Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Specials – “Ghost Town” (1981; Two Tone, Reino Unido)

É impossível assistir aos atuais acontecimentos na capital britânica e não relacioná-los aos motins semelhantes que lá ocorreram há, aproximadamente, 30 anos, no governo de Margaret Thatcher. Foi desse contexto que nasceu “Ghost Town”, faixa-título de um EP, que seria o último com a formação original do The Specials. A letra fala sobre uma cidade que está se tornando fantasma, cujos “clubes noturnos estão fechando” e cujas “bandas não se apresentam mais” porque há “muitas brigas na plateia”. Espelho de uma época? Sabe-se que a canção foi single e, por três semanas, esteve no primeiro lugar das paradas pop inglesas. Nesse período, explodiram rebeliões em diversas cidades do Reino Unido, as quais eram comuns à época, mas não permanentes, tanto que data de 1979 a música “Guns of Brixton”, do The Clash, inspirada em fatos análogos. Sociedade influenciando a música ou o seu oposto? Este ano multidões foram às ruas do Egito e entoaram as melodias do rapper tunisiano El Général. Mas será a Inglaterra e serão seus músicos capazes ainda dessa interrelação, de criações artísticas engajadas ao nível de “Ghost Town” ou “Guns of Brixton”?

Alguns trechos de “Ghost Town” são incrivelmente atuais, como “Why must the youth fight against themselves?/Government leaving the youth on the shelf” ou “No job to be found in this country/Can’t go on anymore/The people get angry”. Pois é precisamente este o diagnóstico atual da situação política, social e étnica em Londres. Os Specials, que eram um bom exemplo para a cena musical e a sociedade europeia, por sua formação multirracial, estavam à beira de um colapso; não era apenas a “cidade” que estava acabando e se tornando um ambiente inabitado: a própria banda já vislumbrava sua extinção. É tudo isso o que representa “Ghost Town”, faixa gravada em oito canais, para uma banda acostumada a fazer tudo “ao vivo”: canção profética e analítica; reflexiva e descritiva; econômica na bateria, porém extensiva em seu solo de trombone; fantasmagórica e soturna na melodia do sintetizador, mas vibrante e jovial no refrão ironicamente nostálgico; cinzenta nas visões distópicas de suas letras, no entanto extremamente colorida em seus timbres. “Ghost Town” é a própria contradição; é o motim contido em si mesmo. (Thiago Filardi)

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Publicado às 19 de agosto de 2011 por em Ska e marcado , .
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