Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Caetano Veloso – “Irene” (1969; Philips, Brasil)

Por esses dias lembrei bastante do disco de Caetano Veloso de 1969. Não que seja necessário qualquer motivo para lembrar e ouvir um disco tão superlativo. Mas a lembrança mais específica se deu por causa da primeira faixa “Irene” e o burburinho causado pelo furação não tão furioso que levou o mesmo nome. Depois disso o disco continuou povoando meus pensamentos ao ler recentemente algumas loas a jovens nomes da música brasileira em mais um capítulo da máquina de fazer notícia cheias de vento da imprensa cultural e a insipidez da música, cheia de maneirismos, macaquismos e a eterna desculpa de ser acessível e o pior “falar com o público”. É de reconhecer que discos como Transa e principalmente Araçá Azul são obras de uma ousadia que afasta muitos,mas quando pensamos em um disco tão genial e popular quanto este disco de 1969, o caso é pensar na triste MPB, ó quão desimportante…

Ao contrário do furacão, que muito foi alardeado e apesar de ter feito muito estrago, deixou a sensação de frustração naqueles tarados pelos desastres e que parecem se alimentar do noticiário, mesmo que na versão mundo-cão, para dirimir o tédio cotidiano. O efeito de Irene é oposto, uma música serena, alegre e quase descompromissada. A letra é das mais singelas da carreira de Caetano, a conversa do violão de Gil e a guitarra de Lanny Gordin com o baixo de Sérgio Barroso e a levíssima bateria de Wilson das Neves dá o tom – lírico sem grandes voos, controlado mas rico. Nem mesmo parece um disco que teve direção musical e arranjos do Duprat que mesmo ano ajudou a forjar o delírio e a fantasia de Tropicália.

Curioso é que tanto a parte de Caetano quanto a de Gil teriam sido gravadas em Salvador e posteriormente enviadas a Duprat, que arranjou e inseriu a parte dos outros instrumentistas. Nada parece plantado, os músicos parecem estar no mesmo estúdio. Um outro tapa nos puristas

Mas como o melhor de Caetano daquela época, a leitura não são tão simples, ou pelo menos não é única. “Irene” foi composta enquanto Caetano esteve preso, em homenagem a sua irmã caçula e no mesmo ponto em que revela saudade e o evidente desejo de liberdade, de voar da prisão com a leveza do arranjo, a música esconde seu ideal subversivo e irresignado, uma suposta homenagem à metralhadora de Che Guevara e o ideal de uma revolução socialista, que seria libertária de mesma forma. A leitura nunca parece ter sido reconhecida por Caetano, que mantém apenas a versão de que a canção remete a sua irmã e à sua capacidade de desanuviar seus pensamentos na prisão com a lembrança de rua risada juvenil.

Mas o importante não é o caráter especulativo da leitura, mas a capacidade de uma música tão simples esconder universos. O descuido de Caetano no início da música parece tão natural, tudo é retomado como se apenas se voltasse a um fluxo natural. O palíndromo do verso “Irene ri, Irene ri, Irene” é acidental segundo o próprio autor e teria sido ressaltado por Augusto de Campos. Como todo o disco, tudo evoca movimento, fluidez e acidente, as músicas pareciam já estar ali, fazer parte do mesmo cancioneiro de “Marinheiro Só”. Irene não só funciona como entrada para o Álbum branco de Caetano e para as investigações mais complexas que virão ao longo do disco. É um dos mais lúcidos e cintilantes jogo de luzes da música das últimas décadas. É a risada juvenil que nos faz falta. (Marcus Martins)

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2 comentários em “Caetano Veloso – “Irene” (1969; Philips, Brasil)

  1. Cristiane Lima
    10 de setembro de 2011

    Engraçado. Estava em Nova York durante a passagem do IRENE, e disse aos meus amigos que havia me inspirado e criado uma letra para o furacão.. então cantei Irene de Caetano. As pessoas com menos de 42 anos não conheciam a letra e acharam que eu a tivesse composto. Quem riu fui eu desse inesperado desconhecimento e achei que fosse a única a remeter minhas memórias à Irene de Caetano. O furacão que virou tempestade passou, já foi esquecido, mas a música não sai da minha cabeça. E a necessidade de mais informações de uma letra simples, mas ao mesmo tempo muito tocante me fizeram chegar a esse site. Adorei seus comentários e poderia assinar embaixo, de tão íntimo e similar aos meus sentimentos.

  2. Marciane Faes
    30 de novembro de 2014

    Na década de 90, quando trabalhei com educação musical no ensino regular, trabalhar com a música Irene mexia com os estudantes, pelo fato de que o nome de cada um deles também poderia ser chamado a “dar sua risada”.

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Publicado às 7 de setembro de 2011 por em Baú da Camarilha, MPB, psicodelia, vanguarda e marcado , .
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