Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Fennesz – Seven Stars (2011; Touch, Reino Unido [Áustria])

“Liminal” precisa de apenas dois segundos para emitir a primeira nota cheia, carregada de emoção. É a primeira faixa de Seven Stars, EP recente de Fennesz e seu primeiro lançamento solo com material novo desde o magnífico Black Sea, em 2008. “Liminal” faz as honras da casa com um clima caloroso e envolvente, com sobretons de melancolia. Mas uma melancolia positiva, como a que bate no crepúsculo de um dia perfeito. Chiados, violão dedilhado, synths e efeitos se amalgamam para criar uma faixa ao mesmo tempo expansiva e direta, mas também nublada,cheia de camadas sonoras carregadas que remetem vez ou outra ao shoegaze do My Bloody Valentine ou do Slowdive. Em todo caso, é adesão imediata, e possivelmente a faixa mais acessível e passível de servir de introdução ao universo fennesziano de todo seu catálogo solo.

Depois, como se fosse para mostrar que sabe ganhar em ambos os fronts, Christian Fennesz nos mostra “July”, uma faixa glacial, com sons em profundidade que parecem field recordings (mas, tomando pelos créditos, não são) e uma minuciosa precisão timbrística para criar pequenos “incidentes sonoros” no seio de um fundo sonoro que evoca um local cavernoso, inóspito e potencialmente ameaçador. Tudo o que na primeira soa intuitivo e emocional, aqui soa cerebral e estudado, como a evidenciar frontalmente os dois pólos em que opera a música de Fennesz. “Shift” vira o lado do EP (um 10”) mas se mantém na mesma pegada, com drones de profundidade espacial e tons agudos celestiais que ora evocam um órgão de igreja ressonando, ora lembram sinos tilintando e mantendo sempre a mesma frequência. Como na capa do disco, a luz e o escuro são complementares, não uma oposição, mas um co-pertencimento no mesmo espaço.

“Seven Stars” fecha o EP retornando à atmosfera mais amigável e calorosa de “Liminal”, agora com o auxílio — inédito até então em sua carreira discográfica, note-se — de uma bateria, cortesia de Steven Hess (parceiro de Greg Davis e Sylvain Chauveau), marcando discretamente o tempo e criando coloração rítmica enquanto acordes enternecidos são passados em meio ao violão dedilhado e ruídos muito delicados dão relevo ao conjunto. Mas, apesar da novidade da bateria, o som de Fennesz em “Seven Stars” permanece bastante característico e sem grandes sobressaltos ou novas facetas. Como aliás em todo Seven Stars: um grande mestre que é dono de seu território, um território ainda com muito espaço a ser trabalhado e que ainda promete nos entusiasmar muito, soltando quatro peças (cinco contando com o bônus digital “Reshift”) que não renovam sua carreira mas servem para nos lembrar por que ele permanece merecendo o panteão do glitch/drone sentimental. Cada vez mais sentimental. (Ruy Gardnier)

Ouça aqui “Liminal”, que abre o 10” Seven Stars.

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Publicado às 26 de agosto de 2011 por em eletrônica, experimental e marcado , , , , .
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