Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Girls – Father, Son, Holy Ghost (2011; True Panther Sounds, EUA)


Girls é uma banda americana formada em 2007 em São Francisco na Califórnia. Seus principais membros são Christopher Owens e Chet “JR” White, sendo Owens o principal encarregado das composições. O primeiro álbum da banda, denominado Album, foi lançado em 2009, tendo sido produzido e gravado quase que completamente pela dupla. Em 13 de setembro de 2011 será lançado o seu segundo álbum, Father, Son, Holy Ghost, que foi gravado com a adição de mais alguns músicos e a co-produção de Doug Boehm .(M.M.)

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Escrever sobre Father, Son, Holy Ghost funciona como reconhecer a antítese do que escrevi sobre o disco do Black Pus. Não há nada de novo ou fundamentalmente original no disco do Girls e talvez mais grave, cada uma das faixas desse disco lembra pelo menos alguma faixa de alguém que já pisou e repisou o mesmo terreno do pop-rock sentimental que domina o disco. Então o que resta para apreciar em um álbum de mais uma banda candidata ao extenso catálogo dos revivalistas?

Resta muito, por que a música do Girls é muito diferente disso. É certo que a originalidade passa longe daqui, mas ainda assim a música é envolvente, vigorosa e grudenta. As faixas são ternas, frágeis, amorosas ou inseguras – são um festim do rock triste. E funcionam.

O Girls toma cada uma de suas influências não como algo a imitar, os modelos funcionam como gatilhos de diversas possibilidades emocionais. Diferentemente do mimetismo de um Fleet Foxes ou da pose afetada e vazia de um Bon Iver, o Girls parece tocar aquilo que é a trilha sonora de suas histórias, são relacionamentos destruídos enquanto se ouvia exatamente aquelas canções.

Voltando à influência como molde, temos uma faixa como “Alex” que tem estrutura decalcada do My Blood Valentine, e a faixa funciona assim mesmo. Fui transportado àquela época, à época em que eu ouvia aquelas músicas e ao universo daquela canção. O disco parece não apenas a sequencia das narrativas de suas letras como banda a cartilha das tolices indies, é também a narrativa de uma sonoridade. Father, Son, Holy Ghost tem a capacidade de usar suas faixas para citar seus predecessores e ainda garantir que cada uma delas seja o exato retrato do que o compositor desejou transmitir. O conjunto das faixas funciona quase como um disco conceitual, só que não precisa de historinha, não precisa ser abandonado pela namorada(mesmo que tenha sido), pois ele é o reflexo da história de suas próprias canções.

Alguns vão reclamar a perda do elemento low-fi do primeiro disco, mas isso não seria possível aqui. A expansão da palheta sonora em nada se relaciona com o aumento da visibilidade da banda. Uma faixa como“Die” não sobreviveria sem o justo polimento que recebeu, sem a explosão do metal que se transforma em quieta psicodelia e uma faixa quase bobinha como “Saying I Love You” não funcionaria tão bem na sequencia se não fosse cristalina, simples e bem composta – um filhote de Paul Simon. Ou crime pop que é “My Ma”. A abertura da faixa parece citar “The Greatest” de Cat Power, ou pelo menos os predecessores de Cat Power e quando poderíamos lamentar o excesso de semelhança, a faixa rapidamente foge por uma rotina à Neil Young que nos pega desprecavidos até culminar em um lindo riff de guitarra seguido por corinhos celestiais. Nada mais é necessário. É daqueles petardos emocionais que lhe pegam de surpresa e ainda deixam aquela sensação de que sempre estiveram ali.

Mas talvez a faixa mais emblemática para estabelecer o padrão do disco seja o seu ponto alto. “Just a Song” serve como manifesto dessa fase da banda e como o ponto em que mais se distancia das arestas mais juvenis de Album. São quase sete minutos que começam hesitantes até estabelecer o padrão por onde a faixa passeará depois de um minuto e meio. De início temos a mesma simplicidade, agora cercada por arranjos de cordas e a constatação de que “nobody’s happy now”, o andamento é lento, a canção é cíclica e em seu ápice se regozija em repetir o verso “love, it’s just a song” como para se convencer disso e manter os pés no chão, como pede a letra. Ou para lhe convencer que música pop é ficção, mesmo que se valha da vida do compositor. Aceite.

Em uma época em que ser indie passou a ser tão anacrônico quanto, digamos, fazer bebop, rockabilly ou hair-metal em 2011, esta pode ser uma das poucas formas do “gênero” fazer sentido — como cápsula sonora de um momento. Pois nunca foi gênero ou estilo e a referência apenas sobrevive como estratégia comercial, preciosismo, ou esnobismo. O Girls também parece evoluir para um tipo de sonoridade que o Spiritualized apontou em suas canções mais quietas, o mesmo tom simples e confessional que Pierce gostava em suas baladas.

Ou seja, uma paisagem emocional é pintada no cenário que são as referências musicais dos compositores e também as canções que provavelmente serviram de trilha para o desenvolvimento emocional que o levou até ali. Assim, os anos 90 tem seu revival na mesma medida em que aqueles que viveram a época a carregam dentro de si. O Girls conseguiu fazer disso um belo disco. (Marcus Martins)

Ouça aqui o stream do álbum.

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Girls é uma banda essencialmente amorosa. Quantas no universo da música também não são? Christopher Owens, porém, é um homem cheio de particularidades. Sendo a principal delas, provavelmente, esse escopo musical-sentimental de abrangência quase ilimitada. É impressionante como cada música de Father, Son, Holy Ghost consegue trilhar um caminho próprio, da baladinha com traços shoegaze à Kevin Shields de “Alex” ao heavy metal motorheadiano de “Die”, do pop careta de “How Can I Say I Love You” à experimentação acústica e minimalista de “Just a Song”. Existe alguma coisa que o Girls não faça nesse disco? E o mais incrível é ver uma seleção tão distinta, mas tão equilibrada, ainda que a banda perambule por uma infinidade de possibilidades (como já fizeram em certo grau em Album), Owens consegue dar um sentido único ao todo, como se a banda, finalmente, cravasse uma espécie de identidade que pode soar mutável, mas é fiel ao perfil cru e sentimental que tanto os caracterizou.

Em tempos em que muitos preferem se fechar em uma zona de conforto (Washed Out e a corja pós-chillwave que o digam), o Girls parece se arriscar sem medo de ser feliz, ou, no caso de Owens, sem medo de se tornar uma espécie de papa da melancolia amorosa inconsequente. Chegando ao seu mais poderoso ápice em “My ma” e “Vomit”, duas pedradas sentimentais, arrastadas e de uma tristeza deliciosamente contagiante. Indo do country ao soul em poucos movimentos, talvez as faixas que melhor representam toda a maleabilidade criativa da banda, ainda que mantendo essa identidade única forte. Father, Son, Holy Ghost faz da simplicidade de alguns instrumentos básicos da música uma viagem sonora que vislumbra territórios diversos, explorando um imaginário pop que se apropria de uma infinidade de gêneros mas que, no final das contas, soa simplesmente como a banda de rock dos nossos sonhos. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 8 de setembro de 2011 por em folk, pop, rock e marcado .
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