Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Bon Iver – Bon Iver (2011; Jagjaguwar, EUA)

Bon Iver é uma banda norte-americana de folk fundada e liderada por Justin Vernon. Além de Vernon, a banda inclui Michael Noyce, Sean Carey e Matthew McCaughan. Em 2007, o Bon Iver lançou seu disco de estreia, For Emma, Forever Ago, inicialmente lançado de maneira independente, e em seguida com um lançamento mais amplo pelo selo Jagjaguwar. Em 2011, também pela Jagjaguwar nos EUA (e pela 4D na Europa), a banda lançou o homônimo Bon Iver, que ficou em segundo lugar dos mais vendidos no Top 200 da Bilbord em sua semana de estreia. Em seus dois discos, o Bon Iver parece mesclar um folk tradicional com alguns experimentos acústicos, além de sobreposições vocais e letras de um forte escopo emocional. (AT)

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A recente trajetória musical de Justin Vernon é bastante irônica. Entre 2006 e 2007, Vernon se isolou em uma cabana no Wisconsin para gravar o álbum de estreia do Bon Iver, For Emma, Forever Ago. O disco saiu em 2007 e foi bastante aclamado. No ano passado, com o lançamento do grandioso My Beautiful Dark Twisted Fantasy, Kanye West se apropriou de um sample do Bon Iver na faixa “Lost in the World” (mais especificamente da música “Woods”, na qual Vernon se utiliza de um auto-tune bem curioso em meio a suas sobreposições vocais). Assim, uma das mais introspectivas faixas de For Emma, Forever Ago, nas mãos sempre maliciosas de Kanye West, se transformou em um espécie de celebração urbana, crescente e cheia de vigor. A carga intimista de Vernon foi por água abaixo? Não exatamente: a ressignificação de Kanye, além de potencializar seu próprio trabalho (especialmente na incrível progressão da música), colocou o nome Bon Iver em certa evidência, junto às outras celebridades que participaram de My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Coisa que, se para alguns pode ir contra toda uma certa identidade musical de For Emma, Forever Ago, para outros – e aqui eu me incluo – enriquece o universo da música como nunca. Bom saber que Vernon, supostamente, partilha desse último pensamento.

Bon Iver, o disco, engana em sua discrição. O que no começo de algumas faixas pode soar como uma ambientação serena e calma, vai pouco a pouco ganhando elementos novos e até arriscados. Ainda que o risco aqui seja limitado e até um pouco controlado, visto a estrutura quase matemática com que o grupo pincela a inserção desses elementos em doses homeopáticas e até um pouco didáticas, indo de violinos, pianos e instrumentos de sopros a um bastante particular uso de percussões, sonorização acústica e mesmo elementos eletrônicos. Toda essa cadência minimalista em algum sentido soa até angustiante (especialmente na primeira metade do álbum, quando as músicas ainda são um pouco contidas), mas depois fica claro que o quarteto começa a se soltar mais, chegando ao seu ápice explícito em “Beth/Rest”, uma espécie de ode ao romantismo musical da década de 80, com direito a um teclado brega, um vocal arrastado, sintetizadores que vão dando o tom e aquela guitarra chatinha mas gostosa ao fundo. E uma vez que a audição do álbum termina, se formos parar pra pensar, Bon Iver é uma espécie de disco pop travestido de folk conceitual. É curioso como algumas canções como “Holocene” e “Perth” começam enigmáticas e até um pouco cruas, para que no final, todo o andamento sonoro tenha se transformado em um ritmo bem reconhecível, agradável e até grandioso, comum a muitos ouvidos. Ainda que a questão vocal continue sendo um dos grandes diferenciais da banda, na própria “Holocene” ou mais especificamente em “Calgary”, é fácil perceber como Vernon consegue direcionar todo o senso emocional do disco, a entrada dos instrumentos etc., com o poder e o controle de sua voz. Parece que o que move o Bon Iver é o de sempre, porém o combustível anda se alterando.

Talvez Vernon, depois de todo aquele tempo na floresta, tenha se aberto musicalmente, e agora não faz concessões ao explorar um imaginário musical bastante vasto, ainda que faça um uso extremamente específico e cuidadoso daquilo tudo com que se depara. Depois dessa conclusão, não é assim tão absurdo o fato do disco ter sido um sucesso tão grande de público. A possibilidade para a identificação com o ouvinte é ampla. Desde a balada fácil de “Towers”, perfeita para embalar uma matinê romântica entre adolescentes delicados, até a complexa “Michicant”, que remete a lembranças sonoras e usa elementos musicais inusitados para criar possibilidades que vão além do folk ou da música tradicional. Ou seja, Vernon faz um disco tanto para você, um ser complexo (talvez tão atormentado quanto ele), que busca um disco bem estruturado e de um apuro sonoro inteligente, quanto para sua irmã, aquela menina de 15 anos que escuta Tiê, se encanta por falsetes, andamentos melancólicos e, sempre, um homem sensível e seu violão. Claro que o repertório do Bon Iver vai além disso, mas é curioso como o disco, apesar dos riscos, mantém um alcance amplo e quase sempre bastante seguro. Ou pelo menos é inteligente o bastante para trazer possibilidades sempre inusitadas para uma zona de conforto que o grupo parece aos poucos ir dominando. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “Holocene”

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Bon Iver, o disco, parece flertar com dois caminhos. Um deles é uma faceta mais folk, com sotaque country na instrumentação, centrada no poder emocional das melodias de violão e voz, essa última frequentemente em falsete enfático. Outro é o pop sofisticado, tendendo ao barroco, de artistas como Grizzly Bear ou Decemberists. Quando ele se envereda com força por um ou por outro, surgem momentos de força e distinção inegáveis – a faixa de abertura,”Perth”, talvez seja o melhor caso, com uma progressão que sempre parece atrasar o clímax e mantém-se sempre tensionada. Quando, no entanto, ele parece tentar encontrar uma média ponderada entre os dois, sobrevém a assustadora ameaça do pop sofisticado ou pop adulto, nos moldes do academicismo soft-radiofônico de Peter Gabriel, Sting ou Steve Winwood nos anos 80. Às vezes, como em “Calgary” ou “Beth/Rest”, é simplesmente pop cafona guiado por camas de teclado retrô que aproximam a música do terreno Bryan Adams ou Paul Young. Apesar de um certo sebo que permeia o álbum inteiro, Bon Iver possui boas ideias e momentos musicais estimulantes, sobretudo em sua primeira metade. Mas nada que valha o esforço de aí se ater por muito tempo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 29 de agosto de 2011 por em folk e marcado , .
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