Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Machinedrum – Room(s) (2011; Planet Mu, Reino Unido)

Machinedrum, ou Machine Drum, é o pseudônimo mais prolífico de Travis Stewart, que também possui os projetos Syndrone e Tstewart, além de fazer parte do duo Sepalcure com Praveen Sharma. Sua carreira discográfica começou no início da década 00, com Now You Know (2001) e Urban Biology (2002), ambos pelo selo Merck. Do hip-hop com procedimentos de IDM e glitch do começo da carreira, sua música foi incorporando as influências de UK garage e dubstep. Room(s) é o oitavo álbum do Machinedrum (o terceiro com o nome colado), e seu primeiro lançamento de grande porte pelo selo Planet Mu. (RG)

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As tradições alternam tempos de invenção, tempos de aperfeiçoamento e tempos de misturas. Nas principais tendências do universo pop/rock/eletrônico alternativo a tendência é claramente a última opção, com praticamente nenhuma frente desbravadora capaz de transformar-se em subgênero, de um lado, e muitas fusões sendo operadas entre ritmos contemporâneos entre si e com ritmos de um passado recente (ou nem tão recente). Em termos da “música de graves” produzida no Reino Unido, a cena hoje é uma verdadeira salada em que estão imbricados UKF, dubstep, o garage de tempos atrás, e em menor medida o wonky, quase moribundo, e o juke de Chicago, adaptado a um novo contexto. A hibridação dá as caras através de figuras tão disparates quanto FaltyDL, Floating Points (ambos mais elegantes, flertando com deep house e soul), Addison Groove e Africa Hitech (ambos com mais pressão, utilizando UKF, d’n’b, juke etc.), isso quando não passa por casos de sonoridade mais excêntrica como Blawan, Joe, entre outros.

O Machinedrum vem para tornar a brincadeira mais complexa. Originalmente egresso da mesma seara que o Prefuse 73, na tentativa de adicionar procedimentos do IDM ao vocabulário do hip-hop instrumental e aplicar ao som uma característica de audição caseira (em oposição à música feita para pistas), Travis Stewart reconfigurou seu som nos últimos anos e incorporou à sua música os novos sons da época. Ao contrário do que acontece na maioria das vezes, o resultado não soa oportunista e deslocado; ele soa na verdade extremamente eloquente e mostra um incrível talento para fazer variar fórmulas conhecidas, conseguindo extrair alguma originalidade e um talento refinado para a escolha de timbres e a ciação de linhas melódicas.

Room(s) não tem o menor pudor do ecletismo. O disco começa com “She Died There”, uma faixa com um beat quebradíssimo e graves cheios, jogados para o soturno, com dois loops de voz que colocam a faixa a meio caminho entre Digital Mistykz e Burial. Em seguida, “Now U Know the Deal 4 Real” usa uma batida bem reta, BPM alto e timbres vintage de prato e caixa eletrônicos que remetem ao eletrofunk melódico dos anos 80. “Sacred Frequency” flerta com o ritmo rasteiro e as hipercores do wonky, e “The Statue” alia o poder polirrítmico do juke às progressões de acordes de teclado típicas do house desde o final dos anos 80. A salada, no entanto, é temperada por alguns elementos que dão consistência a Room(s). Um deles, o mais importante, é a imensa habilidade de Travis Stewart em criar ganchos melódicos e utilizá-los com respirações e variações dentro da estrutura, dando um calor de R&B a composições que não bebem tanto daí quanto somos levados a crer num primeiro momento. Outro é o refino no acabamento, que une sonoramente subgêneros distintos e, em outra chave, aproxima o álbum da audição caseira, com detalhes que são melhor perceptíveis em audição atenta (enquanto a quebradeira rítmica e os intensos graves, por sua vez, são melhor percebidos na pista, com som alto). A versatilidade do Machinedrum povoa todas as faixas de Room(s), um disco coeso e sem faixas “enche linguiça”, e pode ser conferida ainda no EP Ecstasy Boom, uma surpresa que Stewart preparou para quem comprou Room(s), com cinco remixes de alguns clássicos eletrônicos (entre eles “New Forms” de Roni Size) indo do juke ao dubstep. Certamente um nome que se faz presente em 2011, que pode não apresentar uma faceta nova da música que estamos acostumados a ouvir, mas faz uso delas com uma habilidade de tirar o chapéu e que tira o melhor proveito possível do impasse de novas formas das últimas safras da eletrônica britânica. (Ruy Gardnier)

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Desde o começo de Room(s) fica claro que o que dita a força do disco é a maneira com que Travis Stewart rege – feito uma explosão de mantras sinfônicos – todos os samples vocais do disco. Depois de flertar com o dubstep no duo Sepalcure, Stewart parece feliz em levar, com bastante vontade e vigor, a influência da música de graves ao seu projeto Machinedrum, seja nas próprias modulações vocais, seja na variação das batidas e nos breaks complexos que se confundem com as vozes.

“She Died There”, a provável faixa mais celebrada do álbum, parte de uma evolução bastante inteligente entre batidas secas até chegar a células vocais que, primeiro abafadas, vão aos poucos ganhando força e se repetem, sucessivamente, criando uma atmosfera de contágio bastante atraente, rápida e de um poder sensorial invejável. Room(s) também tem espaço para a melodia, como nas camadas quase ocultas de um vocal meloso e arrastado de “Sacred Frequency” ou a pegada quase R&B e onírica, ainda que picotada, de “Now U Know The Deal 4 Real”.

No geral o disco soa como mais um capítulo na transição de um artista que vislumbra novos territórios, e visto o vigor com que o Stewart explora essas novas possibilidades, é certo que Room(s) é uma espécie de deslumbre positivo. Utilizando o que de mais instigante existe na cena eletrônica atual, Travis Stewart nos brinda com um álbum forte, extremamente complexo em suas relações vocais e, por que não, bastante promissor. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 16 de agosto de 2011 por em eletrônica e marcado , , , .
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