Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Leyland Kirby – Eager To Tear Apart the Stars (2011; History Always Favours the Winners, Reino Unido)

Através de uma infinidade de projetos, tais como The Caretaker, V/Vm, Notorious P.I.G, Billy Ray Cyrix, entre outros, o prolífico compositor inglês Leyland James Kirby vem criando uma obra desafiadora que flerta tanto com o noise e o drone, como com experimentos eletrônicos e o ambient. Fundou o selo History Always Favours The Winners, responsável pelo lançamento da maioria de seus trabalhos de maneira independente, recusando, inclusive, qualquer sistema de distribuição mainstream como iTunes e outros. Para assim, segundo o próprio, manter total controle sobre sua obra. Desde 2009 passou a lançar alguns trabalhos utilizando-se do próprio nome, sendo Eager To Tear Apart The Stars o mais recente deles. (AT)

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Mitologia musical. Talvez só isso defina a grandeza desse imaginário sonoro de extrema particularidade que Leyland Kirby vem explorando nos últimos anos. Pequenos mundos, constelações próprias e ambientes metafísicos fazem parte dessa utopia musical que é a obra de Kirby. Apesar de tudo isso soar até um pouco épico demais, o trabalho do inglês parece que fica muito bem balanceado entre um primitivismo memorialístico e um lo-fi cavernoso conceitual. Caseiro-épico, talvez. Uma música que remete ao passado mas que nunca deixa de estar quase sempre olhando para o futuro. Através de uma imensidade de subprojetos, fica claro que uma das principais questões de Kirby é uma busca sonora material, plástica, quase escultural. Música tátil, para se pegar com a mão e deixar corpo e mente embarcarem juntos. Eager To Tear Apart The Stars em um primeiro momento pode parecer um trabalho menor, aleatório para alguns. Em searas obscuras como essa, às vezes uma estética é tão ou mais importante que o recheio. Feliz do nosso excêntrico inglês que alia as duas coisas com relativa facilidade, mantendo uma saudável distância do instrumental bizarrinho ao mesmo tempo em que nos presenteia com paisagens sonoras das mais variadas, além de capas e trabalhos gráficos dos mais sugestivos

O disco nos recebe com vestimentas dramáticas. “The Arrow Of Time” tem timbres medievais que soam futuristas, um piano carregado e uma camada new age que beira o pior da world music. Contrastes que só alimentam sua riqueza sensorial. Características que nos acompanharão em boa parte do álbum, em especial no que diz respeito a sobreposições oníricas e pianinhos melancólicos. “This Is The Story Of Paradise Lost” é um mergulho triste, precário e altamente sedutor. Algo como a trilha sonora de um pornô softcore ripado de um vhs mastigado. A materialidade do tempo? Ainda que a música siga seu andamento chapado, um chiado repetitivo ao fundo insiste em transformar o quadro, fagulhas cintilantes e pequenos tratos de difícil assimilação. Sutilezas do nosso maestro que fazem toda a diferença.

“No Longer Distance Than Death” tem um fundo ruidoso dos mais envolventes, elementos graves estourados e uma espécie de sussurro contínuo enigmático. A música de fato remete a uma experiência de vida e morte, ou flerta muitíssimo bem com uma mitologia sombria bastante particular, duas fronteiras que se debatem: um limbo musical dos mais apetitosos. “They Are All Dead, There Are No Skip At All” é quase uma canção de ninar. Cheia de sininhos, harpas e outros timbres infantis, a música vai aos poucos embarcando em um movimento melódico bastante característico. Mais sussurros, monstrinhos expressionistas nos acompanham. Talvez nos relatem algo em uma língua que ainda não assimilamos, mas que com certeza Kirby domina. Lúdica e cheia de pequenos mistérios indecifráficas, a faixa, uma das melhores do disco, inaugura uma espécie de delicadeza tétrica sedutora. Como boa parte do disco, parece mediar um qualidade que fica entre a dissonância sombria e a harmonia melancólica.

Leyland Kirby não parece buscar uma estética exatamente identificável, muito menos manter uma ordem criativa de linguagem regular. A busca por novas percepções, tons e materialidades é o que rege sua proposta, seja aonde isso for o levar. Claro que tudo isso pode servir, facilmente, como simples desculpa para qualquer carreira irregular que seja. O caso é que Kirby continua a nos surpreender, flertando com o que quer que seja, o cabeludo parece sempre achar um jeitinho de nos chocar da melhor forma possível. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “They Are All Dead, There Are No Skip At All”
“No Longer Distance Than Death” fez parte do Camarilha Podcast #61

 

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Pode-se resumir grande parte da estética de Leyland Kirby, seja sob seu próprio nome seja pelo pseudônimo de The Caretaker, como o embate entre os ruídos de fundo (e aquilo que eles trazem de destruição, de detrito, de ação erosiva do passado na forma de desgaste, de impureza) e as pretensamente ingênuas melodias criadas (nos discos Kirby) ou resgatadas de discos de 78 rpm (como The Caretaker). Nesse embate, a melodia é ressignificada pela força da erosão, ganhando uma qualidade de relíquia, de monumento da vitória sobre o tempo, mas não uma vitória completa — um torso sem braços, por assim dizer. Esse é o brilho particular das notas esparsas executadas ao longo de Eaget To Tear Apart the Stars, notas que pelo espaçamento entre elas se recusam a compor fraseados, e acabam sendo sentidas como pura presença, atemporais e sem circunscrição de um espaço definido. Como William Basinski e Philip Jeck, Leyland Kirby é um poeta da deterioração. Portanto, mesmo quando parece que ele só está fazendo modern classical “sensível” aos moldes dos artistas da Type Records, como em “This Is the Story of Paradise Lost”, é preciso olhar mais atentamente e ver o aquém – a falta de “beleza” – e o além – uma dimensão de nostalgia intencionalmente forçada – da comparação para ver o que se destaca no trabalho de Kirby e faz dele um dos criadores sonoros decisivos de nossa época. As facetas mais anômalas dos dois Intrigue & Stuff (ambos lançados esse ano) estão ausentes, e a organização sonora se estabelece mais detidamente entre o celestial e o cavernoso, entre a sobrevivência e a destruição. Quando há piano, somos transportados a uma esfera reminiscente de Angelo Badalamenti, caso este só pudesse tocar uma nota a cada cinco segundos. Quando não há, como em “No Longer Distance Than Death” (possivelmente o grande destaque do disco), as camadas ameaçadoras e as angelicais se fundem com mais propriedade, criando um amálgama de emoções intensas que é impossível definir. Saudades de um futuro projetado e impossível? Memórias de um paraíso onde não havia tempo? Sabe-se lá, mas o que se sabe é que esta nostalgia forçada não cria um passado confortável para melhor se instalar: ela conduz a um questionamento lúdico e perturbador da temporalidade de que muitos poucos artistas são capazes. (Ruy Gardnier)

 

 

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Publicado às 27 de setembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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