Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Maria Minerva – Cabaret Cixous (2011; Not Not Fun, EUA)

Maria Minerva é o pseudônimo da cantora e compositora estoniana Maria Juur (Tallinn,1988). Ela estudou na Academia Estoniana de Artes, onde fez sua monografia de final de curso sobre a arte sonora (sound art) em seu país. Trabalhou como crítica de artes visuais e de música (incluindo um estágio para a revista Wire Magazine), e mudou-se para Londres em 2010 para fazer mestrado no Goldsmiths College. Seu primeiro lançamento foi o cassete Tallin at Dawn, pelo selo Not Not Fun. O 12” Noble Savage, pela subsidiária da NNF 100% Silk, saiu logo depois. Cabaret Cixous, seu primeiro álbum, foi lançado em agosto deste ano. (RG)

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Se você já ouviu o disco do LA Vampire com o Matrix Metals, So Unreal, você já está familiarizado com a música que ouvirá em Cabaret Cixous: um amálgama de pop vagabundo com presets de bateria eletrônica e de psicodelia dub – nos efeitos de eco e reverb, e não no ritmo ou no uso dos graves – e padrão lo-fi de gravação e equalização, produzindo uma sensação perene de névoa soturna por toda a audição. “Berlin Baby”, de So Unreal, já sugeria a dimensão “diva de cabaré” aplicada à estética presumida do selo Not Not Fun, viajandona, difusa, DIY. O que Cabaret Cixous vem trazer de novo não é um acréscimo, mas um aperfeiçoamento. O que Amanda Brown esforça-se por alcançar no LA Vampire parece brotar com absoluta naturalidade e desprendimento em Maria Minerva, das melodias singelas de voz aos xaropentos timbres de teclado (reminiscentes dos anos 80 mas não miméticos a eles) passando pelos ganchos pegajosos e pelas proibitivas texturas esfumaçadas criadas pela produção.

O resultado desse amálgama é uma charmosíssima espécie de popstar outsider que exibe saborosos elementos de melodia safada embalados em glitter e lama. Apesar das referências principais do som de Maria Minerva estarem contidas na própria Not Not Fun e no conceito de pop adulterado por alguns artistas recentes deste selo (e que, tirando a parte pop, encontra ressonâncias no trabalho de outros artistas recentes em paragens mais ambient/erudito, como Leyland Kirby, Philip Jeck e William Basinski), boa parte de Cabaret Cixous lembra o modo como certo shoegaze britânico dos anos 90 conjugava inocência celestial com névoas volumosas, à maneira do My Bloody Valentine pré-Isn’t Anything (bem lo-fi também, aliás) ou o Lush dos primeiros EPs. Um patente prazer em sujar melodias limpas com efeitos, em flertar com o pop perfeito para deliberadamente torná-lo imperfeito.

“These Days” começa o disco com os vocais mais carregados de efeitos que ouviremos em todos os quase 40 minutos de disco. “Pirate’s Tale” desvia esses efeitos pras linhas de synths, que combatem brutalmente o vocal nos registros de agudo provocando uma sensação de flutuação entre os dois elementos. Já “Luvcool” é uma balada morosa com acompanhamento de bongôs e camadas de teclado vintage; a carga atmosférica é impressionante. Mas o grande destaque de Cabaret Cixous é “Laulan Paikse Kaes” com sua deterioradíssima equalização, graves saturados e agudos emitindo chiados, embalando um ritmo sinuoso e um vocal cantado como se emitisse uma palavra de ordem sexy. A partir daí, o disco trata apenas de manter o clima estabelecido, com faixas simpáticas mas evidentemente menores. O ganchudo refrão de “Ruff Trade” leva serenamente o disco a seu final. Maria Minerva é um talento promissor que ainda pode crescer e se aperfeiçoar, mas o talento bruto apresentado em Cabaret Cixous (e também em Tallinn at Dawn e Noble Savage) já é o suficiente para alçá-la a uma das figuras mais interessantes do ano e, de quebra, adicionar mais um motivo para a Not Not Fun ser uum dos grandes selos de 2011. (Ruy Gardnier)

Ouça “Pirate’s Tale” e “Luvcool”. “Laulan Paikse Kaes” faz parte do Camarilha Podcast #59

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A palavra aqui não é exatamente retrô. Talvez “caseiro” seja um adjetivo que se adeque mais ao trabalho dessa jovenzinha bastante peculiar que é Maria Minerva. Ao mesmo tempo em que a moça não se entrega de corpo e alma nessa estética rádio AM 80’s, como bem faz um Ariel Pink da vida, assimilando aí seus devidos apelos pop e outras caretices nostálgicas, Minerva também não chega a ser uma artista do noise ou de uma experimentação mais radical. Ela parece encarnar muito bem um papel que fica entre a diva lo-fi do ruído melódico e a fanfarrona do pop precário. Em alguns vídeos ou mesmo no clipe oficial de “Ruff Trade”, notam-se esse trejeitos com que a garota encara a câmera (ainda de forma mais particular nessa estética webcam), tentando simular, à moda mtv, essas caretas mainstreams de uma Taylor Swift ou Avril Lavigne que o valha. Como ela bem descreve em sua página no facebook: avant pop.

“Ruff Trade” e “Soo High” são talvez as duas únicas possibilidades mais óbvias de um hit tirado do álbum, porque de resto Minerva não parece muito interessada em tecer faixas fáceis ou que enveredam pelo caminho do chillwave bacanão. Pelo contrário, o disco é cheio de camadas confusas e nada equilibradas, vocais ultra arrastados e pouco compreensíveis, além de pequenas precariedades técnicas que escondem um mundo em detalhes. “Laulan Paikse Kaes” é um belo exemplo: com um vocal extremamente abafado (como boa parte dos vocais do disco) e uma centelha aguda que beira o irritante, Minerva aos poucos vai destilando seu encanto onírico. Sons se misturam, volumes se confundem, timbres se debatem, e a faixa embarca em um movimento de força sinérgico bastante especial, para ser arruinada cerca de dez segundos antes de seu término, com a volta do ganchinho pop todo estragado. Travessura sedutora.

Cabaret Cixous é um lo-fi que soa de fato espontâneo, sem se preocupar muito em criar uma estética reconhecível ou se apoiar sobre uma base nostálgica, e que muito menos busca a fácil legitimação em um meio hipster festivo. Ou seja, se você não aguenta mais esse dream pop safado e todo maquiado, Minerva ganha pela baladinha subversiva precária, cheia de sonzinhos, ruídos e sussurros que a garota vai usando para aos poucos seduzir o ouvinte. E de fato é uma estética envolvente, ainda que nunca muito óbvia, caseira no sentido íntimo da coisa. Quase como se apaixonar por aquela menina estranha do colégio, que se veste de uma forma bizarra e te apresenta sonzinhos assombrosos no discman. Tem como não resistir? (Arthur Tuoto)

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Publicado às 14 de setembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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