” enquanto fazia poesia sonora. O grande do disco, no entanto, não é o “o quê” – não é a poesia sonora em si, o processo na qual Chaton a realiza ou o fato de utilizar o ritmo a seu favor -, é o “como”: uma fina tapeçaria de ritmos tresloucados e informação vinda de todos os lados que provoca e bombardeia intensamente os sentidos. É coisa séria. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 29 de julho de 2011 por em poesia sonora, recitação e marcado , , .
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