Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nicolas Jaar – Nico’s Bluewave Edits (2011; Wolf + Lamb, EUA)

Nicolas Jaar é, com o perdão do clichê, lobo em pele de cordeiro. Sua música parece um convite às coletâneas lounge, à audição desatenta. E isso não ocorre por Jaar ter uma abordagem irônica do estilo, mas por um interesse sincero que remonta a influências que estão na raiz dessa música e que foram vilipendiadas nos últimos anos. Como seus predecessores, a música de Jaar também pode incomodar sutilmente, causar estranheza sem se deixar identificar completamente. Seu álbum de estréia, Space Is Only Noise, é uma das gratas surpresas de 2011, um disco que entretém e subverte, assim como este tímido e revelador ep Nico’s Bluewave Edits (que pode ser ouvido no soundcloud). A princípio identificadas como remisturas de temas alheios, temos aqui três apropriação das mais intrigantes. Essas faixas já passeavam pela rede em mp3 liberados pelo selo Wolf + Lamb, junto a tantos outras desse artista bem pródigo com suas criações.

O procedimento é quase uniforme, mas de aplicação particular a cada tema. Redução do pitch, palmas, arranjos de cordas e percussão tão precisos que em nada se assemelham às brutais remixes a que somos submetidos cotidianamente.

O disco começa com a arriscada desaceleração do clássico “Work It” de Missy Elliott, um dos cartões de visita da produtora conhecida pelas inovadoras faixas cheias de vigor e agressividade, quase histéricas. “Work it”, a original, em nada se assemelha ao trabalho de Jaar e felizmente não temos aqui uma daquelas apropriações ridículas, tipo cantores folk cantando R. Kelly só pela blague. Quase como se não houvesse original, Jaar reduz o pitch, transforma os vocais em algo ao mesmo tempo hilário e assustador, além de retirar boa parte dos elementos e transformar a música em uma sedutora ameaça. Jaar ainda insere elementos sem dar muito destaque a nenhum deles, que ficam ali flutuando e dialogando com a base. Se o resultado não é melhor que o original de Elliott e Timbaland é simplesmente por que isso é impossível e o triunfo de Jaar está em justamente tomar para si uma faixa irretocável e torná-la sua, mudando seu sentido, sem soar ridículo ou apelativo.

Para meus ouvidos, a brincadeira com “Hey Boy” do The Blow só melhora e torna mais interessante o que existia como promessa no original, mas que mantém o espírito, uma faixa pop, leve e grudenta.

Mas o grande atrativo do ep ficou por último. A maravilha que é a edição de “There’s Nothing I Can Do” de Mike & The Censations deveria fazer Moby morrer de vergonha de seu vampirismo com samples de soul e R&B. A faixa é cortada e remontada, o pitch parece minimamente alterado, mas a maior riqueza ficou para a percussão, as batidas constroem uma outra narrativa para a canção, chocando-se com os vocais, sugerindo novas possibilidades.

Nico’s Bluewave Edits pode não ser um grande EP e nem fazer frente a Space Is Only Noise, mas é evidência do enorme talento do chileno e aguça a expectativa por seus próximos lançamentos. (Marcus Martins)

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Publicado às 18 de agosto de 2011 por em eletrônica e marcado , , .
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