Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kassin – Sonhando Devagar (2011; Coqueiro Verde, Brasil)

Alexandre Kamal Kassin é músico, produtor, compositor e multi-instrumentista. Nasceu no Rio de Janeiro em 1974 e iniciou a carreira musical nos anos 90, no cultuado grupo Acabou La Tequila. Na década passada, lançou discos com o trio +2, ao lado de Moreno Veloso e Domenico Lancellotti. Futurismo, cuja liderança é sua, veio em 2006. Kassin é membro fundador da Orquestra Imperial e possui projetos paralelos, como o Artificial, além de manter o estúdio Monoaural. Ele também fez a trilha sonora para o anime japonês Michiko to Hatchin e produziu álbuns de Caetano Veloso, Jorge Mautner, Los Hermanos, Adriana Calcanhotto, Vanessa da Mata, Mallu Magalhães, entre outros. Sonhando Devagar é o primeiro disco solo sob seu nome. (TF)

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O conceito fundamental de Sonhando Devagar é, no mínimo, bastante original e um tanto inusitado: quase todas as letras foram feitas a partir de sonhos que acometeram a mente de Alexandre Kassin. A ideia, segundo ele, veio com “Homem ao Mar”, música do álbum Futurismo, na qual ele descreve um sonho recorrente, que tem desde criança, sobre estar completamente perdido e sozinho no meio do oceano. Em Sonhando Devagar, situações bizarras e impagáveis são narradas, como o músico na pele de um animal predador no coração de uma selva (“Mundo Natural”); a mulher que mexe os traseiros bem devagar quando sai de manhã e com a qual ele deseja ter relações sexuais no banheiro dos paraplégicos (“Calça de Ginástica”); a cabrocha que, quando samba, deixa-o imobilizado (“Quando Você Está Sambando”); ou o fato de seu sonho ter sido interrompido por conta de câimbras, causadas pela falta de potássio no sangue (“Potássio”).

Kassin sempre teve um jeito muito particular para escrever suas rimas, sem se preocupar com a prosódia ou com o encaixe semântico das palavras – o que, a propósito, deixa ainda mais evidente a influência já confessa de João Donato em sua obra. Nesse sentido, ele é o oposto de um Jorge Ben, por exemplo, para o qual as palavras são escravas da melodias, sendo importante apenas que elas façam sentido conforme a necessidade musical do fraseado. Na lógica de Kassin é a melodia que se torna dependente das palavras; estas, por sua vez, terão sua entonação modificada e duração prolongada (ou encurtada) de acordo com o desenho das notas e do ritmo. E o que pareceria ridículo na voz de qualquer outro cantor, toma uma dimensão natural e simpática na sua música, visto que ele não tem medo de esconder seus defeitos e, tanto suas imperfeições técnicas quanto sua aparência de nerd, são exploradas como meras características artísticas e físicas.

No que diz respeito ao seu aspecto sonoro, Sonhando Devagar também não surpreenderá aqueles já familiarizados com os trabalhos do Acabou La Tequila, +2 e os demais projetos de Kassin. O que se percebe, todavia, é uma grande evolução em sua síntese musical, que sempre abarcou as mais diversas correntes da música moderna, como o samba, rock, jazz, heavy metal, experimentalismo, funk etc. Há um refinamento inegável na escolha de timbres, na coesão estética das canções, na unidade de álbum e na dinâmica de grupo. Como não se envolver, já nos primeiros segundos, com os barulhos premonitórios de “Mundo Natural” e sua atmosfera tranquila, com base rítmica precisa – no entanto, quebradíssima – à la Domenico, melodia jazzística e o timing perfeito dos improvisos?

Da primeira à última, cada faixa é um acerto em seu próprio universo particular e quimérico; seja na melodia arrastada e tão bem delineada de “Potássio”; na sessentista e grudenta “Fora de Área” (uma reverência a “Call Me”); no samba-rock experimental de “Quando Você Quiser”; ou no samba-rock pleno de “Quando Você Está Sambando”; no hit imediato “Calça de Ginástica”, com batida disco e arranjos de sintetizador, que fazem alusão ao revival dos anos 80; ou na própria brincadeira com auto-tune em “Sorver-te”; em “Lin-Quer”, com sua bateria quase em marcha, que lembra “Alegria Vai Lá” do disco do Domenico+2; na balada “Lua do Sol”, feita com Sean O’Hagan do grupo High Llamas; e na belíssima “Em Volta de Você”, já presente no disco Ímã, do +2, em versão instrumental, e que permanece luxuosa em suas texturas e ainda mais sólida com a adição de letras.

Por isso, Sonhando Devagar é, ao lado de Um Labirinto em Cada Pé, do cantor e compositor paulistano Romulo Fróes, um dos melhores discos nacionais do ano. Porque é consistente na sua proposta e nas composições; porque experimenta com sabedoria ao mesmo tempo em que é acessível e solfejante; porque utiliza a forma da canção sem limitá-la e sem, principalmente, demonstrar qualquer desgaste da mesma; porque é relaxante e cool, mas, ainda assim, instigante; porque nos faz querer ouvi-lo muitas vezes e, a cada audição, nos permite notar detalhes de arranjo e letras para os quais não havíamos atentado; e porque, principalmente, levando em conta todos esses aspectos, nos faz lembrar o quão bonita, complexa e interessante já foi nossa produção fonográfica, nos remetendo aos álbuns que se preocupavam em dar continuidade à linha evolutiva da música popular brasileira, tais quais aqueles que tínhamos em abundância nos anos 60 e 70. Ou seja, Kassin fez um discaço. (Thiago Filardi)

Ouça o disco na íntegra aqui.

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Publicado às 21 de setembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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