Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ariel Pink’s Haunted Graffiti – “Netherlands” (2002; Ballbearings Pinatas, EUA)

Existe um enorme paradoxo que paira sobre a estética do Ariel Pink’s Haunted Graffiti. Como é possível tanto desleixo e tanta tosquice conviverem com tamanha diligência com a qual Ariel Rosenberg (seu vocalista e, até pouco tempo, membro único) lapida a sonoridade do grupo? Porque se de um lado ele se expõe ao ridículo ao cantar, gritar e esganiçar melodias completamente fora do tom, em pose e trejeitos extremamente afetados, a banda (representada por nerds tão caricatos que beiram o estereótipo) exibe técnica impecável ao executar as canções e reproduzir, em seus instrumentos, timbres comuns ao rock dos anos 70 e 80. E por mais que “Netherlands”, tirada de seu primeiro disco, House Arrest / Lover Boy (2002), tenha uma qualidade de gravação calculadamente ruim e incômoda, com a bateria saindo do compasso e os instrumentos parecendo estar fora de sincronia, sua estrutura apresenta uma arquitetura muito bem pensada, compreendendo mais de nove minutos de duração, com riff de guitarra à la “Sounds of Silence”, climão Jefferson Airplane com um quê de Nico solo, teclados com variações prog, solos hard rock, melodias e levadas sessentistas, falsete tão sem vergonha que beira uma voz feminina e riff metaleiro ao final, terminando em fade.

Ao vivo (como os cariocas tiveram a oportunidade de conferir na última sexta-feira, no Circo Voador), fica evidente ainda outro aspecto que talvez não se perceba nos discos: Ariel Pink’s Haunted Graffiti é a expressão máxima da decadência. Mas uma decadência, devo lembrar, com probidade. Porque ao se assumir um nerd, loser e mau cantor, Ariel está se projetando como aquilo que ele realmente é, sem esconder seus gostos, seu íntimo e seu estilo de vida – há excesso, nunca exagero. Além disso, existe uma habilidade extraordinária em juntar referências obscuras às mais populares (R. Stevie Moore a The Mamas & the Papas) e criar melodias grudentas e, muitas vezes, épicas, como a de “Round and Round”. Nesse sentido, Ariel Pink se assemelha a alguns dos grandes nomes do rock, que tão bem operaram no registro da autoparódia, a exemplo de New York Dolls, Sex Pistols e Stooges.

Poderia o rock sobreviver aos dias hoje sem a autoconsciência do quão ridículo é, na verdade? (Thiago Filardi)

Ouça aqui “Netherlands”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 18 de setembro de 2011 por em Baú da Camarilha e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: