Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Field – Looping State of Mind (2011; Kompakt, Alemanha [Suécia])

The Field é o principal pseudônimo de Axel Willner, DJ e produtor de música eletrônica nascido no sul da Suécia e estabelecido em Estocolmo. Suas primeiras produções vieram à luz em 2005, o 12” Things Keep Falling Down e o remix para “Heartbeat” de Annie. Seu primeiro álbum, From Here We Go Sublime, foi lançado em 2007 e tornou The Field um dos nomes mais incensados na música eletrônica atual. Yesterday and Today, o segundo disco, veio em 2009. Assinou remixes, geralmente muito elogiados, para artistas como Battles, The Honeydrips, Gui Boratto, Thom Yorke e Junior Boys, entre outros. Looping State of Mind é seu terceiro álbum e foi lançado pela Kompakt (assim como os outros dois) digitalmente em setembro de 2011 (versões em vinil e CD em outubro). (RG)

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Ninguém na música atual tem tanto prazer em deixar um som soar por oito vezes e depois anexar mais um som pelas mesmas oito vezes, e depois repeti-los à exaustão, acrescentando no processo alguma coisa ali, outra coisa acolá, que irão criando variações discretas mas que aos poucos vão mudando sensivelmente o equilíbrio da faixa. É comum descrever o som do The Field como uma sensibilidade que une a indução ao transe típica do techno com um refinado ouvido para timbres delicados associados ao ambient, mas o que há de mais característico em seu som é o método de composição, próximo do minimalismo, que consiste em ir desfolhando aos poucos os elementos sonoros de partida e ir adicionando um por um aos poucos, depois de ter trabalhado cada um suficientemente a ponto de ele grudar no todo como se estivesse lá desde o começo. Seu primeiro disco, From Here We Go Sublime, assim como seus remixes até hoje, trabalham preferencialmente em modo horizontal, sem uma progressão mais distintiva das composições. Desde Yesterday and Today, no entanto, Axel Willner também tem se aventurado por um modo expansivo de composição, em que os elementos vão entrando aos poucos e no final das contas compõem um mosaico robusto que lembra mais a sensualidade neodisco de um Lindstrom ou de um Prins Thomas do que os labirintos espaciais de um Steve Reich. Looping State of Mind mantém a mesma lógica, apenas abdicando do convívio entre eletrônica e instrumentos acústicos de algumas faixas do disco anterior. Mas mesmo que varie o processo, algo não varia: Axel Willner continua sendo um fantástico fundista. Em meio minuto, é comum que se pense de uma faixa “Isso não vai dar em nada”; ao longo de seis, oito, dez minutos, o êxtase impele a considerá-lo um dos maiores do mundo.

Assim como foi do horizontal para o expansivo, a música do The Field aos poucos foi largando a desafetação do cool e partindo para a carnalidade e a emoção. No disco anterior correspondia ao “ao vivo” dos instrumentos acústicos, e aqui corresponde às linhas de baixo que vêm preencher o som de forma vigorosa. Especialmente em sua primeira metade, Looping State of Mind tem as faixas mais diretas e apropriadas à pista de toda a obra do The Field (ainda que, curiosamente, não tenha nada que remotamente lembre os ganchos de “Over the Ice” ou “A Paw in My Face”), e o piano de “Then It’s White” revela um lirismo explícito que só evita a cafonice porque a composição evolui através de outros elementos (a faixa lembra o Four Tet da época de Pause). Para muitos artistas eletrônicos, especialmente de techno, sair do cool seria uma desvirtuação tendendo ao kitsch. Mas no caso de Willner parece um prolongamento natural de seu som, apenas fugindo do ambiente bem controlado do gênero e alçando novos e ambiciosos vôos. Vôos que ele domina de forma tão orgânica e harmoniosa que parece que ele faz isso desde sempre.

Os dois grandes destaques do disco são, nada coincidentemente, as faixas mais longas, “Arpeggiated Love” e “Looping State of Mind”. Em ambas, o trabalho minucioso de evolução é de tirar o fôlego, e um espaçamento maior permite uma atenção maior à evolução das células sonoras. As três primeiras, “Is This Power”, “It´s Up There” e “Burned Out”, como já dito, são puros petardos. Mas aquilo que mais credencia Looping State of Mind para ser considerado o melhor álbum do The Field até agora é a forma como cada faixa parece somar-se a outra e compor uma mega-suíte em vários movimentos, mas respeitando a individualidade de feeling de cada faixa. Um completo domínio do tempo, da duração, da percepção e da assimilação dos movimentos: Axel Willner não é um artesão, é um alquimista. (Ruy Gardnier)

Ouça “Arpeggiated Love” e a faixa-título do álbum.

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Looping State Of Mind é basicamente um trabalho de orquestração. Exímia, intuitiva e sempre precisa orquestração, quase uma matemática emocional. Um equilíbrio bastante difícil de se conceber, e que se formos pensar na incrível fluidez das faixas do álbum, Axel Willner faz parecer até fácil. Coisa que obviamente não é. Com entradas e saídas quase imperceptíveis, os samples do disco são regidos de forma que se sustente uma progressão quase sempre hipnótica, criando paisagens sonoras de perdição e suspensão que parecem desafiar qualquer sentido temporal próximo do normal. E mesmo quando a coisa começa a soar muito exata ou calculada demais, “Then It’s White” vem quebrar um pouco com isso. Com notas de um piano arrastado e melancólico, um sussurro repetitivo e um jogo de percussão tímido, depois de dar várias voltas em si mesma, a faixa desabrocha com um vocal suave que repete o título da música – Then it’s white – várias vezes. Uma sinestesia curiosa e bastante propícia para uma das últimas faixas do disco. Se o branco pode ser a junção de todas as cores, por que não de todos os sons? Uma paisagem totalizante? Willner propõe um trabalho complexo que se debruça não só sobre a peculiaridade sonora-sensorial do loop, mas especialmente sobre suas possibilidades temporais, criando faixas longas que inauguram blocos astrais de um fluxo energético intenso e sempre convidativo. (Arthur Tuoto)

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Um comentário em “The Field – Looping State of Mind (2011; Kompakt, Alemanha [Suécia])

  1. dieta
    15 de setembro de 2011

    Como resultado dessa busca por trabalhos carregados de ineditismo e originalidade nascia o Kompakt selo que em mais de dez anos de atuacao alavancou uma serie de importantes representantes do cenario eletronico contemporaneo..Entre nomes como o brasileiro Gui Boratto o proprio Mayer alem dos veteranos do The Orb a Kompakt foi responsavel por dar vida a um dos projetos mais inventivos do panorama eletronico o The Field um pseudonimo escolhido pelo sueco Axel Willner e inegavelmente o maior representante do minimal techno atual.

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Publicado às 14 de setembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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