Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Marcos Valle – Estática (2010; Far Out, Reino Unido [Brasil])

Nascido no Rio de Janeiro, em 1943, Marcos Valle é cantor, compositor, arranjador, violonista, pianista, produtor e músico de formação clássica. Inicialmente associado ao movimento bossanovista, já demonstrava personalidade nos arranjos, harmonias e composições dos primeiros LP’s, Samba ‘Demais’ (1963) e O Compositor e o Cantor (1965), que continha o grande sucesso mundial, “Samba de Verão”. Solidificou sua carreira com os álbuns Mustang Côr de Sangue (1969), Garra (1971) e Previsão do Tempo (1973), que se faziam notar pelas críticas sociais e a mistura original de ritmos nacionais e estrangeiros. Viveu períodos longos de ostracismo, até ser redescoberto por DJ’s ingleses, nos anos 90, com a música “Mentira”, posteriormente sampleada pelo Planet Hemp. Estática foi lançado em 2010 pelo selo britânico Far Out e, no Brasil, este ano, pela EMI, responsável também pela recém-lançada caixa, Valle Tudo, que cobre toda sua discografia na Odeon de 1963 a 1974. (TF)

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“Quando chego pra ver a coisa já ficou feia / Corro pra receber a bola tá na ladeira / Só quem paga pra ver é quem recebe a primeira / De onde vem a nobreza dessa terra estrangeira / Que passou na TV daquela gente maneira / Mas na hora de ver a condição verdadeira”. É com essa letra um tanto enigmática que começa “Vamos Sambar”, a faixa inicial e carro-chefe de Estática, o primeiro álbum solo de inéditas de Marcos Valle em sete anos. A música tem uma harmonia cheia de tensões e é acompanhada por arranjos de sopros e cordas, bateria em marcha e intervenções percussivas. A composição é do próprio Valle junto com Marcelo Camelo, seu mais novo parceiro, que também co-assina mais duas faixas do disco. E esta é, sem dúvida, a música mais ousada e arrojada de Valle em muitos anos. O piano, em especial, que conduz a música e anuncia o clima intrigante e tenso da letra, tem um timbre gravíssimo e suas trocas de baixo ditam todo o ritmo e a atmosfera da canção. Quando entra o estribilho, com uma resolução fácil tanto da letra quanto da harmonia e melodia, pensamos que está tudo perdido. É nessa hora que recordamos das letras irônicas de Valle nos anos 70 que, a princípio, pareciam alienadas, como “Flamengo Até Morrer”, e percebemos que o refrão de “Vamos Sambar” não passa de uma ironia deslavada.

Estática é também, dos discos recentes, o mais bem acabado em composição e arranjos, e o que retoma a sonoridade perdida – e idolatrada por muitos – de Previsão do Tempo. O baião, o samba, a bossa e o maracatu – elementos que, desde o fim da década de 60, passaram a fazer parte de sua gramática –, estão todos presentes aqui. A arrebatadora “Prefixo”, uma quase releitura de “Democústico”, do álbum Vento Sul (1972), é outro destaque absoluto, com sua levada de baião em clima jazzístico à la Valle. A tocante “Baião Maracatú” é também uma das mais belas, com sua mistura já explícita no título e sua melodia riquíssima. Porém, novamente, encontramos outra contradição criativa de música/letra, com os seguintes versos: “A primeira vez que eu olhei pra tu / Vi seu coração se encher de sol / E agora um sol de maracatu / Pisa na fulô do meio baião”. A pobreza na rima de “tu e maracatu” chega a lembrar os risíveis “oração e coração” e “pensa e dispensa” da tal Banda Mais Bonita da Cidade. E em “Baião Maracatú” não há a assinatura de Camelo, o que demonstra que sua presença não mudou tanta coisa assim, como prometia a faixa de abertura. Aliás, se sua contribuição foi positiva na anterior, em “Esphera”, é negativa, já que esta é o ponto mais baixo do disco, embora sua guitarra dê aquele tom de “atualização musical” possivelmente requisitada por Valle.

Mas Estática, como novamente deixa claro o título, é tudo, menos atualizado. A começar pela capa, com a imagem de Marcos Valle com seus longos e ondulados cabelos louros de surfista, visual que cultiva desde os anos 70 e se cristalizou nos anos 80. Depois, se houve a tentativa de se atualizar com Camelo e com os convidados do disco ao vivo Conecta: Ao Vivo no Cinemathèque (2008), essas participações não tiveram grande efeito no resultado final, pois sua sonoridade permanece única e imutável. Talvez o contato com Kassin e sua trupe tenha apenas o levado a reaver sonoridades antigas, especialmente o som de sintetizador do Azymuth, que marcou o LP Previsão do Tempo. E não poderíamos dizer o mesmo do Rhodes, já que Valle, amante eterno do instrumento, nunca o abandonou. Este, aliás, foi bastante utilizado em seus discos mais recentes, com destaque para Jet-Samba (2005), ao qual Estática também parece remeter frequentemente, tanto pela presença forte do jazz quanto pela quantidade de temas instrumentais.

E são os próprios temas instrumentais que comprovam a imutabilidade musical de Estática. Valle compôs três, que começam a aparecer como pequenas vinhetas, a partir da segunda metade do álbum: “1995”, “1985” e “1975”. “1995” chega a ser naïve em sua concepção de sonoridade noventista, porém não menos interessante. “1985” e “1975”, que fazem uso de sintetizadores e piano Rhodes, lembram igualmente sua estética setentista e parecem faixas tiradas de Previsão do Tempo. Perguntamo-nos somente onde estaria “2005”, já que seguindo a lógica temporal e matemática dos títulos anteriores, haveria de ter esta também. Mas é exatamente na ausência de “2005” que o “mistério” de Estática se desvenda. Marcos Valle simplesmente não sabe definir a sonoridade dos anos 2000. Basta ouvir todos os seus discos da década anterior (Escape, Contrasts e Jet-Samba, de 2005, inclusive) para comprovar que são calcados em sonoridades setentistas, sessentistas, quiçá oitentistas, e com alguns elementos musicais característicos dos anos 90.

São por esses motivos, ainda que contraditórios, que Estática é um álbum belíssimo e até corajoso. Porque em meio a uma música brasileira na qual todos tentam inovar em letras e arranjos, mas soam totalmente estéreis e retrógados, Marcos Valle não teme apostar na sonoridade que o tornou notável e um dos artistas mais interessantes e inovadores do período pós-bossa nova. Porque em suas melodias e harmonias há qualidades que faltam à maioria dos músicos brasileiros contemporâneos: consistência e sabedoria. Porque se o desejo é fazer canções e não deixar que esta morra, como vem sido discutido há algum tempo, que se faça com know-how e criatividade; que se crie uma tensão harmônica maravilhosa e arrepiante como a de “Vamos Sambar”; que se façam músicas cativantes como “Arranca Toco” e “Novo Acorde”; que se saiba misturar com requinte e maestria gêneros tão brasileiros como o baião e o maracatu ao samba, ao jazz e à canção popular; que não se tenha a vergonha de criar rimas quase infantis, contanto que a melodia seja bem-feita; que se tenha a audácia de intitular um álbum de Estática e se mantenha os mesmos cachos longos e louros de um velho surfista que quer apenas voar. (Thiago Filardi)

Ouça aqui “Vamos Sambar”.

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“Vamos Sambar” é uma música fora de série. Uma melodia-gancho efetiva, arranjos opulentos porém certeiros, desenvolvimento inteligente que faz cada parte crescer em relação ao todo da faixa (além da ironia do refrão alegrinho em contraposição às tensões da estrofe, que inserem o “vamos sambar” no mesmo campo semântico do “acabar em pizza”, mesmo que se goste de pizza e de samba). Mas quando estamos preparados para entrar na dança, Estática hesita em continuar no mesmo pique de talento, e vemos um Marcos Valle que parece ter gastado toda sua energia e feito apenas uma faixa 100%, nos deixando em seguida apenas com restos de seu inquestionável brilho. É incrível a quantidade de melodias-gancho boas ou excelentes sem desenvolvimentos decentes que as façam crescer e transformarem-se em grandes canções. Ao contrário, o que mais se vê nesse novo disco são faixas mornas com boas ideias mal-aproveitadas, arranjos cheios de cor sem drama interno da composição, ou timbres curiosos jogados às moscas de um suingue gratuito. Em momentos, aparece um grande músico; em outros, um artista que se contenta em fazer musiquinha-Manoel Carlos. Em todo caso, vale louvar o fato de Marcos Valle ter feito um disco que, malgrado suas insuficiências, foge da zona da conforto habitual e evita a sobrevida artística em nome de algo mais ambicioso, ainda que não inteiramente realizado. O instrumentista, o arranjador e o melodista voltaram com tudo em Estática  – a pena é que o compositor, o cantor e o letrista não acompanharam. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Marcos Valle – Estática (2010; Far Out, Reino Unido [Brasil])

  1. Lu Oliveira
    25 de março de 2013

    Oi,
    Bem legal a postagem!
    Bom blog.
    Abraço,
    Lu Oliveira
    http://www.loliveiraoficial.com.br

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Publicado às 23 de agosto de 2011 por em baião, bossa nova, Instrumental, maracatu, MPB, pop, samba e marcado , , , , , .
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