Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Daniel Menche & Anla Courtis – Yagua Ovy (2011; MIE Music, Reino Unido [Argentina])

Daniel Menche é um músico experimental americano (Portland, EUA,1969) que atua nas searas do noise, do drone e do field recording. Tem cerca de 75 títulos lançados em sua carreira, entre CDs, CD-Rs, cassetes e outros, e já lançou discos colaborativos com Kevin Drumm, Zbigniew Karkowski e Mike Shiflet. Anla Courtis (que também assina Alan e Alna) é um guitarrista argentino (Buenos Aires, 1972) que conta com mais de cem lançamentos a partir de 1993 e já tocou com artistas como Makoto Kawabata, Billy Bao e Lasse Marhaug. Yaguá Ovy é o primeiro lançamento da parceria de Menche e Courtis. (RG)

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Daniel Menche é um dos compositores mais rigorosos em termos de timbre e estrutura a transitar pelos sons extremos do noise. Longe do free-form intuitivo e físico da tradição do harsh noise, suas peças usam barulho mas são meticulosamente estruturadas. Mas, a se julgar por sua discografia, Menche não é tão afeito a discos feitos a quatro ou mais mãos, preferindo o controle e o tempo pessoal de maturação para realizar seus projetos. Yagua Ovy é uma excelente oportunidade, então, para conferir o trabalho de Menche se relacionando com a arte de um outro músico, no caso Anla Courtis. Mas não é só isso. Menche desenvolve um trabalho soberbo com noise, mas também tem uma excelente utilização de registros de campo, processando-os sempre de modo a adensá-lo e transfigurar a “captação real”, por vezes desfigurando-os completamente. Já Anla Courtis é conhecido pelo tratamento incomum que ele dá à forma de extrair sons de guitarras, além da utilização de efeitos e outros objetos. Em Yagua Ovy ele toca até tabuleiro de pizza. Já Menche processa sons de neve e de pedras.

A graça disso tudo, felizmente, reside  alhures, não em proficiência técnica ou em gotchas, mas em riqueza timbrística e força evocativa das atmosferas. A despeito do que se toca, o universo sonoro criado é tão brutalmente diferente que o disco mal sabe onde se insere como gênero, porque é barulhento mas não o suficiente pra ser noise, tem drone mas é dinâmico demais para caber no gênero, e apesar de ser colaborativo não soa como uma sessão improvisada (e não há dados se é ou não no disco ou no release do lançamento). Pode não ser nenhum gênero preciso, mas é um amálgama intenso de paisagens sonoras ameaçadoras e exuberantes, que por metáfora podem lembrar a situação do tal lobisomem argentino a que o título do disco, passando por florestas espessas e por camadas densas de neve, lutando para desafundar o pé.

“El relincho”, o lado A, é feito de quase 17 minutos de pura apreensão. Começa com o que parecem ser pisões na neve, e rapidamente surgem efeitos de guitarra que mais parecem os microbarulhos magnificados que um relógio tem por dentro, acompanhados de um gongo abafado e ressonante (os tabuleiros de pizza amplificados?). Antes da faixa chegar a 1/3 de sua duração o som já está repleto com uma diversidade de sons atacando por diversos lados, como numa sinfonia de objetos. Quando a guitarra invade e cria uma parede sonora de estática, os ruídos de pegada já se transformaram em algo mais brutal, como um microfone batendo diretamente numa supefície. Como em mágica, a faixa não evolui mas jamais permanece a mesma (há um ligeiro crescendo, mas nada formulaico ou chamativo demais). Mais uma vez o feeling de Menche transparece, com sons ao mesmo tempo apavorantes e cheios, mas com uma precisão timbrística e de ataque que é precisa e inigualável. Em “Runa-uturunco”, nosso lobisomem parece pisar em pedrinhas de cascalho ou tijolos, enquanto ao fundo sinistros drones graves se produzem, como o vento batendo no alto de uma montanha. O som é muito menos cheio do que na faixa anterior, e a dinâmica também é mais discreta. O que se perde em suntuosidade, no entanto, ganha-se no sentimento de uma ameaça à espreita, prestes a atacar. Como da outra vez, novamente uma guitarra soa com mais definição a partir da metade da faixa, tornando o som mais cheio e alto. O som das pedrinhas fica cada vez mais esparso e com esse equilíbio a faixa vai calmamente a seu final.

Yagua Ovy não é um marco, mas surpreende pela escolha de sons e pela harmonização operada entre eles. O grande forte do disco é o efeito criado pela atmosfera geral mais do que as evoluções internas de cada faixa, mas é impressionante como o disco não se deixa levar pelas facilidades na criação de ambiência – dada a quantidade de detalhes que percebemos na audição, os dedos até hesitam ao dizer que é a atmosfera geral o que mais encanta no disco. Podemos encarar o disco como passeios numa floresta com neve ou num descampado com chão de cascalhos e vento batendo forte, ou podemos simplesmente ignorar qualquer mimetismo e simplesmente nos deixar envolver pela escolha sonora de Menche e de Courtis. Em ambos os casos, os momentos de frio na barriga e atenção retesada irão aparecer. (Ruy Gardnier)

 

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Informação

Publicado em 29 de julho de 2011 por em eletrônica, experimental, field recording.
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