Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Eliane Radigue – Transamorem-Transmortem (2011 [1973]; Important, EUA [França])

Eliane Radigue é uma compositora francesa (Paris, 1932) de música eletrônica. Foi casada com o artista visual francês Arman, com quem teve três filhos nos anos 50. Estudou piano e começou a compor nos anos 50, mas depois de ouvir um programa de rádio com composições de Pierre Schaeffer, interessou-se em música eletrônica. Foi assistente e aluna de Schaeffer, e nos anos 60 trabalhou como assistente de Pierre Henry. Seus primeiros trabalhos eletrônicos surgiram no começo dos anos 70 e foram apresentados como instalações sonoras e concertos na França e nos EUA. Até os anos 90, quase toda sua obra foi composta no sintetizador ARP 2500, e a maioria de suas peças tem longa duração, com variações muito discretas e ênfase na repetição. Algumas de suas obras mais célebres são Adnos, em três partes (1974, 1980 e 1981, respectivamente), e Trilogie de la mort (1988-1993). Transamorem-Transmortem foi composta em 1973, pouco antes de sua conversão ao budismo tibetano no ano seguinte. (RG)

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Originalmente concebida como uma instalação sonora com quatro alto-falantes instalados num espaço acarpetado e com iluminação especial, Transamorem-Transmortem já em seu conceito se estabelece como uma obra que almeja trabalhar a percepção do som no espaço acústico e as sensações do espectador/visitante quando passeia pelo espaço da sala. “A impressão de diferentes pontos de origem do som é produzida pela localização das várias zonas de frequências, e pelo deslocamento produzido por simples movimentos de cabeça no espaço acústico da sala”, escreve Radigue nas instruções para a execução da obra. A primeira preocupação ao ouvir essa peça como áudio é saber se ela reproduz ou adapta a sua maneira o ambiente sonoro da instalação original. Mas bastam alguns instantes para que o pé atrás desapareça. À medida que o som (alto e com boa separação entre as caixas, de preferência) preenche o espaço com suas diferentes gamas de frequências, o “simples movimento de cabeça” indicado pela compositora reordena sensivelmente os equilíbrios e os volumes das frequências que ouvimos, e um passeio pelo ambiente comprovará que o efeito desejado se produz com grande clareza. O que não se pode descrever é como a ação dessas variações na sensibilidade vão muito além de um “hocus pocus” qualquer ou de um “efeito 3D” que brinca com o “agora vejo-agora não vejo”. É a maneira como o som vem em ondas-drones de uma pureza aviltante, como as vibrações sonoras preenchem o espaço e constroem uma sensação de tempo absolutamente particular, embaralhada, forçando estases da percepção ou atenção ultramagnificada do tempo. Como se pode perceber, Transamorem-Transmortem é uma “viagem espacial” e a audição com fones de ouvido destrói a experiência pretendida, assim como arrisca destruir o próprio ouvido do ouvinte exposto às frequências hiperagudas onipresentes no canal esquerdo.

Transamorem-Transmortem, ao contrário do que o nome sugere, não é uma audição imersiva, se como imersivo nós queremos enfatizar a característica pela qual o som “suga” o ouvinte para dentro de seu “mundo”. Não há mundo “subjetivo”, mundo dos sentimentos evocados pela música. Assim como a obra de Maryanne Amacher e a de Florian Hecker, trata-se de uma obra escandalosamente objetiva, despida de lirismo subjetivo, em que a poesia bruta consiste da duração em que as frequencias passeiam por nossos ouvidos e sofrem pequenas variações, seja na própria obra (que as tem; não é um drone único, longe disso), seja na movimentação da orelha pelo espaço. Mas, ao contrário de Amacher ou Hecker, Radigue busca criar uma relação de audição em que as frequências emitidas não constituem um choque, mas um ambiente em que as “coisas consonantes vibram juntas”, e em que os tons acasalam a sensorialidade do ouvinte de modo a fazê-lo vibrar junto com a obra em harmonia. Não são à toa as comparações com LaMonte Young e Morton Feldman: apesar do uso de diferentes instrumentos, a relação desenvolvida entre tons e tempo é semelhante, de modo a criar um sentimento similar à meditação ou à harmonia interior-exterior do budismo. É apenas nessa acepção que se pode considerar Transamorem-Transmortem uma experiência imersiva.

Eliane Radigue, pela necessidade de audição contínua de suas peças de longa duração (Transamorem-Transmortem, por exemplo, dura por quase 70 minutos), só pôde ter suas obras lançadas a partir do advento do CD (e, hoje, dos formatos digitais), o que atrasou em décadas o reconhecimento de sua arte como uma das mais fascinantes obras na seara da música eletroacústica. Hoje, na era do 5.1 e dos home theaters, suas peças não soam nem remotamente superadas. O que suas frequências conseguem fazer em apenas dois canais (a partir de uma fita mono, vale dizer), consegue efeitos de espacialidade muito mais formidáveis do que diversas obras multicanal. Mesmo em dois canais, suas frequências ricocheteiam e parecem vir de lugares diferentes, mas, novamente, sem soar como truque. Simplesmente o sobrevoo de tons circulando pelo espaço e transformando nossa percepção temporal em uma singular e magnífica experiência sonora. Transamorem-Transmortem soa tão simples e complexo quanto o próprio mundo. (Ruy Gardnier)

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Quando fico sabendo que algum amigo escutou Animal Collective tomando ácido, supostamente para potencializar a experiência, “ir mais fundo”, meu sentimento é o de simples pesar. Eu, que muitas vezes me recuso até mesmo a assistir aos videoclipes, acredito que para o devido embarque em qualquer tipo de obra musical (seja ela abstrata ou não), é necessário a total sobriedade ou pelo menos, na melhor das hipóteses, a falta de qualquer interferência, seja ela química, visual ou de qualquer outra espécie.

É inegável que Transamorem-Transmortem apenas funciona quando, de fato, existe esse embarque do ouvinte na obra. E esse embarque, que aqui pode adquirir qualidades sinérgicas e hipnóticas requer, além de desprendimento e concentração, uma semelhante sobriedade sobre nossos reflexos. Porque aí sim, sóbrios, vazios e desarmados, quando a navegação encontra seu rumo, é que o ouvinte passa a perceber as pequenas e especiais particularidades de um trabalho como esse, é ai que o ruído vira melodia.

O que no começo soa apenas como uma simples frequência alterada e sempre contínua, com um pulso lento ao fundo, vai aos poucos revelando um trajeto bastante delicado nas variações extremamente sutis que Radigue insere em sua obra. E o mais incrível disso tudo é perceber o quão longe ela consegue ir com tão pouco, denunciando aí a busca por uma certa essência primordial ou, no mínimo, até onde é possível chegar com uma simples fagulha musical.

O trabalho de Radigue, para um desavisado, pode soar imóvel, morto, sem evolução, mas uma vez  que a relação com a obra é estabelecida, a recompensa é intensa e mostra resultados pouco antes concebidos na história da música. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 16 de agosto de 2011 por em eletrônica, eletroacústica, experimental e marcado , .
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