Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

VHS Head – Midnight Section (2011; Skam, Reino Unido)

De um lado, a deveras irritante nostalgia hipnagógica que dilui sonoridades oitentistas com verniz de assepsia mauricinha (Thundercat), lo-fi (Ariel Pink) ou reducionista (Dam Funk). De outro, a fúria fragmentária da colagem e dos breaks radicais diretamente herdados de “Windowlicker” do Aphex Twin, fazendo a composição dobrar-se sobre si mesma produzindo uma dinâmica rítmica surpreendente. Do primeiro lado, uma música que, a despeito de sua aparente fluência, engatinha para trás. Do lado oposto, uma música que abre o caminho adiante revolvendo seus próprios passos. Nessa estranha conjugação de influências reside o talento de Ade Blacow (Blackpool, Inglaterra), um sujeito que utiliza o repertório mais espasmódico de batidas quebradas da eletrônica experimental dos anos 90 para renovar sonoridades enevoadas de sintetizador, baterias eletrônicas características dos anos 80 ou aprazíveis melodias pop/r&b. O que salva o VHS Head de não ser apenas mais um diluidor do drill’n’bass é o andamento marcadamente mais lento do que as composições do estilo e um apreço real pela melodia e pela fluência no desenvolvimento, não os utilizando apenas para quebrar tudo depois (ainda que inevitavelmente o faça, e o faça com vontade).

Depois de um prelúdio carpenteriano, “Sundown”, Midnight Section dá sua versão cubista do boogie e do r&b revisionistas com “Jager”, e apesar das sonoridades inequivocamente oitentistas, a faixa exala surpresa e imprevisibilidade por toda sua duração. Mais à frente do EP, “Death Dimention” é a faixa de maior pegada, com uma batida cavalgante e um andamento mais acelerado do que as outras do disco; os dois terços seguintes da faixa são também onde o domínio completo das estratégias de para-e-volta de Aphex Twin e Squarepusher se fazem notar com mais propriedade. “Midnight Section” dá nome e fim ao EP com uma faixa mais deslavadamente anos 90/IDM nas sonoridades, com breaks complexos emoldurando melodias vaporosas de teclado e samples vocais oníricos que lembram o Prefuse 73 dos primórdios.

Apesar da infinidade de nomes que o som do VHS Head suscita na audição, Midnight Section mostra um artista que a cada faixa cria para si um território singular regurgitando técnicas e sonoridades já utilizadas. No frigir dos ovos, é reciclagem o que ele faz, mas não soa como reciclagem. Soa como um liquidificador que produz uma mistura inaudita e revela, a despeito dos sabores originais, um gosto todo próprio. Soa como tudo que você já ouviu mas não parece com nada do que você já ouviu. (Ruy Gardnier)

Ouça aqui “Death Dimention”.

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Um comentário em “VHS Head – Midnight Section (2011; Skam, Reino Unido)

  1. Panama corporation
    1 de outubro de 2011

    Musicas com poucas notas instrumental enxuto e sonoridades elaboradas.

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Publicado às 22 de setembro de 2011 por em EP da semana e marcado , .
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