Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Death Grips – Exmilitary (2011; Third Worlds, EUA)

Formado em 2010, o Death Grips é um projeto de hip-hop de Sacramento, Califórnia. O grupo consiste em Zach Hill, prolífico baterista e membro de diversos projetos de noise e música experimental, mais conhecido por seu trabalho no Hella; além do vocalista Mc Ride e do produtor Flatlander. Lançado de forma independente pelo próprio grupo através do selo Third Worlds, Exmilitary é o primeiro lançamento do Death Grips, o disco foi liberado de graça para download, em formato mixtape, sob uma licença Creative Commons. (AT)

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Exmilitary mantém um curioso equilíbrio entre dois pólos. O hip-hop, em sua tradição mais bruta, com batidas carregadas e de atitude vocal hostil. E o punk, de clima cru, agressivo e progressões velozes e extremas. Não que o disco do novo projeto de Zach Hill seja um híbrido óbvio dos dois estilos. Apesar da coisa se vender quase sempre pela tag punk-rap, fica claro desde o começo do álbum que o homem tem ambições maiores. Acima de tudo, o disco é bastante preciso ao nunca deixar um extremo se destacar mais do que o outro. Uma alquimia da força, que ainda conta com um arsenal eletrônico para reforçar seu armamento. Mais do que isso, a cadência das batidas, os synths secos e uma infinidade de outros efeitos industriais parecem ser o que, de fato, media essa tenebrosa fronteira.

Tão fácil como odiar um trabalho desses é, com certeza, amá-lo até sua última gota de exagero extremista. Lembro dos meus 15 anos, quando só death metal me relaxava e nem eu mesmo sabia o porquê. Os gritos de MC Ride, mais do que um efeito vocal revoltoso e sonoro ao melhor estilo Atari Teenage Riot, soam quase que como orações raivosas em um ritual de sacrifício. “I am the beast I worship.”, ouvimos no refrão de “Beware”, primeira faixa do disco. Iniciada com uma fala de Charles Manson (talvez seu único pecado mais óbvio), as rimas da música são vociferadas como salmos sagrados em uma base confusa e sempre imprevisível. Imprevisível, aliás, talvez seja a grande cartada aqui. Apesar do disco manter um corpo sonoro bastante regular em suas referências extremas, é difícil saber para que território a próxima música vai nos levar. Ou mesmo em uma única faixa, Hill e sua trupe nos pegam de sobressalto em vários momentos. “Lord of the Game” é quase um funk carioca, uma melodia confusa e cheia de colagens que remete tanto ao mais saudável pop motorizado de uma M.I.A., como a um proibidão agressivo e de atitude marcante. Como boa parte das letras do álbum, a faixa é cheia de remorso e reflexões questionáveis a cerca de uma descrença no que quer que seja de humano. O disco, aliás, parece que aos poucos vai criando um personagem, um ser anárquico que renega qualquer tradição moralista ou minimamente civilizatória. Seja por suas letras cada vez mais extremas, seja por sua crescente atitude in your face e outros chiliques radicais.

Falando em temáticas, “Klink” parece ser uma das faixas que melhor se apropria de toda essa poética extrema para, de fato, construir um pensamento um pouco mais regular. Rimas cuspidas sobre uma base, literalmente, gritada, a faixa é cheia de samples circulares ultra velozes e vai direto ao ponto: lida com um imaginário de autoridade com versos inspirados e sempre anárquicos. “They’re knocking at my door, down my door / They’re shining lights in my eyes / Exactly what do they stand for / Ever asking more of I man why / Like it matters why I chose to ignore / All the laws I’ve been told to abide.” Mais descrença, mais inconsequência. Frases que começam no meio da anterior. O organismo anárquico que aos poucos o disco vai esculpindo começa a ganhar traços mais reconhecíveis, ainda que sempre caóticos. Suas texturas tendem a ficar mais complexas e seu clima industrial mais enigmático. Energético, acima de tudo. Uma narrativa com direito a samples inusitados que vão de Black Flag e The Castaways a Link Wray e Pink Floyd. Maravilhosamente apropriados.

A atitude geral de Exmilitary é fundada em uma violenta política da desordem e do descontrole. Ingenuidade? Nem tanto. O disco nos faz pensar em caminhos estéticos que muitas vezes são abertos assim, feito um rasgo à força, um coquetel molotov, um exorcismo extremo que explode diante nossos ouvidos. Se para alguns o álbum falha em alguns sentidos, é provável que seja pelos seus excessos. Mas dada a entrega musical, pessoal e moral do trabalho, fica difícil julgar o que aqui ultrapassa os limites que nem o próprio parece definir. Um mistério tenebroso, sempre um respiro. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “Klink”
Ou baixe aqui Exmilitary, liberado pelo próprio grupo.

Guillotine fez parte do Camarilha Podcast #57

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Maravilhosa a época em que você pode disponibilizar gratuitamente sua música, colocar as bases instrumentais para serem baixadas e retrabalhadas por outros artistas, criar um centro de comunicação para informar sobre o que quiser, letras, futuros shows etc., e ainda assim fazer questão de manter o próprio anonimato sobre quem são os membros do grupo… ao menos por um certo tempo. Exmilitary mostra um projeto extravagante que funciona como metralhadora giratória hibridizando hip-hop, hardcore, industrial e eletrofunk, rapeando gritado (BEM gritado) e soltando uns samples inacreditáveis, indo de “Interstellar Overdrive” do Pink Floyd a “Rise Above” do Black Flag. Os climas também variam bastante, sempre soltando agressividade pelos poros, mas ela pode vir desde a gritaria extrema à malemolência de uma M.I.A., naturalmente trocando o estrogênio pela testosterona (o charme lúdico e a doçura naturalmente se perdem no caminho). As treze faixas de Exmilitary levantam sobrancelhas com alguma frequência, umas tantas vezes pela perspicácia musical, outras tantas porque parece que, certas vezes, na falta de outra opção, eles gritam qualquer coisa só porque é divertido fazê-lo. A primeira audição é acachapante, e ainda que nas audições subsequentes uma certa tensão se mantenha, ao menos metade das faixas revela pouca inspiração para tanta intensidade. Outras horas o Death Grips lembra os crossovers rap-metal dos anos 90. Mas quando surge uma “Lord of the Game”, uma “Klink” ou sobretudo uma insanidade baticum-quicante como “Thru the Walls”, o Death Grips diz a que veio com todas as letras e os decibeis. Não é o projeto da vida de ninguém, mas esse bando de caras que se juntou para se divertir fazendo barulho definitivamente chama a atenção pelo inusitado e pelo inaudito da proposta e da sonoridade. Mas o atacado chama mais atenção do que o varejo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 27 de setembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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