Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lukid – Spitting Bile (2011; Glum, Reino Unido)

Luke Blair flerta com tantos estilos e possibilidades em sua carreira que fica cada vez mais difícil definir seu trabalho. A coisa vai se diluindo tanto que no final das contas nem vale muito a pena ir atrás de uma definição exata. Confesso que muitas vezes me perco nessa infinidade de gêneros e subgêneros da atual cena eletrônica, especialmente a inglesa. Parece que a cada nova relação que a música estabelece com o ouvinte, prontamente já existe um novo termo a ser usado. Ótimo para definir novas particularidades sonoras, perigoso por possíveis limitações que toda definição em si já carrega. Definitivamente consequências bastante compreensivas de um dos mais prolíficos horizontes da música contemporânea. No caso de Lukid, a dificuldade de uma definição exata não é nem tanto pela complexidade desse trabalho – Blair parece dispor de um arsenal teoricamente simples na concepção das faixas -, mas sim pelo uso bastante particular e até radical desses poucos elementos.

Em “My Teeh In Your Neck”, batidas em movimento sempre circular e repetitivo competem por espaço com um sample vocal picotado e bastante ágil, lembrando talvez alguns momentos do já camarilhado Room(s) do projeto Machinedrum, ainda que no caso de Lukid a progressão da música nunca seja exatamente explícita, evitando sempre um padrão muito preciso. “Spitting Bile”, que dá nome ao EP, talvez a faixa mais radical do disco, começa com synths extremamente crus e um jogo de percussão bastante básico e mesmo desordenado, até a entrada de alguns elementos graves que sugerem uma possível melodia cavernosa. Curioso como em certo ponto a faixa trabalha com volumes quase estourados, coisa que não exatamente afeta a qualidade da música (ou talvez afete para algum desavisado), mas que nos remete ao fato de que muitas vezes um simples fone de ouvido não é suficiente para absorver um som poderoso como esse. Quando chegamos nesse ponto, a possível melodia já foi arruinada e Blair parece interessado em algumas distorções, além de uma espécie de regressão proposital em todo o andamento da faixa. “Park It Low” nos recebe com ecos de hip-hop, outra vez o sample vocal em uma espécie de simbiose mutante com a camada grave da faixa, uma base repetitiva e perdida que não precisa de rimas? Outro saboroso enigma.

Com uma premissa quase lo-fi, ainda que um lo-fi meio avant-garde, meio futurista, sempre cru e agressivo, Spitting Bile é quase um OVNI. Um trabalho que recusa uma simples classificação e parece propor, simplesmente, que o ouvinte se entregue a uma apreciação intuitiva. Ouvidos atentos e mente aberta, então. (Arthur Tuoto)

Ouça “My Teeth In Your Neck” e “Spitting Bile

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Publicado às 8 de setembro de 2011 por em eletrônica, EP da semana, experimental e marcado , , .
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