Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cannibal Ox – “Raspberry Fields” (2001; Definitive Jux, EUA)

Justiça seja feita, The Cold Vein é, definitivamente, um dos discos seminais dá década passada, e, com toda a certeza, da história do hip-hop. Uma obra à frente de seu tempo? Nada que justifique o fato do álbum, ainda hoje, ser ignorado por tanta gente. Se o hip-hop atualmente anda tão “indie”, The Cold Vein definitivamente teve sua culpa, ainda que – e aí reside a grande particularidade desse trabalho – o disco saiba aliar muito bem novas possibilidades (beats futuristas, samples complexos e até inusitados) a uma sonoridade às vezes crua e de um clima um tanto old school, em especial nos vocais agressivos de Vast Aire e Vordul Mega. Seguindo essa lógica, “Raspberry Fields” é uma espécie de feliz paradoxo. Ao mesmo tempo em que a música se utiliza de samples de Laurie Anderson (divinamente usado) e Brian Eno, a faixa tem aquele clima de freestyle urbano tão comum ao rap tradicional. “Raspberry Fields” consegue refletir o conceito principal não só do disco do Cannibal Ox mas, querendo ou não, de todo um certo hip-hop contemporâneo que se gaba de referências modernas e rebuscadas e ainda tenta se manter, de alguma maneira, puro. Vale lembrar o papel indispensável do produtor El-P nas escolhas arriscadas que álbum faz, especialmente no que diz respeito a essa diversidade sonora e seus beats quase vanguardistas, o próprio El-P já afirmou algumas vezes que Cold Vein é um dos seus mais promissores trabalhos.

É curioso como a faixa denuncia certas questões autorais do duo, com reflexões metalinguísticas – “The sample’s the flesh and the beat’s the skeleton / You got beef but there’s worms in your Wellington” – que alertam para uma preocupação quase orgânica na utilização de elementos poéticos ainda inéditos para o gênero e, claro, a introdução dramática de Aire – “If first you don’t succeed try, try again / Step up to the mic and die again” – e a pouca modéstia nas palavras finais de Vordul: “Architect when I write these poems, write these poems, write these poems”. Fato, as letras aliadas a uma construção precisa, nessa engenharia sonora que são as bases de Cold Vein (e em especial dessa faixa), faz do duo mais do que um grupo de hip-hop, mas quase profetas de uma geração que estaria por vir. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “Raspberry Fields”.

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Publicado às 25 de agosto de 2011 por em hip-hop e marcado , .
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