Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Black Pus – Primordial Pus (2011; Load Records, EUA)


Black Pus é um projeto solo do baterista e vocalista Brian Chippendale, nascido em 1973 em Providence, Rodhe Island nos Estados Unidos. O músico se notabilizou na dupla Lightning Bolt que forma com o baixista Brian Gibson e que existe desde 1996. Chippendale também faz parte da dupla Mindflayer, tendo ainda colaborado com artistas como Björk e Lee ‘Scratch’ Perry. O Black Pus foi fundado em 2005, sendo que Primordial Pus, seu quinto álbum, é o primeiro lançado de forma não-independente pelo selo Load. (M.M.)

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Ao menos na música, 2011 vem sendo um ano careta. Alguns ótimos discos foram lançados, mas é quase tudo muito classicista, sisudo e quase engessado. São fórmulas aperfeiçoadas, artistas mais que consagrados exercitando seu talento para deleite dos fãs. Isso é bom, mas isso também deixa aquela sensação rançosa de classic rock… Quase não há risco.

Claro que tivemos exceções como os discos do Æthenor, Anne-James Chaton, Ekoplekz, Xiphiidae, Richard Youngs ou Bill Orcutt; artistas que ainda procuram desestabilizar o jogo, mas em quase todo os outros casos, tivemos excelentes discos que não fazem muito esforço em sair de uma zona de segurança.

Aí entra Brian Chippendale, um dos maiores bateristas contemporâneos, com seu projeto solo Black Pus. Justamente quando o Lightining Bolt parece perder um pouco do vigor, ele volta unindo elementos do ruído mais extremo, do improviso, da distorção e agora também uma maior aproximação com os padrões da canção. Não é o caso das faixas possuírem um estrutura fechada, mas em vários momentos elas parecem citar a canção que poderia estar ali.

E esta é a forma mais fácil de enfrentar o turbilhão que é Primordial Pus, uma coleção de oito violentas canções que foram implodidas e o resultado são os escombros instáveis que ouvimos. Nesse disco ele conseguiu unir os estímulos auriculares mais agressivos a um formato que lembra vagamente as canções, que parecem compostas e depois improvisadas. Quando ele parece enveredar pelo tribal mais tradicional em “The Wicked West”, a guitarra entra para deixar claro que a única tribo possível seria de uma gangue de motosserras. Aqui não existe espaço para joguinhos psicodélicos-percussivos fáceis. Poucas vezes um elemento ganha maior proeminência que o restante, e a própria e inconfundível bateria, que poderia obliterar todo o resto, deixa bastante espaço para todo tipo de loop, distorção e derrisão.

A grande cartada em Primordial Pus é que, apesar da mistura uniforme, cada um dos elementos consegue ser ouvido e Chippendale brilha como banda-de-um-homem-só, fazendo inveja ao Lightning Bolt como seu projeto principal.

Neste disco o Black Pus parece ter atingido seu ápice sem perder uma fagulha de sua vibração e agressividade. Mesmo nos momentos mais brandos, a música é inquietante. O disco funciona como uma versão seca e reduzida dos delírios de um Boredoms. Aliás, desde que a banda de Yamatsuka Eye resolveu enveredar por sons mais nova-erísticos, ficamos órfãos daquele som sem semelhantes dos primeiros discos do Boredoms. Aí poderia entrar o Black Pus: a estrutura das bandas é muito diferente, pois onde uma é oceânica a outra é entrópica, onde uma é colorida e caleidoscópica, a outra é sombria e cinzenta, mas existe um espírito em comum, uma apreciação da violência como mantra, do massacre como liberação – o uso do improviso aliado à composição como método de expansão. É o improviso sem abandonar o ritmo, a estrutura nunca se dissolve como em En Form for Bla ou outros discos mais essencialmente improvisados.

Outro trunfo é que diferentemente de toda bandinha que que usa um arremedo de motorik como base de suas faixas, Primordial Pus consegue emanar a mesma energia daqueles experimentadores sem limitar sua palheta sonora. Se existe uma possibilidade contemporânea e não anacrônica em ser kraut, Chippendale tem a resposta.

A atenção ao efeito também é memorável. Não lembro de outro disco em que o microfone parece ter sido posicionado embaixo da bateria e ainda assim tudo consegue ser ouvido. O cliché aqui é ostensivo, e a cada nova audição algo novo se revela. Ouçam os vocais: ele grita, berra, canta, se esgoela, e o efeito é ainda mais terrível porque ele parece soterrado por uma estrutura sendo destruída. Nada é totalmente distinto, mas ainda assim não se apela aos pastiches dos gritinhos guturais: cada vocal é tão cuidadoso quanto a forma imprevisível como ele esmurra a bateria.

Ao que consta, as faixas são gravadas em tempo real na maior parte das vezes – alguns elementos devem ter sido adicionados depois – com Chippendale sozinho manipulando bateria, percussão, teclados, apitos, cantando e distorcendo tudo com uma perícia que não pode ser subestimada pelo negrume que daí resulta. E não deixo de mencionar como impressiona o modo como ele muda o tempo e o andamento durante as faixas com uma facilidade ridícula? Em alguns momentos tudo soa como uma marcha infernal, em outros a queda é tão vertiginosa que é fácil deixar de perceber o esforço de criação ali empreendido.

A maior surpresa do disco parece vir da última faixa. Se falei no modo como o disco sempre flerta com as formas da canção, “I’ll Come When I Can” é a faixa pop do Black Pus, e é tão impossível quanto bem sucedida. Sobre um improviso livre de bateria e um cântico/mantra, ele canta de maneira sem precedentes. Pela primeira vez lembro de ouvir sua voz em vocais convencionais, até o momento em que a faixa se reduz e por fim desaparece em distorções do cântico, algo que não parece humano ou mecânico. E justamente o mais curioso disso é que os vocais da faixa ressaltam ainda mais o quão alienígena foi o canto em todo o álbum, e aqui o tom se afasta daquele do doom para se aproximar ainda mais dos alemães dos anos 70.

A produção parece variar do no-fi ao dub sem ficar presa a qualquer escola, e se o disco é bem sucedido ou falha, é tudo devido à sensibilidade de Chippendale que não parece impor muitos limites a seus caprichos.

Primordial Pus é dos discos mais radicais e recompensadores de 2011. Brian Chippendale parece ter atingido aquela maestria de quem pode levar sua música a qualquer lugar com a consciência bem clara de onde ele quer ir. No caso de Primordial Pus ele já levou sua obra aos melhores do ano. (Marcus Martins)

Ouça “Hole In The Ground” e “Favorite Blanket, Favorite Curse” .

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Publicado às 7 de setembro de 2011 por em experimental, heavy metal, improv, noise, rock, vanguarda e marcado , .
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