Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nirvana – “In Bloom” (1991; DGC, EUA)

Vinte anos depois, a travessura autoral enlatada de Kurt Cobain ainda demanda algumas divagações. Muita baboseira, claro. Mas é inegável que a trajetória do Nirvana ainda revela muito, especialmente sobre a maneira como todos nós consumimos cultura. Ao diluir toda a sujeirinha grunge de Bleach em estruturas melódicas bravinhas, o Nirvana inaugurava, acima de tudo, uma coleção de hinos raivosos sem causa. Angústia adolescente devidamente embalada. Mais do que isso, uma fórmula a ser padronizada. E claro, tudo o que nós precisávamos. Mesmo quando “In Bloom” ou qualquer outro single do disco soa extremamente domesticado nos dias de hoje, as baladinhas simbólicas de Cobain, acompanhadas de sua revolta chapada, fazem sim alguma falta. Tentativas não faltaram. Será que o jovem ficou mais complexo? Ou a música, simplesmente, menos ingênua? “He’s the one / Who likes all our pretty songs / And he likes to sing along / And he likes to shoot his gun / But he knows not what it means”. Se um verso desses soa tão atual em 2011 quanto em 1991, desconfio que a investigação demasiada humana (não vamos nos limitar ao juvenil) em Nevermind, além de um espelho bastante conveniente para a época, serviu como prenúncio para uma idiotização em massa de uma certa cultura maneirista. Seria o nascimento de um estética? Ou puramente a grife comportada – “cultura pop” – dando seus primeiros sinais de vida?

Quando o Nirvana alia melodia e revolta, para se deparar com uma quantidade inimaginável de súditos, a ironia está feita. “In Bloom” nasce nessa perspectiva. Aquele que canta junto mas “não entende a nossa mensagem”. Ai a inocência de Kurt Cobain é denunciada, consequentemente sua falta de preparo para assimilar tudo o que veio depois. Talvez ingenuidade. Não sei nem se a questão é discutir o que Nevermind fez com mundo, ou o que o mundo fez com Nevermind. Quem quer ser o símbolo de uma geração? Carregar um fardo desses traz consequências e dores de cabeça que só o tempo mesmo fará questão de dizer, geralmente em forma de assombrações e outros fantasmas sagrados. “In Bloom” é só mais uma faixa-acontecimento dentro da catedral simbólica que o disco se transformou. Falar de Nevermind é como embaralhar as peças de um altar, não importa o quão iconoclasta se tente ser, a divindade do tempo é a maior das forças. Se a questão aqui é de fato intuir alguma mensagem, se sentir parte de alguma coisa ou, simplesmente, curtir os versos comportados e os refrãos raivosos do disco, pouco importa. Nevermind nos envolve com tanta desenvoltura quanto em seu lançamento. E a única possibilidade? Cantar junto. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “In Bloom”

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Um comentário em “Nirvana – “In Bloom” (1991; DGC, EUA)

  1. dieta
    23 de setembro de 2011

    Chad nao era um baterista mediocre bem pelo contrario mas Kurt Cobain andava descontente com o seu desempenho e decidiu dispensa-lo. Mas o que salta mais a vista neste caso ao ouvido e a emocao e a raiva da voz de Cobain. So um genio como Cobain podia transformar 3 acordes tao basicos em algo tao maravilhoso.

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Publicado às 22 de setembro de 2011 por em Baú da Camarilha e marcado , , .
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