Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aphex Twin – “To Cure a Weakling Child” (1996; Warp, Reino Unido)

Que música poderia resumir o gênio musical de Aphex Twin? A questão é, de cara, insolúvel. Alguns artistas se consagram com obras específicas porque elas conseguem chegar à excelência num certo traço de expressão, ou traços (contanto que sejam conjugáveis), que são marcantes em seus trabalhos. Com Richard D. James e seu Aphex Twin (ou os múltiplos projetos, AFX, Caustic Window e The Tuss os mais famosos), o problema é sem resolução porque, como Frank Zappa, sua obra é extremamente diversificada e toca polos contrastantes da experiência sonora. Como uma faixa poderia resumir simultaneamente seus ambient works e suas frenéticas faixas espanta-criancinha, como “Come To Daddy” e “Windowlicker”, ou suas dóceis melodias (“Flim” ou mesmo “Jynweythek Ylow”) ao mesmo tempo que o furor acid dos EPs Analogue Bubblebath ou da série Analord? A questão, portanto, não pode ser respondida inteira, mas podemos nos contentar com respondê-la pela metade. “To Cure a Weakling Child” capta perfeitamente ao menos duas facetas fundamentais da obra de RDJ, as melodias singelas e infantis de um lado, e do outro a explosão de breakbeat descontrolado a que deram a alcunha de drill’n’bass. No caso em questão, a composição trata de fazer um tête-à-tête desses dois estados de inspiração para confrontá-los e, surpreendentemente, fazer cada lado sair favorecido.

A faixa começa por uma voz de criança sintetizada cantando enquanto alguns esguichos percussivos e frequências estridentes breves ameaçam desde o começo tirar a sensação de inocência inicial. No final do primeiro minuto “To Cure…” encontra seu equilíbrio mais perfeito, com uma linha melódica suave e infantil e a programação bateria estabelecendo um breakbeat instável porém tranquilamente assimilável dentro do senso rítmico da faixa. Mas na altura dos dois minutos o caldo entorna de modo malicioso e a percussão sofre um ataque fenomenal de insanidade, até que lá pelo meio a faixa reencontra seu equilíbrio original e propõe algumas variações de seu equilíbrio original.

Obviamente a marca mais genial da faixa é o modo como as mudanças bruscas são trabalhadas e a melodia doce funciona ao mesmo tempo dos ritmos frenéticos que variam a cada compasso em equilíbrios, timbres e divisões dentro do tempo. O drill’n’bass caiu rapidamente na insignificância quando o breakbeat (e complexificá-lo à exaustão) transformou-se num fim em si, mas Richard D. James já sabia que a questão não era levar o breakbeat ao limite do inaudível, e sim fazê-lo reconfigurar as composições entrando em contato com andamentos mais estáveis, provocando deliciosas polirritmias e misturando afabilidade com desafio. “To Cure a Weakling Child” permanece como um dos marcos de Aphex Twin em seu período breakbeat, anexando também seu poderio de melodista e seu monumental talento para o artesanato, fundindo um inegável senso de construção tradicional com a inserção de ritmos e sonoridades que berram, ou ao menos berravam, “moderno”. Nem parece que faz quinze anos que essa música foi feita… (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Aphex Twin – “To Cure a Weakling Child” (1996; Warp, Reino Unido)

  1. Panama foundation
    18 de setembro de 2011

    Um mano pensou na utilizacao de dois toca-discos repetindo o mesmo trecho que chamamos de breakbeat batida de um vinil.

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Publicado às 8 de setembro de 2011 por em Baú da Camarilha, eletrônica e marcado , , , , .
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